No coração de uma primavera que deveria ser suave, Portugal e grande parte da Europa confrontam-se com um calor que pertencia, até agora, apenas ao pico do verão. Em Mora, o termómetro alcançou 39,4°C — um valor que a memória coletiva não guardava desde 1957 — enquanto uma cúpula de calor alimentada por ar norte-africano estacionário recusa ceder ao Atlântico. Cientistas apontam as alterações climáticas como a força que torna estes episódios mais intensos, mais longos e cada vez mais precoces, lembrando-nos que o calendário das estações já não é o que era.
Onda de calor na Primavera quebra recordes em Portugal: Mora atinge 39,4°C após 69 anos
Este calor recorde tem as impressões digitais das alterações climáticas
Como é que uma onda de calor em maio consegue ser mais perigosa do que uma em agosto, quando agosto é tradicionalmente o mês mais quente?
O corpo humano é uma máquina de adaptação. Quando chega o verão, passámos semanas a acostumar-nos ao calor — a suar, a beber água, a ajustar o ritmo. Em maio, ninguém está preparado. Os idosos, as crianças, as pessoas com problemas cardíacos — o seu organismo ainda está em modo primavera. O calor extremo apanha-os desprevenidos.
Portanto, a morte em França — cinco pessoas afogadas — isso está relacionado com as pessoas a entrarem na água para se refrescarem?
Exatamente. Quando o calor é extremo e o corpo está em pânico, as pessoas fazem coisas que não fariam normalmente. Entram em água fria sem pensar. O choque térmico é real. E se o corpo já está fragilizado pelo calor, o risco multiplica-se.
Este bloqueio anticiclónico — é algo que vai desaparecer em breve?
Teoricamente, sim. As previsões mostram uma descida a partir de 28 de maio no litoral. Mas a questão maior é: isto vai voltar? E mais cedo? E mais intenso? Porque é isso que as alterações climáticas estão a fazer — não é uma onda de calor isolada, é um padrão que se repete com cada vez mais frequência.
Mora não via isto há 69 anos. Isso significa que em 1957 havia um bloqueio anticiclónico semelhante?
Provavelmente. Mas a diferença é que em 1957 o planeta era mais frio. O ar que vinha do Noroeste de África era menos quente. Agora, o mesmo padrão meteorológico acontece num planeta já aquecido. É como se o termóstato global tivesse subido alguns graus — o mesmo sistema de bloqueio produz resultados muito mais extremos.
E as trovoadas que estão previstas — isso vai ajudar a aliviar o calor?
Pode trazer algum alívio temporário, mas também traz risco. Trovoadas secas em condições de calor extremo significam incêndios florestais. Ventos fortes, granizo, chuva esparsa — é um cenário caótico. Não é uma chuva refrescante de verão, é um evento meteorológico violento.
The Pulse
- Portugal quebrou recordes de 69 anos em plena primavera, com Mora a atingir 39,4°C e Alcobaça a superar máximas que resistiam desde 1978.
- Um bloqueio anticiclónico persistente aprisiona ar quente do Noroeste de África sobre a Península Ibérica, impedindo a renovação atlântica que normalmente refresca a região.
- O fenómeno alastrou por toda a Europa — Espanha, França, Reino Unido, Áustria e República Checa registam também temperaturas recorde para maio, e França já contabiliza sete mortos.
- O perigo é amplificado pelo momento: em maio, o corpo humano ainda não se adaptou ao calor extremo, tornando populações vulneráveis particularmente expostas a consequências fatais.
- O IPMA prevê que o calor excessivo persista até 15 dias em distritos do interior, com todos os distritos sob aviso meteorológico na quarta-feira, exceto Faro.
No coração de uma primavera que deveria ser suave, Portugal e grande parte da Europa confrontam-se com um calor que pertencia, até agora, apenas ao pico do verão. Em Mora, o termómetro alcançou 39,4°C — um valor que a memória coletiva não guardava desde 1957 — enquanto uma cúpula de calor alimentada por ar norte-africano estacionário recusa ceder ao Atlântico. Cientistas apontam as alterações climáticas como a força que torna estes episódios mais intensos, mais longos e cada vez mais precoces, lembrando-nos que o calendário das estações já não é o que era.
A primavera europeia está a arder. Na terça-feira, Mora registou 39,4°C — um valor ausente dos termómetros portugueses há quase sete décadas, desde que 1957 gravou os seus 39 graus. Alcobaça marcou 36,1°C, superando o seu próprio recorde de 1978. As temperaturas mínimas notáveis em Odemira e Lamas de Mouro completam um quadro que o IPMA acompanha desde 20 de maio, com 18 estações automáticas em situação oficial de onda de calor na terça-feira.
A explicação física é clara: um bloqueio anticiclónico persistente mantém ar quente proveniente do Noroeste de África praticamente imóvel sobre a região. O ar atlântico mais fresco não consegue substituí-lo, e o céu limpo intensifica o aquecimento contínuo da superfície — a chamada 'cúpula de calor'. O IPMA prevê que este excesso de calor possa durar até 15 dias em alguns distritos do interior, embora o litoral oeste deva sentir algum alívio a partir de 28 de maio.
O fenómeno não poupa o resto da Europa. Espanha prepara-se para termómetros a rondar os 40 graus e 'noites tropicais', enquanto França já lamenta sete mortos ligados à onda de calor, cinco deles por afogamento. Para Friederike Otto, do Imperial College de Londres, a causa é inequívoca: 'Este calor recorde tem as impressões digitais das alterações climáticas por todo o lado.' Ver 35°C no Reino Unido durante a primavera é, nas suas palavras, 'absolutamente espantoso'.
