Na clausura da 74.ª Assembleia Mundial da Saúde, o diretor-geral Tedros Ghebreyesus colocou diante dos países membros uma verdade incómoda: a capacidade de uma organização responder ao sofrimento coletivo depende, antes de tudo, da estabilidade dos recursos que a sustentam. A OMS, encarregada de coordenar a resposta global à COVID-19, opera com financiamento imprevisível que fragiliza contratos, dispersa especialistas e enfraquece precisamente a estrutura que o mundo mais precisa num momento em que a pandemia ainda não terminou. O apelo de Ghebreyesus não era apenas técnico ou orçamental — era
OMS pede financiamento sustentável para reforçar resposta à pandemia
Não podemos pagar às pessoas com elogios ou felicitações
Porque é que o financiamento é tão importante neste momento específico? A OMS não tinha sempre dinheiro limitado?
Tinha, mas agora é diferente. A pandemia exigiu uma resposta contínua e coordenada. Não é como um projeto que termina — é algo que precisa de estar sempre ativo, sempre pronto. Especialistas com contratos de três meses não conseguem fazer esse trabalho.
E se os países simplesmente dessem mais dinheiro?
Não é só quantidade. Ghebreyesus falava de "mudança de paradigma". Significa dinheiro previsível, não doações ocasionais. Significa que um epidemiologista sabe que tem emprego no próximo ano e pode planear o seu trabalho a sério.
A convenção sobre pandemias — é realista? Os países conseguem concordar em algo assim?
É ambicioso, sim. Mas o argumento é forte: quando os países não partilham informação, dados, tecnologias, é quando as pandemias se propagam. Uma convenção força essa partilha.
Mas Ghebreyesus disse que ainda falta muito para acabar a pandemia. Não era suposto estar quase terminada em 2021?
Estava a avisar contra a ilusão. Os números estavam a melhorar, mas isso não significava que o perigo tinha passado. Muitos países queriam voltar à normalidade. Ele estava a dizer: não façam isso ainda.
O que acontece se a OMS não conseguir esse financiamento sustentável?
Continua a funcionar, mas mais fraca. Perde especialistas. As respostas técnicas ficam mais lentas. A próxima crise encontra uma agência menos preparada.
El Pulso
- A OMS enfrenta uma contradição perigosa: é chamada a liderar a resposta global à maior crise sanitária em décadas, mas não consegue garantir contratos estáveis aos especialistas que tornam essa resposta possível.
- Ghebreyesus avisou com clareza que seria um erro grave qualquer país acreditar que o perigo da pandemia já passou, num momento em que a atenção pública começa a desviar-se.
- O financiamento instável não é um problema burocrático — compromete diretamente o sequenciamento genético do vírus, o apoio técnico aos países e o envio de especialistas para terreno.
- Para romper este ciclo de dependência frágil, a organização propôs uma convenção internacional sobre pandemias, capaz de criar estruturas duradouras de colaboração entre países.
- A Assembleia agendou uma reunião extraordinária para seis meses depois, onde será tomada uma decisão final sobre o início das negociações do tratado.
Na clausura da 74.ª Assembleia Mundial da Saúde, o diretor-geral Tedros Ghebreyesus colocou diante dos países membros uma verdade incómoda: a capacidade de uma organização responder ao sofrimento coletivo depende, antes de tudo, da estabilidade dos recursos que a sustentam. A OMS, encarregada de coordenar a resposta global à COVID-19, opera com financiamento imprevisível que fragiliza contratos, dispersa especialistas e enfraquece precisamente a estrutura que o mundo mais precisa num momento em que a pandemia ainda não terminou. O apelo de Ghebreyesus não era apenas técnico ou orçamental — era um lembrete de que a solidariedade internacional exige compromissos concretos, não apenas declarações de intenção.
No encerramento da 74.ª Assembleia Mundial da Saúde, Tedros Ghebreyesus fez um apelo direto aos países membros: a OMS não pode funcionar como deveria sem financiamento previsível e duradouro. Ao longo da semana de reuniões, vários países reconheceram a sua dependência das orientações técnicas da organização — mas Ghebreyesus sublinhou que muitos dos especialistas que produzem essas orientações trabalham com contratos de curta duração, condicionados pela chegada irregular de fundos.
O problema tinha consequências imediatas. Manter a resposta à COVID-19 exigia coordenação entre dezenas de países, formação de profissionais, sequenciamento genético do vírus e envio de especialistas para terreno. "Tudo isto se paga e não podemos pagar às pessoas com elogios", disse Ghebreyesus, deixando claro que competência e dedicação não substituem contratos seguros e salários estáveis. Ao mesmo tempo, alertou que seria um erro monumental acreditar que a pandemia tinha terminado, precisamente quando a atenção começava a desvanecer-se.
