Oito em cada dez brasileiros reconhecem a gravidade de sangue nas fezes ou alterações intestinais prolongadas, sinais principais do câncer colorretal. Porém, quando enfrentam esses sintomas na prática, 40% não buscam atendimento médico imediato, esperando o sintoma passar ou recorrendo a remédios caseiros.
Oito em cada dez brasileiros reconhecem sintomas do câncer colorretal, mas faltam ações preventivas
Quando o câncer deixa de ser abstração, as pessoas finalmente procuram as ferramentas que poderiam tê-lo evitado
Por que você acha que as pessoas reconhecem o perigo mas não agem quando ele aparece?
Porque reconhecer é fácil. É abstrato. Você ouve falar, concorda que é grave, segue a vida. Agir é diferente — significa admitir que algo pode estar errado com você, marcar uma consulta, enfrentar a possibilidade de más notícias.
Mas 59% das pessoas procuram médico imediatamente. Isso não é a maioria?
É, mas 40% não procuram. E esses 40% não são pessoas ignorantes — eles sabem que sangue nas fezes é grave. Eles só escolhem não saber, pelo menos por um tempo. Esperam que passe. Tomam um chá. Qualquer coisa menos encarar.
Qual é a diferença entre quem procura ajuda e quem não procura?
Dinheiro, idade, gênero, geografia. Quem tem mais de 60 anos procura em 72% dos casos. Quem tem dinheiro, 86%. Mulheres mais que homens. Sudeste mais que Norte. É como se o acesso à urgência fosse um privilégio.
E quanto aos exames preventivos? Por que tão poucos conhecem o teste de sangue oculto?
Porque ninguém fala sobre isso. Dois terços dos brasileiros nunca ouviram falar. Mas quando alguém já teve a doença ou conhece alguém que teve, o conhecimento quase triplica. A doença ensina o que a prevenção não consegue.
Então o problema não é falta de informação?
Não é só isso. É que a informação precisa ser pessoal para virar ação. Enquanto o câncer colorretal é coisa de outros, as pessoas deixam para depois. Quando vira coisa delas, aí sim elas buscam as ferramentas que poderiam ter evitado tudo.
O que muda se mais pessoas conhecessem esses exames?
Tudo. Diagnósticos mais cedo, mais curas, menos mortes. Mas para isso acontecer, a prevenção precisa deixar de ser um conceito e virar uma prática — algo que as pessoas fazem naturalmente, como escovam os dentes.
El Pulso
- Oito em cada dez brasileiros reconhecem sangue nas fezes ou alterações intestinais como sinais graves
- Mas apenas 59% procuram médico imediatamente ao notar esses sintomas; 40% não buscam atendimento
- 53.810 novos casos estimados de câncer colorretal por ano no Brasil para 2026-2028
- 67% dos brasileiros nunca ouviram falar do exame PSO, ferramenta simples de rastreamento precoce
- Apenas 11% já realizaram o teste de sangue oculto nas fezes
Oito em cada dez brasileiros reconhecem a gravidade de sangue nas fezes ou alterações intestinais prolongadas, sinais principais do câncer colorretal. Porém, quando enfrentam esses sintomas na prática, 40% não buscam atendimento médico imediato, esperando o sintoma passar ou recorrendo a remédios caseiros.
Pesquisa revela que 80% dos brasileiros identificam sinais de câncer colorretal, mas apenas 59% procuram médico imediatamente ao notar sangue nas fezes. O desconhecimento sobre exames preventivos permanece alto.
Os brasileiros sabem reconhecer o perigo quando o veem — mas raramente o veem vindo. Uma pesquisa inédita do A.C.Camargo Cancer Center, realizada pela Nexus com dois mil pessoas espalhadas pelo país, revelou um paradoxo incômodo: oito em cada dez brasileiros conseguem identificar os sinais de alerta do câncer colorretal, mas quando esses sinais aparecem em suas próprias vidas, a maioria hesita, adia, procura remédios caseiros, qualquer coisa menos um consultório médico.
