Fármacos da diabetes e obesidade testados contra Alzheimer, apneia e doenças cardíacas

Mecanismos para reduzir peso podem ter efeitos muito mais amplos
A hipótese subjacente a todos estes ensaios clínicos é que os fármacos funcionam através de caminhos biológicos com aplicações muito mais vastas.
Mark

Porque é que medicamentos para a diabetes e obesidade estariam a funcionar contra Alzheimer ou apneia do sono? Parecem doenças completamente diferentes.

Mimi

A chave está no mecanismo. Estes fármacos actuam sobre receptores no cérebro que regulam não apenas o apetite, mas também inflamação, função neurológica e até a forma como o corpo processa oxigénio durante o sono. A obesidade é um factor de risco para muitas destas condições, portanto faz sentido investigar se reduzir peso — ou activar estes mesmos receptores — ajuda.

Luke

Mas há um salto grande entre "faz sentido investigar" e "funciona". O resultado do fígado gordo é impressionante — 73,9% contra 13% — mas isso é um ensaio de fase intermédia. Quantos destes outros estudos têm dados reais?

Mimi

Nenhum tem resultados finais ainda. O Alzheimer está em recrutamento, a apneia do sono está em fase final, o AVC está em fase intermédia. São todos promessas, não certezas.

Mark

Então estamos a falar de especulação científica legítima, não de curas descobertas?

Mimi

Exactamente. É investigação responsável baseada em biologia plausível. Mas o público tende a ouvir "medicamento testado para Alzheimer" e pensa que já funciona.

Luke

E há outro ponto: estes medicamentos têm efeitos secundários conhecidos. Náuseas, problemas gastrointestinais, potencialmente pancreatite. Ninguém está a falar disso aqui. Se vão dar tirzepatida a 1840 doentes com Alzheimer, qual é o perfil de segurança?

Mimi

Boa pergunta. Provavelmente será abordado nos ensaios, mas não está nesta reportagem.

Mark

Quando saberemos se isto funciona realmente?

Mimi

Alguns resultados em 2025 — Alzheimer e hipertensão intracraniana. Mas os estudos maiores, como o da NASH com 1200 doentes, não terminam até 2028.

Luke

E mesmo quando terminarem, um ensaio clínico positivo não significa que o medicamento será aprovado ou que será acessível. Há ainda regulação, custo, questões de reembolso.

Mark

Portanto, isto é o início de uma história muito longa.

Mimi

É. Mas se nem um destes ensaios tiver sucesso, a pergunta "porque não?" será tão importante quanto os sucessos.

  • Resultados preliminares são difíceis de ignorar: 73,9% dos doentes com fígado gordo não apresentavam sintomas após 52 semanas de tratamento com tirzepatida, contra apenas 13% no grupo placebo.
  • A corrida clínica é intensa — mais de uma dezena de ensaios em curso envolvem centenas a milhares de doentes em múltiplos países, testando os mesmos fármacos contra doenças radicalmente diferentes.
  • O Alzheimer, a doença renal crónica, a hipertensão intracraniana e até a dependência do álcool entram agora no radar terapêutico de medicamentos que nasceram para controlar o açúcar no sangue.
  • A hipótese central que une todos estes estudos é que a regulação metabólica pode ter efeitos sistémicos muito além do peso corporal — uma ideia que, se confirmada, alteraria profundamente a prática clínica.
  • Os próximos dois a quatro anos serão decisivos: vários ensaios deverão produzir dados que distinguirão a especulação científica de uma verdadeira revolução terapêutica.

Fármacos que transformaram o tratamento da diabetes e da obesidade estão agora a ser testados contra um espectro inesperadamente vasto de doenças — do Alzheimer à apneia do sono, da dependência do álcool à insuficiência cardíaca. A Eli Lilly e a Novo Nordisk, gigantes farmacêuticas de dois continentes, apostam que os mecanismos biológicos que regulam o apetite e o metabolismo escondem um potencial terapêutico muito mais profundo do que a ciência inicialmente supôs. Nos próximos anos, dezenas de ensaios clínicos responderão a uma pergunta que pode redefinir a medicina moderna: estamos perante ferramentas de saúde verdadeiramente universais, ou apenas perante uma promessa ainda por cumprir?

Dois pares de medicamentos que mudaram a forma como o mundo trata a diabetes e a obesidade estão agora no centro de uma expansão clínica sem precedentes. O Mounjaro e o Zepbound, da americana Eli Lilly, e o Ozempic e o Wegovy, da dinamarquesa Novo Nordisk, estão a ser testados contra doenças tão diversas como o Alzheimer, a apneia do sono, a dependência do álcool e a insuficiência cardíaca.

O primeiro sinal concreto deste potencial mais amplo veio de um ensaio com o Zepbound para a doença hepática gordurosa não alcoólica: após um ano de tratamento, quase 74% dos doentes ficaram sem sintomas, contra apenas 13% no grupo placebo — um resultado que abriu caminho a investigações muito mais ambiciosas.

A Novo Nordisk lançou um ensaio com 1840 pacientes para avaliar se o semaglutido pode abrandar o declínio cognitivo no Alzheimer precoce, com primeiras conclusões esperadas em 2025. Investigadores de Hong Kong testam o mesmo fármaco em doentes com acidentes vasculares cerebrais graves, enquanto a Eli Lilly avalia a tirzepatida em doentes com insuficiência cardíaca e obesidade.

