Onda de calor na Primavera quebra recordes em Portugal: Mora atinge 39,4°C após 69 anos

França registou sete mortos relacionados com a onda de calor, incluindo cinco por afogamento, com risco particular para populações vulneráveis cujos corpos ainda não se adaptaram ao calor extremo.
Este calor recorde tem as impressões digitais das alterações climáticas
Cientista do Imperial College de Londres sobre a ligação inequívoca entre a onda de calor e as mudanças climáticas.
Mark

Como é que uma onda de calor em maio consegue ser mais perigosa do que uma em agosto, quando agosto é tradicionalmente o mês mais quente?

Mimi

O corpo humano é uma máquina de adaptação. Quando chega o verão, passámos semanas a acostumar-nos ao calor — a suar, a beber água, a ajustar o ritmo. Em maio, ninguém está preparado. Os idosos, as crianças, as pessoas com problemas cardíacos — o seu organismo ainda está em modo primavera. O calor extremo apanha-os desprevenidos.

Mark

Portanto, a morte em França — cinco pessoas afogadas — isso está relacionado com as pessoas a entrarem na água para se refrescarem?

Mimi

Exatamente. Quando o calor é extremo e o corpo está em pânico, as pessoas fazem coisas que não fariam normalmente. Entram em água fria sem pensar. O choque térmico é real. E se o corpo já está fragilizado pelo calor, o risco multiplica-se.

Mark

Este bloqueio anticiclónico — é algo que vai desaparecer em breve?

Mimi

Teoricamente, sim. As previsões mostram uma descida a partir de 28 de maio no litoral. Mas a questão maior é: isto vai voltar? E mais cedo? E mais intenso? Porque é isso que as alterações climáticas estão a fazer — não é uma onda de calor isolada, é um padrão que se repete com cada vez mais frequência.

Mark

Mora não via isto há 69 anos. Isso significa que em 1957 havia um bloqueio anticiclónico semelhante?

Mimi

Provavelmente. Mas a diferença é que em 1957 o planeta era mais frio. O ar que vinha do Noroeste de África era menos quente. Agora, o mesmo padrão meteorológico acontece num planeta já aquecido. É como se o termóstato global tivesse subido alguns graus — o mesmo sistema de bloqueio produz resultados muito mais extremos.

Mark

E as trovoadas que estão previstas — isso vai ajudar a aliviar o calor?

Mimi

Pode trazer algum alívio temporário, mas também traz risco. Trovoadas secas em condições de calor extremo significam incêndios florestais. Ventos fortes, granizo, chuva esparsa — é um cenário caótico. Não é uma chuva refrescante de verão, é um evento meteorológico violento.

  • Portugal quebrou recordes de 69 anos em plena primavera, com Mora a atingir 39,4°C e Alcobaça a superar máximas que resistiam desde 1978.
  • Um bloqueio anticiclónico persistente aprisiona ar quente do Noroeste de África sobre a Península Ibérica, impedindo a renovação atlântica que normalmente refresca a região.
  • O fenómeno alastrou por toda a Europa — Espanha, França, Reino Unido, Áustria e República Checa registam também temperaturas recorde para maio, e França já contabiliza sete mortos.
  • O perigo é amplificado pelo momento: em maio, o corpo humano ainda não se adaptou ao calor extremo, tornando populações vulneráveis particularmente expostas a consequências fatais.
  • O IPMA prevê que o calor excessivo persista até 15 dias em distritos do interior, com todos os distritos sob aviso meteorológico na quarta-feira, exceto Faro.

No coração de uma primavera que deveria ser suave, Portugal e grande parte da Europa confrontam-se com um calor que pertencia, até agora, apenas ao pico do verão. Em Mora, o termómetro alcançou 39,4°C — um valor que a memória coletiva não guardava desde 1957 — enquanto uma cúpula de calor alimentada por ar norte-africano estacionário recusa ceder ao Atlântico. Cientistas apontam as alterações climáticas como a força que torna estes episódios mais intensos, mais longos e cada vez mais precoces, lembrando-nos que o calendário das estações já não é o que era.

A primavera europeia está a arder. Na terça-feira, Mora registou 39,4°C — um valor ausente dos termómetros portugueses há quase sete décadas, desde que 1957 gravou os seus 39 graus. Alcobaça marcou 36,1°C, superando o seu próprio recorde de 1978. As temperaturas mínimas notáveis em Odemira e Lamas de Mouro completam um quadro que o IPMA acompanha desde 20 de maio, com 18 estações automáticas em situação oficial de onda de calor na terça-feira.

A explicação física é clara: um bloqueio anticiclónico persistente mantém ar quente proveniente do Noroeste de África praticamente imóvel sobre a região. O ar atlântico mais fresco não consegue substituí-lo, e o céu limpo intensifica o aquecimento contínuo da superfície — a chamada 'cúpula de calor'. O IPMA prevê que este excesso de calor possa durar até 15 dias em alguns distritos do interior, embora o litoral oeste deva sentir algum alívio a partir de 28 de maio.

O fenómeno não poupa o resto da Europa. Espanha prepara-se para termómetros a rondar os 40 graus e 'noites tropicais', enquanto França já lamenta sete mortos ligados à onda de calor, cinco deles por afogamento. Para Friederike Otto, do Imperial College de Londres, a causa é inequívoca: 'Este calor recorde tem as impressões digitais das alterações climáticas por todo o lado.' Ver 35°C no Reino Unido durante a primavera é, nas suas palavras, 'absolutamente espantoso'.

