Durante décadas, a medicina procurou um atalho para as doenças que apagam a memória, e o Ozempic pareceu, por um momento, ser uma dessas pontes improváveis entre mundos distintos da biologia. A Novo Nordisk confirmou esta semana que o semaglutide não abrandou a progressão do Alzheimer em dois grandes ensaios clínicos com cerca de 3800 participantes, encerrando um capítulo de esperança nascido da observação de que diabéticos medicados com fármacos GLP-1 adoeciam menos do cérebro. O resultado recorda-nos que prevenir uma doença e travar o seu avanço depois de instalada são desafios fundamentalme
Ozempic falha em ensaios para tratar Alzheimer e Parkinson
Travar um processo neurodegenerativo depois de ter começado é outra história
Porque é que isto importa? O Ozempic é um medicamento para perda de peso — porque é que alguém esperaria que tratasse Alzheimer?
Porque pessoas que tomam estes medicamentos para diabetes têm menos Alzheimer e Parkinson. Isso sugeriu que talvez o fármaco pudesse proteger o cérebro.
Mas há uma diferença entre prevenir uma doença e travar uma que já começou. Isso é importante.
Então a Novo Nordisk testou em pessoas que já tinham Alzheimer?
Sim, 3800 pessoas em fase inicial, durante dois anos. Dois ensaios grandes, os maiores que alguma vez se fizeram com este tipo de fármaco numa doença neurodegenerativa.
E não funcionou. Nenhum abrandamento da progressão cognitiva comparado com placebo.
O medicamento não fez nada?
Melhorou alguns marcadores da doença, mas não o suficiente. A medida principal — a escala que usam para avaliar declínio cognitivo — não mostrou diferença.
Isto significa que estes medicamentos não podem ajudar o cérebro?
Não. Significa que não ajudam quando a doença já está instalada. Podem ainda ter efeito preventivo.
Exatamente. E há investigadores que acham que os dados detalhados ainda podem revelar algo — talvez efeitos anti-inflamatórios que não foram capturados.
Quando saberemos mais?
A Novo Nordisk apresenta resultados completos em dezembro, em San Diego.
Mas a empresa já cancelou os ensaios adicionais que tinha planeado. Isso diz tudo.
Il Polso
- Dois ensaios clínicos de grande escala — evoke e evoke+ — falharam no objetivo central: o semaglutide não abrandou o declínio cognitivo em doentes com Alzheimer em fase inicial comparado com placebo.
- A esperança tinha raízes sólidas: estudos em animais mostravam proteção neuronal, e dados epidemiológicos sugeriam que utilizadores de GLP-1 desenvolviam menos Parkinson e Alzheimer — mas a doença já instalada revelou-se um adversário diferente.
- O padrão de insucesso alarga-se: no início de 2025, a exenatida, outro fármaco GLP-1, também falhou em travar o Parkinson, sugerindo que a classe terapêutica enfrenta um limite estrutural nas doenças neurodegenerativas já estabelecidas.
- Investigadores como Daniel Drucker mantêm cautela esperançosa: os dados detalhados, a apresentar em dezembro em San Diego, podem ainda revelar efeitos anti-inflamatórios cerebrais ou outros sinais que as medidas principais do ensaio não capturaram.
- A Novo Nordisk encerrou os ensaios planeados, mas o esforço é reconhecido como cientificamente valioso — testar uma hipótese de baixa probabilidade com rigor e escala raramente vistos em doenças neurodegenerativas.
Durante décadas, a medicina procurou um atalho para as doenças que apagam a memória, e o Ozempic pareceu, por um momento, ser uma dessas pontes improváveis entre mundos distintos da biologia. A Novo Nordisk confirmou esta semana que o semaglutide não abrandou a progressão do Alzheimer em dois grandes ensaios clínicos com cerca de 3800 participantes, encerrando um capítulo de esperança nascido da observação de que diabéticos medicados com fármacos GLP-1 adoeciam menos do cérebro. O resultado recorda-nos que prevenir uma doença e travar o seu avanço depois de instalada são desafios fundamentalmente diferentes — e que a distância entre o laboratório e a cama do doente continua a ser uma das mais longas da ciência.
A Novo Nordisk anunciou esta semana que o semaglutide — o medicamento conhecido como Ozempic — falhou em dois grandes ensaios clínicos destinados a travar a progressão do Alzheimer. A notícia encerra um capítulo de esperança que nasceu quando investigadores observaram taxas mais baixas de Parkinson e Alzheimer em pessoas que tomavam fármacos GLP-1 para a diabetes. Essa observação levou a farmacêutica dinamarquesa a lançar os estudos evoke e evoke+, envolvendo cerca de 3800 pessoas com Alzheimer em fase inicial, acompanhadas durante dois anos.
Os fármacos GLP-1 revolucionaram o tratamento da obesidade e da diabetes, e mostraram capacidade de proteger neurónios em estudos com animais. Mas há uma diferença crucial entre prevenir uma doença e travar o seu avanço depois de instalada. O semaglutide não conseguiu abrandar o declínio cognitivo medido pela escala Clinical Dementia Rating / Sum of Boxes — o padrão aceite para avaliar função cognitiva neste tipo de ensaios. Melhorou alguns marcadores não especificados, mas não o suficiente para justificar a continuação dos estudos planeados.