O câncer colorretal é hoje o segundo tumor mais frequente entre os brasileiros. O Instituto Nacional de Câncer estimou 53.810 novos casos por ano para o período de 2026 a 2028 — números que ganham peso quando se pensa que a maioria das pessoas não conhece ninguém que tenha enfrentado a doença. Apenas 21% dos entrevistados disseram ter contato próximo com alguém diagnosticado: 15% um parente direto, 6% um amigo ou colega. Os outros 75% vivem como se o câncer colorretal fosse uma abstração, algo que acontece com outros, em outro lugar.
Mas o conhecimento existe. Quando perguntados sobre sangue nas fezes ou mudanças no funcionamento intestinal que duram mais de um mês — os dois principais sinais da doença — 80% dos brasileiros reconhecem a gravidade. Desses, 42% consideram esses sintomas "muito graves". A associação entre esses sintomas e o câncer de intestino também é clara para a maioria: 67% dos entrevistados concordam que sangramento ou alterações intestinais prolongadas podem indicar a doença. O problema é que essa concordância é morna. Apenas 24% concordam "muito". A maioria, 43%, demonstra apenas uma concordância moderada — o tipo de certeza que não move pessoas à ação.
E é aqui que o abismo se abre. Na prática, 9% dos entrevistados já notaram sangue nas fezes. Desse grupo, 59% procuraram um médico imediatamente. Mas 40% não fizeram isso. Dezenove por cento simplesmente esperaram o sintoma desaparecer. Dez por cento demoraram dias ou semanas. Sete por cento tentaram remédios caseiros ou mudanças na alimentação. Três por cento foram à farmácia comprar medicação por conta própria. Um por cento pesquisou na internet antes de qualquer coisa. Essa lacuna entre saber que algo é grave e agir como se fosse grave é onde muitos diagnósticos se perdem.
A resposta imediata varia drasticamente conforme quem você é. Brasileiros com mais de 60 anos procuram atendimento médico em 72% dos casos. Moradores do Sudeste também chegam a 72%. Mulheres buscam ajuda em 63% das situações; homens, em 54%. Quem tem melhores condições financeiras chega a 86%. Mas no Norte e Centro-Oeste, apenas 43% das pessoas que notam sangue nas fezes procuram um médico — o resto espera, toma remédio caseiro, ou simplesmente segue a vida.
O desconhecimento sobre ferramentas de prevenção é ainda mais alarmante. Dois em cada três brasileiros — 67% — nunca ouviram falar do exame de Pesquisa de Sangue Oculto nas Fezes, um procedimento simples capaz de detectar sinais da doença antes mesmo de qualquer sintoma aparecer. Apenas 11% já realizaram o teste. Vinte e um por cento conhecem o procedimento mas nunca o fizeram. Entre jovens de 16 a 24 anos, o desconhecimento chega a 85%. Entre homens, 76%. Entre pessoas com menor renda, 73%. Entre quem estudou apenas até o ensino fundamental, 72%.
Há uma exceção reveladora: entre quem já teve câncer colorretal ou conhece alguém que teve, o desconhecimento do exame cai para 56%. E o percentual de pessoas que já realizaram o teste quase triplica — de 8% para 21%. A proximidade com a doença muda tudo. Quando o câncer deixa de ser abstração e se torna real, as pessoas finalmente procuram as ferramentas que poderiam tê-lo evitado.
Os especialistas do A.C.Camargo reforçam que o diagnóstico precoce do câncer colorretal está diretamente ligado a taxas de cura mais altas. Sangramento, alteração no ritmo intestinal, dor abdominal persistente e perda de peso sem causa aparente são sinais que não devem ser ignorados. Exames preventivos devem começar aos 45 anos, ou antes, conforme orientação médica e histórico familiar. O Dr. Samuel Aguiar, líder do Centro de Referência de Tumores Colorretais da instituição, enfatiza que procedimentos simples como a pesquisa de sangue oculto nas fezes e a colonoscopia são capazes de detectar a doença em estágio inicial. O conhecimento existe. O desafio agora é transformar esse conhecimento em ação antes que seja tarde demais.
Citas Notables
O diagnóstico precoce do câncer colorretal está diretamente ligado a taxas de cura mais elevadas, o que reforça o papel de exames simples na detecção da doença ainda em estágio inicial— Dr. Samuel Aguiar, líder do Centro de Referência de Tumores Colorretais do A.C.Camargo Cancer Center