No campo neurológico, o semaglutido está a ser combinado com dieta muito restrita para tratar a hipertensão intracraniana idiopática, uma condição rara e perigosa associada à obesidade. A tirzepatida encontra-se em fase final de testes para a apneia obstrutiva do sono. E em Copenhaga, investigadores estudam se o semaglutido pode reduzir o consumo de álcool em doentes com perturbações relacionadas com o álcool.

O que une todos estes ensaios é uma hipótese comum: os mecanismos que estes fármacos activam para regular o apetite e o metabolismo podem ter efeitos terapêuticos muito mais vastos do que se imaginava. Se os dados continuarem positivos, estes medicamentos poderão deixar de ser vistos como soluções para a obesidade e tornar-se ferramentas centrais no tratamento de um espectro muito mais amplo de doenças crónicas.

Dois medicamentos que revolucionaram o tratamento da diabetes e da obesidade estão agora a ser testados contra um leque surpreendentemente vasto de doenças — desde a dependência do álcool até à apneia do sono, passando por Alzheimer, insuficiência cardíaca e doença hepática. O Mounjaro e o Zepbound, ambos da farmacêutica americana Eli Lilly, contêm a substância activa tirzepatida. Seus rivais diretos, o Ozempic e o Wegovy, da dinamarquesa Novo Nordisk, usam semaglutido. Estes quatro medicamentos, que conquistaram milhões de utilizadores em todo o mundo pela sua eficácia na perda de peso, estão agora no centro de uma expansão clínica que pode redefinir o seu papel na medicina.

O primeiro sinal concreto deste potencial mais amplo veio recentemente da Eli Lilly. Num ensaio de fase intermédia, o Zepbound demonstrou capacidade de tratar a doença hepática gordurosa não alcoólica — uma condição cada vez mais comum em populações obesas. Após 52 semanas de tratamento, 73,9% dos doentes não apresentavam sintomas da doença nem agravamento das cicatrizes no fígado, comparado com apenas 13% dos que receberam placebo. Este resultado abriu a porta a investigações muito mais ambiciosas.

A Novo Nordisk iniciou um ensaio clínico com 1840 pacientes para testar se o semaglutido pode abrandar o declínio cognitivo na doença de Alzheimer precoce, com primeiras conclusões esperadas já em 2025. Investigadores da Universidade Chinesa de Hong Kong estão a testar o mesmo fármaco combinado com remoção mecânica de coágulos em doentes que sofreram acidentes vasculares cerebrais causados pelo bloqueio de grandes vasos sanguíneos no cérebro — um estudo de fase intermédia que pretende recrutar cerca de 140 doentes. A Eli Lilly, por sua vez, está a avaliar a tirzepatida em doentes com insuficiência cardíaca e obesidade, planeando inscrever aproximadamente 700 pessoas num estudo que deveria estar concluído em Julho de 2024.

No campo das doenças neurológicas, investigadores do Centro Dinamarquês de Cefaleias estão a testar o semaglutido combinado com uma dieta muito baixa em calorias para tratar a hipertensão intracraniana idiopática — uma condição rara associada à obesidade em que a pressão sanguínea dentro da cabeça aumenta perigosamente. O estudo visa recrutar cerca de 50 doentes e terminar em 2025. Paralelamente, a tirzepatida da Eli Lilly encontra-se em fase final de testes para a apneia obstrutiva do sono, envolvendo aproximadamente 469 participantes, incluindo tanto pessoas que usam dispositivos respiratórios como aquelas que não os utilizam.

A Novo Nordisk está também a testar o semaglutido num ensaio clínico de fase final para a esteato-hepatite não alcoólica, um tipo comum de doença do fígado gordo, com previsão de envolver cerca de 1200 doentes e terminar em 2028. A tirzepatida da Eli Lilly está a ser avaliada num estudo de fase intermédia da doença renal crónica em doentes com obesidade, com planos de inscrever um máximo de 140 participantes. Existe ainda um estudo realizado pelo Centro Psiquiátrico Rigshospitalet da Universidade de Copenhaga que investiga se o semaglutido pode ajudar a reduzir o consumo de álcool em 108 doentes diagnosticados com distúrbios relacionados com o consumo de álcool e obesidade.

O que une todos estes ensaios é uma hipótese subjacente: os mecanismos biológicos que estes medicamentos exploram para reduzir o peso — principalmente através da regulação do apetite e do metabolismo — podem ter efeitos terapêuticos muito mais amplos do que se pensava inicialmente. Se os resultados continuarem a ser positivos, estes fármacos poderão deixar de ser vistos principalmente como soluções para a obesidade e passar a ser considerados ferramentas fundamentais no tratamento de um espectro muito mais vasto de condições crónicas. Os próximos dois a quatro anos serão decisivos: vários destes ensaios deverão produzir dados preliminares que determinarão se esta expansão clínica é apenas especulação ou se representa uma mudança genuína na forma como tratamos doenças que afectam centenas de milhões de pessoas.

A Eli Lilly afirmou que o Zepbound tinha demonstrado, num ensaio de fase intermédia, ajudar a reduzir os sintomas de uma doença do fígado gordo
— Eli Lilly
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