Em ano de eleição presidencial, o governo Lula mobilizou quase R$ 200 bilhões em medidas econômicas — de transferências de renda a subsídios de combustíveis —, enquanto a equipe econômica insiste que responsabilidade fiscal e motivação política são categorias distintas. O pacote cresceu de R$ 144 bilhões em maio para R$ 193,8 bilhões em setembro, acompanhando o calendário eleitoral com uma regularidade que poucos observadores consideram coincidência. A história que se desenha é antiga: governos que distribuem recursos quando o povo vai às urnas, deixando para o futuro a conta do que foi promet
Pacote de Lula em ano eleitoral mobiliza quase R$ 200 bilhões
Superávit de R$ 10,8 bilhões pode virar déficit se receitas não atingirem metas
Como o governo justifica esse pacote de quase R$ 200 bilhões em ano eleitoral? Não parece exatamente coincidência de timing?
O governo nega que haja caráter eleitoral. Dario Durigan, o ministro da Fazenda, argumenta que as ações são responsáveis e respeitam o orçamento, ao contrário do que aconteceu no último ano de Bolsonaro. Legalmente, não há impedimento para tomar essas medidas durante o período eleitoral.
Mas é importante notar que o pacote cresceu de R$ 144 bilhões em maio para R$ 193,8 bilhões em setembro. Esse crescimento acelerado coincide exatamente com a deterioração da situação eleitoral de Lula nas pesquisas. Pode não haver impedimento legal, mas o timing é inegável.
E quanto ao risco fiscal? O governo tem margem para isso?
O governo projeta um superávit de R$ 10,8 bilhões para 2026, o que teoricamente permitiria absorver esses gastos. Mas há um problema: duas fontes de arrecadação estão com desempenho abaixo do esperado — dividendos de estatais e tributação de dividendos.
Exatamente. O TCU já alertou sobre a baixa arrecadação com tributação de dividendos. Se essas projeções forem reduzidas e o governo não encontrar outras fontes de receita, aquele superávit vira déficit. Aí sim, precisará fazer contingenciamento. Ainda não sabemos se a Fazenda vai revisar essas projeções.
Então o pacote depende de números que podem não se concretizar?
Depende. Das vinte ações, nove têm impacto fiscal direto. As outras onze usam linhas de crédito com juros reduzidos via fundos estatais de garantia, o que tem menos impacto direto no orçamento. Mas sim, há incerteza nas receitas que compensariam os gastos.
E vale lembrar que medidas como o subsídio ao diesel e a desoneração de combustíveis estão previstas para encerrar em outubro, mas podem ser prorrogadas. Isso significa que o custo real pode ser maior do que o projetado para 2026.
Qual é o público-alvo dessas medidas?
Diversos. Vai desde beneficiários do Bolsa Família até motoristas de aplicativo com o Move Brasil, que tem R$ 30 bilhões disponíveis. Há também a revogação da taxa sobre compras de até US$ 50 e reforço no Minha Casa, Minha Vida. Parece uma estratégia de atingir segmentos diferentes.
Justamente. Lula tem maiores taxas de rejeição em alguns desses públicos — motoristas de aplicativo, por exemplo. Isso sugere que o pacote foi desenhado para tentar ampliar apoio onde ele está mais fraco. Novamente, pode ser coincidência, mas o padrão é claro.
Le Pouls
- O pacote federal saltou de R$ 144 bilhões em maio para R$ 193,8 bilhões em setembro, crescendo a cada mês que aproxima o país das eleições presidenciais.
- Subsídios de R$ 7 bilhões mensais para conter o preço dos combustíveis e o aumento do Bolsa Família para R$ 691 colocam pressão direta sobre um orçamento já tenso.
- O Tribunal Superior Eleitoral foi acionado por aliados de Flávio Bolsonaro para questionar a legalidade das medidas, abrindo uma frente jurídica sobre o que o governo chama de política pública ordinária.
- A projeção de superávit de R$ 10,8 bilhões pode virar déficit se dividendos de estatais e tributação sobre dividendos continuarem abaixo do esperado, exigindo contingenciamento.
- Apesar do volume de recursos distribuídos, Lula mantém apenas empate técnico com Flávio Bolsonaro — 46% a 44% no segundo turno —, sugerindo que dinheiro público nem sempre compra votos.
Em ano de eleição presidencial, o governo Lula mobilizou quase R$ 200 bilhões em medidas econômicas — de transferências de renda a subsídios de combustíveis —, enquanto a equipe econômica insiste que responsabilidade fiscal e motivação política são categorias distintas. O pacote cresceu de R$ 144 bilhões em maio para R$ 193,8 bilhões em setembro, acompanhando o calendário eleitoral com uma regularidade que poucos observadores consideram coincidência. A história que se desenha é antiga: governos que distribuem recursos quando o povo vai às urnas, deixando para o futuro a conta do que foi prometido no presente.
O governo federal acumulou, ao longo de 2026, um conjunto de vinte medidas econômicas que somam R$ 193,8 bilhões em recursos mobilizados — quase R$ 200 bilhões distribuídos em pleno ano eleitoral. O levantamento feito pela Folha mostra uma trajetória consistente de expansão: R$ 144 bilhões em maio, R$ 180 bilhões em junho, e o valor atual registrado em setembro, às vésperas do período mais intenso da campanha presidencial.