Para responder a este desafio estrutural, a organização propôs a criação de um grupo de trabalho para estudar uma convenção internacional sobre pandemias. Ghebreyesus defendeu que um tratado desse tipo fortaleceria a OMS e a segurança sanitária global, melhorando a partilha de informação, dados, tecnologias e recursos entre países. Uma reunião extraordinária foi marcada para seis meses depois, altura em que seria tomada uma decisão final. Entretanto, a assembleia aprovou mais de 30 resoluções sobre outras áreas da saúde pública — mas a questão central permanecia a mesma: como sustentar uma resposta global coordenada quando o financiamento é incerto e os especialistas não sabem se terão emprego no mês seguinte.
Na encerramento da 74.ª Assembleia Mundial da Saúde, Tedros Ghebreyesus, diretor geral da Organização Mundial da Saúde, fez um apelo direto aos países membros: a OMS não consegue funcionar como deveria sem dinheiro previsível e duradouro. O problema não era novo, mas a forma como o colocou deixava claro o tamanho da pressão. Ao longo daquela semana de reuniões, diversos países tinham reconhecido publicamente quanto dependem das orientações técnicas que a OMS fornece. Mas Ghebreyesus salientou uma realidade incómoda: muitos dos especialistas que fornecem essas orientações trabalham com contratos de curta duração, obrigados a planear o seu trabalho em ciclos que flutuam conforme o dinheiro chega ou não.
O financiamento instável não era um detalhe administrativo — era o coração do problema. A OMS enfrentava naquele momento um desafio imediato e concreto: manter a sua resposta à pandemia de COVID-19. Isto significava coordenar esforços entre dezenas de países, fornecer apoio técnico contínuo, treinar profissionais de saúde, aumentar o sequenciamento genético do coronavírus SARS-CoV-2, garantir que material essencial chegava onde era necessário, e enviar especialistas para terreno quando solicitado. "Tudo isto se paga e não podemos pagar às pessoas com elogios ou felicitações", disse Ghebreyesus, com uma clareza que não deixava espaço para ambiguidade. O que ele estava a dizer era simples: pessoas competentes precisam de salários, contratos seguros, recursos. Sem isso, a agência não podia manter a qualidade do trabalho que o mundo precisava.
Mas havia mais. Ghebreyesus alertou que a pandemia estava longe de terminar. Embora fosse encorajador ver os números de novos casos e mortes a descer em várias partes do mundo, seria um erro monumental qualquer país acreditar que o perigo tinha passado. A tentação de relaxar, de desviar recursos, de voltar à vida normal — essa tentação era compreensível, mas perigosa. A OMS precisava de se manter forte precisamente neste momento, quando a atenção começava a desvanecer-se.
Para reforçar a sua posição a longo prazo, a organização propôs algo mais ambicioso. Os membros concordaram em criar um grupo de trabalho que incluísse todos os países interessados para estudar o início de conversações sobre uma convenção internacional sobre pandemias. Ghebreyesus defendeu que um tratado desse tipo seria a forma mais eficaz de fortalecer a OMS e a segurança sanitária global. Melhoraria as relações entre países, reforçaria a colaboração, criaria estruturas que funcionassem mesmo quando a atenção mediática desaparecesse. "Aquilo que define uma pandemia é que acontece quando não se partilham informação, dados, patogénicos, tecnologias ou recursos", explicou. Uma convenção internacional poderia mudar isso.
A Assembleia marcou uma nova reunião extraordinária para seis meses depois, altura em que seria tomada uma decisão final sobre a convenção. Se as negociações começassem entretanto, o processo de elaboração seria alargado. Enquanto isso, a assembleia tinha aprovado mais de 30 decisões e resoluções sobre outras áreas da saúde pública — diabetes, deficiência, violência sobre crianças, oftalmologia, HIV, hepatite, infeções transmitidas sexualmente, produção local de medicamentos, malária, doenças tropicais, enfermagem e saúde oral. Mas o tema que pairava sobre tudo era o mesmo: como manter uma resposta global coordenada quando o financiamento era incerto e os especialistas não sabiam se teriam emprego no mês seguinte.
Citas Notables
É precisa uma mudança de paradigma tanto na quantidade como na qualidade do financiamento para a OMS— Tedros Ghebreyesus, diretor geral da OMS
Seria um erro monumental qualquer país pensar que passou o perigo da pandemia— Tedros Ghebreyesus