O risco humano é agravado pela precocidade do episódio. Garyfallos Konstantinoudis, do Grantham Institute, alerta que uma onda de calor em maio é biologicamente diferente de uma em agosto — o organismo ainda não teve tempo de se adaptar, tornando as populações vulneráveis especialmente expostas. O que se desenha, advertem os cientistas, não é uma anomalia passageira, mas o retrato de um padrão que as alterações climáticas prometem tornar cada vez mais frequente.

A primavera europeia está a queimar. Na terça-feira passada, o termómetro em Mora subiu até aos 39,4 graus Celsius — um valor que não se via há quase sete décadas. A última vez que a região tinha registado algo semelhante foi em 1957, quando o mercúrio atingiu os 39 graus. Alcobaça, não muito longe, marcou 36,1 graus, superando também o seu recorde anterior de 1978. Estas não são anomalias isoladas. Odemira e Lamas de Mouro registaram temperaturas mínimas igualmente notáveis — 19,9 e 18,9 graus respetivamente — valores que ultrapassam o que se havia observado em 1999 e 2001.

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera começou a monitorizar este episódio a partir de 20 de maio. Na terça-feira, 18 das suas estações automáticas estavam oficialmente em situação de onda de calor. Até à noite de 27 de maio, esse número tinha descido ligeiramente para 17 estações, com a exceção de Vila Real de Santo António, onde o fenómeno foi entretanto interrompido. O instituto prevê que o calor excessivo pode persistir até 15 dias em alguns distritos do interior, embora se antecipe uma descida das temperaturas máximas a partir de 28 de maio no litoral oeste. Na quarta-feira, todos os distritos estarão sob aviso meteorológico, com exceção de Faro.

Mas o que está a provocar este calor anómalo numa altura do ano em que Portugal deveria estar ainda numa transição suave para o verão? Álvaro Silva, investigador da Organização Meteorológica Mundial e especialista em fenómenos meteorológicos extremos, oferece uma explicação clara: um bloqueio anticiclónico persistente está a manter ar quente proveniente do Noroeste de África praticamente estacionário sobre a região. Em vez de ser substituído pelo ar mais fresco que normalmente chega do Atlântico, este ar quente permanece comprimido e aquecido — o que os meteorologistas chamam uma "cúpula de calor". As condições de céu limpo intensificam ainda mais o aquecimento, permitindo que a radiação solar atinja continuamente a superfície. Silva alerta que este tipo de configuração pode tipicamente durar vários dias.

O fenómeno não se limita a Portugal. Espanha, França, Irlanda, Reino Unido, Áustria e República Checa estão todas a enfrentar temperaturas recorde para maio. Em Espanha, a Agência Estatal de Meteorologia anunciou uma nova subida das temperaturas a partir de quarta-feira, com termómetros a atingirem cerca de 40 graus e a ocorrência de "noites tropicais". Em França, o governo contabilizou sete mortos relacionados com a onda de calor, cinco dos quais por afogamento.

Para Friederike Otto, cientista especialista em Ciência do Clima no Imperial College de Londres, a resposta é inequívoca: alterações climáticas. "Este calor recorde tem as impressões digitais das alterações climáticas por todo o lado", afirma num comunicado da World Weather Attribution. Temperaturas desta magnitude eram outrora raras mesmo no pico do verão. Ver 35 graus Celsius no Reino Unido durante a primavera é, nas suas palavras, "absolutamente espantoso". Otto sublinha que as alterações climáticas tornam estas ondas de calor mais quentes, mais longas e muito mais frequentes.

O impacto vai muito além do desconforto de uma noite mal dormida. Garyfallos Konstantinoudis, do Grantham Institute, avisa que para as populações mais vulneráveis, estas temperaturas são "simplesmente perigosas e potencialmente fatais". O risco é particularmente elevado em episódios precoces como este, porque o corpo humano ainda não teve tempo para se adaptar ao calor extremo. Uma onda de calor em maio é biologicamente diferente de uma em agosto — o organismo não está preparado.

O IPMA prevê ainda trovoadas secas e ventos fortes para os próximos dias, sobretudo nos distritos de Vila Real, Viseu, Coimbra, Aveiro, Braga e Viana do Castelo. Na quarta-feira, aguaceiros no interior Norte e Centro, mais prováveis nas zonas montanhosas, poderão ser acompanhados de trovoada, granizo ocasional e rajadas fortes. Mas o grande cenário que se desenha é o de um continente a arder numa primavera que deveria ser temperada, com cientistas a alertarem que este padrão — ondas de calor cada vez mais intensas, cada vez mais cedo — é exatamente o que as alterações climáticas nos prometem.

Este calor recorde tem as impressões digitais das alterações climáticas por todo o lado. As alterações climáticas tornam estas ondas de calor mais quentes, mais longas e muito mais frequentes.
— Friederike Otto, cientista especialista em Ciência do Clima, Imperial College de Londres
Para as populações mais vulneráveis, estas temperaturas são simplesmente perigosas e potencialmente fatais, sobretudo em episódios precoces, porque o corpo ainda não teve tempo para se adaptar.
— Garyfallos Konstantinoudis, Grantham Institute
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