Entre as iniciativas estão o aumento do Bolsa Família — de R$ 600 para R$ 691 por família —, subsídios de R$ 1 por litro no diesel para conter os efeitos da guerra no Oriente Médio nos postos de combustível, o programa Move Brasil com R$ 30 bilhões para motoristas de aplicativos financiarem veículos, e a revogação da tributação sobre compras internacionais de até US$ 50. Das vinte ações, nove geram impacto fiscal direto; as outras onze operam por meio de linhas de crédito subsidiadas via fundos estatais, sem pressionar diretamente o Tesouro.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, defende que as medidas são fiscalmente responsáveis e distintas das práticas do governo anterior. O governo projeta superávit de R$ 10,8 bilhões para 2026, margem que, em tese, acomodaria os novos gastos. Mas o Tribunal de Contas da União já alertou sobre a arrecadação abaixo do esperado com dividendos de estatais e com a tributação de dividendos — duas fontes que, se não se recuperarem, podem transformar o superávit projetado em déficit e forçar contingenciamentos.
No campo político, o efeito das medidas ainda não se traduziu em vantagem eleitoral clara. O Datafolha de 17 de setembro mostrou Lula com 46% no segundo turno contra 44% de Flávio Bolsonaro — empate técnico que se mantém estável. O pacote atinge segmentos variados da população, incluindo grupos onde o presidente enfrenta maior rejeição, o que sugere uma estratégia deliberada de ampliação de base em ano de disputa acirrada.
O governo federal mobilizou quase R$ 200 bilhões em medidas de impacto econômico direto durante 2026, um ano marcado pela corrida eleitoral presidencial. O montante inclui desde aumentos no programa de transferência de renda até subsídios para conter a alta dos combustíveis, refletindo uma estratégia de distribuição de recursos que cresceu consistentemente ao longo dos meses.
Em maio, quando a Folha fez o primeiro levantamento junto a especialistas e dados governamentais, o pacote de 11 ações somava R$ 144 bilhões. Ao final de junho, antes do período de restrições eleitorais que proíbe o governo de fazer inaugurações e campanhas de divulgação, o total havia saltado para R$ 180 bilhões distribuídos em 16 medidas. Até 17 de setembro, vinte ações diferentes chegavam a R$ 193,8 bilhões em recursos mobilizados.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua equipe econômica negam que as medidas possuam motivação eleitoral. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, argumentou que as ações são responsáveis e respeitam o orçamento, diferentemente do que ocorreu no último ano da gestão anterior de Jair Bolsonaro. A defesa do governo aponta que não há impedimento legal para tomar essas decisões durante o período eleitoral, embora o Tribunal Superior Eleitoral tenha sido acionado pelo deputado Zé Trovão, aliado de Flávio Bolsonaro, para questionar a legalidade das medidas.
Das vinte ações, nove geram impacto fiscal direto através de renúncia de receitas ou despesas diretas da União, com o governo buscando compensações via aumento de tributos ou remanejamentos orçamentários. As outras onze referem-se principalmente a linhas de crédito com juros abaixo dos praticados no mercado, utilizando fundos estatais de garantia ao sistema bancário como instrumento. Na última semana de setembro, o governo anunciou novo pacote de R$ 7 bilhões mensais para conter impactos da guerra no Oriente Médio nos preços dos combustíveis, incluindo subsídio de R$ 1 por litro no diesel com custo mensal de aproximadamente R$ 5 bilhões e desoneração de PIS/Cofins no etanol e gasolina no valor de cerca de R$ 2 bilhões mensais. Essas medidas estavam previstas para encerrar no início de outubro, mas poderão ser prorrogadas.
O aumento do Bolsa Família, que elevou o repasse mínimo de R$ 600 para R$ 691, custará R$ 5,8 bilhões em 2026 e R$ 22,7 bilhões em 2027, demandando readequação do orçamento já enviado ao Congresso. Outras iniciativas incluem o Move Brasil, programa que disponibiliza R$ 30 bilhões para motoristas de aplicativos e táxi financiarem novos veículos, além da revogação da tributação sobre compras de até US$ 50, cuja renúncia de receita pode chegar a R$ 2 bilhões neste ano. O governo também reforçou em R$ 500 milhões o orçamento destinado aos descontos das faixas 1 e 2 do programa Minha Casa, Minha Vida, utilizando recursos do FGTS para evitar impacto direto nos caixas do Tesouro.
O governo projeta um superávit de R$ 10,8 bilhões para as contas públicas em 2026, margem que permitiria absorver os novos gastos do ponto de vista da meta fiscal. Contudo, essa projeção enfrenta riscos. Ao menos duas fontes de arrecadação apresentam desempenho abaixo do esperado: receitas com dividendos de estatais e receitas com a taxação de dividendos. O Tribunal de Contas da União alertou o governo sobre a baixa arrecadação com tributação de dividendos, mas a Fazenda não informou se reduzirá essa projeção nas novas contas que divulgará na semana seguinte. Caso essas fontes sejam reduzidas e não haja compensação por outras receitas, o cenário de superávit pode converter-se em déficit, exigindo contingenciamento de recursos.
Embora Lula tenha ampliado as medidas ao longo do ano, sua situação eleitoral se deteriorou conforme as pesquisas avançaram. No Datafolha divulgado em 17 de setembro, o presidente somava 46% dos votos no segundo turno contra 44% de Flávio Bolsonaro, mantendo empate técnico com a rodada anterior. As ações governamentais atingem públicos diversos, incluindo alguns segmentos nos quais Lula apresenta maiores taxas de rejeição, sugerindo uma estratégia de ampliação de apoio em ano de disputa presidencial.
Citations marquantes
As ações são responsáveis e dentro do Orçamento, ao contrário do que foi feito no último ano de gestão de Jair Bolsonaro— Dario Durigan, ministro da Fazenda