Este resultado não surge isolado. No início deste ano, a exenatida, outro fármaco da mesma classe, também falhou em abrandar o Parkinson, apesar de resultados encorajadores numa fase anterior. O padrão sugere que o que funciona em laboratório e o que funciona em doentes com doença já estabelecida são realidades muito diferentes.
Apesar do desfecho, investigadores como Daniel Drucker, da Universidade de Toronto, acreditam que os dados detalhados — a apresentar em dezembro na reunião Clinical Trials on Alzheimer's Disease, em San Diego — podem ainda conter conclusões importantes sobre efeitos anti-inflamatórios cerebrais ou outras propriedades não capturadas pelas medidas principais. O que começou como uma esperança baseada em epidemiologia terminou numa porta fechada, mas os investigadores continuam à procura de respostas nos detalhes ainda por revelar.
A Novo Nordisk anunciou esta semana que o semaglutide, o medicamento de marca Ozempic que se tornou sinónimo de perda de peso, falhou em dois grandes ensaios clínicos destinados a travar a progressão do Alzheimer. A notícia encerra um capítulo de esperança que começou quando investigadores observaram que pessoas a tomar fármacos GLP-1 para diabetes apresentavam taxas mais baixas de doença de Parkinson e Alzheimer. Aquela observação inicial levou a farmacêutica dinamarquesa a investir em dois estudos ambiciosos, designados evoke e evoke+, que envolveram cerca de 3800 pessoas diagnosticadas em fase inicial de Alzheimer, acompanhadas durante dois anos.
Os fármacos que pertencem à classe dos agonistas do recetor do péptido semelhante ao glucagon tipo 1 revolucionaram o tratamento da obesidade e da diabetes. Demonstraram capacidade de proteger neurónios em estudos com animais e mostraram sinais promissores de poder prevenir o aparecimento de doenças neurodegenerativas. Mas há uma diferença crucial entre prevenir uma doença e travar o seu avanço depois de já estar instalada. Quando a Novo Nordisk testou o semaglutide em doentes com Alzheimer já diagnosticado, o medicamento não conseguiu abrandar o declínio cognitivo medido pela escala Clinical Dementia Rating / Sum of Boxes, o padrão amplamente aceite para avaliar função cognitiva em ensaios desta natureza. O medicamento melhorou alguns marcadores da doença não especificados, segundo o comunicado da empresa, mas isso não foi suficiente para justificar continuar os ensaios planeados.
Martin Holst Lange, diretor científico da Novo Nordisk, explicou que a empresa tinha a responsabilidade de explorar o potencial do semaglutide apesar da baixa probabilidade de sucesso. Os ensaios foram os maiores e mais longos estudos alguma vez realizados com fármacos GLP-1 numa doença neurodegenerativa. Os participantes foram aleatoriamente distribuídos para receber uma dose diária de semaglutida até 14 miligramas ou placebo. O ensaio evoke+ incluiu um número maior de pessoas com evidência de doença cerebrovascular, que frequentemente coexiste com Alzheimer.
Este resultado não é isolado. No início deste ano, um ensaio clínico com exenatida, outro fármaco da mesma classe GLP-1, também não conseguiu abrandar a progressão do Parkinson, apesar de resultados encorajadores num estudo humano de fase inicial. A padrão sugere que o que funciona em laboratório e o que funciona em doentes com doença já estabelecida são duas coisas muito diferentes.
Daniel Drucker, investigador em endocrinologia e especialista em GLP-1 na Universidade de Toronto, que não participou no ensaio, tinha esperança de que estes medicamentos pudessem ter melhores perspetivas no Alzheimer do que no Parkinson. Sabe-se que interferem em vários processos implicados na doença: melhoram a resistência à insulina no cérebro, aumentam a sobrevivência neuronal, reduzem as placas em alguns estudos com animais, diminuem a inflamação cerebral e comunicam com recetores nos neurónios. Lorraine Kalia, investigadora de doença de Parkinson também na Universidade de Toronto, considerou excelente que a Novo Nordisk tivesse corrido este risco de forma tão definitiva, testando uma abordagem com baixa probabilidade de sucesso numa doença neurodegenerativa.
Apesar do desfecho dececionante, Drucker acredita que os dados mais pormenorizados ainda por divulgar podem conter conclusões importantes. A Novo Nordisk planeia apresentar resultados detalhados no início de dezembro, na reunião Clinical Trials on Alzheimer's Disease em San Diego. Investigadores estão curiosos para saber se análises adicionais vão mostrar que o semaglutide pode ter efeitos anti-inflamatórios no cérebro ou outras propriedades que não foram capturadas pelas medidas principais do ensaio. O que começou como uma esperança baseada em observações epidemiológicas terminou numa porta fechada, mas os investigadores ainda procuram respostas nos detalhes dos dados que ainda não foram totalmente divulgados.
Citazioni salienti
Tínhamos a responsabilidade de explorar o potencial da semaglutide, apesar da baixa probabilidade de sucesso— Martin Holst Lange, diretor científico da Novo Nordisk
Estes medicamentos melhoram a resistência à insulina no cérebro e a sobrevivência neuronal. Reduzem as placas em alguns estudos com animais. Reduzem a inflamação cerebral— Daniel Drucker, investigador em endocrinologia na Universidade de Toronto