O risco humano é agravado pela precocidade do episódio. Garyfallos Konstantinoudis, do Grantham Institute, alerta que uma onda de calor em maio é biologicamente diferente de uma em agosto — o organismo ainda não teve tempo de se adaptar, tornando as populações vulneráveis especialmente expostas. O que se desenha, advertem os cientistas, não é uma anomalia passageira, mas o retrato de um padrão que as alterações climáticas prometem tornar cada vez mais frequente.
A primavera europeia está a queimar. Na terça-feira passada, o termómetro em Mora subiu até aos 39,4 graus Celsius — um valor que não se via há quase sete décadas. A última vez que a região tinha registado algo semelhante foi em 1957, quando o mercúrio atingiu os 39 graus. Alcobaça, não muito longe, marcou 36,1 graus, superando também o seu recorde anterior de 1978. Estas não são anomalias isoladas. Odemira e Lamas de Mouro registaram temperaturas mínimas igualmente notáveis — 19,9 e 18,9 graus respetivamente — valores que ultrapassam o que se havia observado em 1999 e 2001.
O Instituto Português do Mar e da Atmosfera começou a monitorizar este episódio a partir de 20 de maio. Na terça-feira, 18 das suas estações automáticas estavam oficialmente em situação de onda de calor. Até à noite de 27 de maio, esse número tinha descido ligeiramente para 17 estações, com a exceção de Vila Real de Santo António, onde o fenómeno foi entretanto interrompido. O instituto prevê que o calor excessivo pode persistir até 15 dias em alguns distritos do interior, embora se antecipe uma descida das temperaturas máximas a partir de 28 de maio no litoral oeste. Na quarta-feira, todos os distritos estarão sob aviso meteorológico, com exceção de Faro.
Mas o que está a provocar este calor anómalo numa altura do ano em que Portugal deveria estar ainda numa transição suave para o verão? Álvaro Silva, investigador da Organização Meteorológica Mundial e especialista em fenómenos meteorológicos extremos, oferece uma explicação clara: um bloqueio anticiclónico persistente está a manter ar quente proveniente do Noroeste de África praticamente estacionário sobre a região. Em vez de ser substituído pelo ar mais fresco que normalmente chega do Atlântico, este ar quente permanece comprimido e aquecido — o que os meteorologistas chamam uma "cúpula de calor". As condições de céu limpo intensificam ainda mais o aquecimento, permitindo que a radiação solar atinja continuamente a superfície. Silva alerta que este tipo de configuração pode tipicamente durar vários dias.
O fenómeno não se limita a Portugal. Espanha, França, Irlanda, Reino Unido, Áustria e República Checa estão todas a enfrentar temperaturas recorde para maio. Em Espanha, a Agência Estatal de Meteorologia anunciou uma nova subida das temperaturas a partir de quarta-feira, com termómetros a atingirem cerca de 40 graus e a ocorrência de "noites tropicais". Em França, o governo contabilizou sete mortos relacionados com a onda de calor, cinco dos quais por afogamento.
Para Friederike Otto, cientista especialista em Ciência do Clima no Imperial College de Londres, a resposta é inequívoca: alterações climáticas. "Este calor recorde tem as impressões digitais das alterações climáticas por todo o lado", afirma num comunicado da World Weather Attribution. Temperaturas desta magnitude eram outrora raras mesmo no pico do verão. Ver 35 graus Celsius no Reino Unido durante a primavera é, nas suas palavras, "absolutamente espantoso". Otto sublinha que as alterações climáticas tornam estas ondas de calor mais quentes, mais longas e muito mais frequentes.
O impacto vai muito além do desconforto de uma noite mal dormida. Garyfallos Konstantinoudis, do Grantham Institute, avisa que para as populações mais vulneráveis, estas temperaturas são "simplesmente perigosas e potencialmente fatais". O risco é particularmente elevado em episódios precoces como este, porque o corpo humano ainda não teve tempo para se adaptar ao calor extremo. Uma onda de calor em maio é biologicamente diferente de uma em agosto — o organismo não está preparado.
O IPMA prevê ainda trovoadas secas e ventos fortes para os próximos dias, sobretudo nos distritos de Vila Real, Viseu, Coimbra, Aveiro, Braga e Viana do Castelo. Na quarta-feira, aguaceiros no interior Norte e Centro, mais prováveis nas zonas montanhosas, poderão ser acompanhados de trovoada, granizo ocasional e rajadas fortes. Mas o grande cenário que se desenha é o de um continente a arder numa primavera que deveria ser temperada, com cientistas a alertarem que este padrão — ondas de calor cada vez mais intensas, cada vez mais cedo — é exatamente o que as alterações climáticas nos prometem.
Notable Quotes
Este calor recorde tem as impressões digitais das alterações climáticas por todo o lado. As alterações climáticas tornam estas ondas de calor mais quentes, mais longas e muito mais frequentes.— Friederike Otto, cientista especialista em Ciência do Clima, Imperial College de Londres
Para as populações mais vulneráveis, estas temperaturas são simplesmente perigosas e potencialmente fatais, sobretudo em episódios precoces, porque o corpo ainda não teve tempo para se adaptar.— Garyfallos Konstantinoudis, Grantham Institute