Em um país onde oito em cada dez famílias carregam dívidas, o endividamento revela não apenas uma crise financeira, mas uma vulnerabilidade estrutural diante de rendas insuficientes, empregos instáveis e despesas imprevisíveis. Uma pesquisa do Instituto Locomotiva e MFM Tecnologia, divulgada em dezembro de 2023 com base em quase mil entrevistas nacionais, mostra que o cartão de crédito — porta de entrada para o consumo imediato — tornou-se também a principal armadilha. Há sinais de recuperação desde a pandemia, mas a esperança permanece desigualmente distribuída, concentrada entre os que já po
Oito em cada dez brasileiros estão endividados, aponta pesquisa do Instituto Locomotiva
Oito em cada dez famílias carregam dívidas que não conseguem pagar
Por que o cartão de crédito lidera tão claramente? Não seria mais fácil as pessoas simplesmente não usarem?
O cartão é fácil. Você compra hoje, paga depois. Quando depois chega, a pessoa não tem o dinheiro, então paga só a mínima. Os juros explodem. É a forma mais acessível de crédito que existe, e também a mais cara.
A pesquisa mostra que 39% têm certeza de que conseguirão pagar. Isso é otimismo justificado ou ilusão?
Provavelmente um pouco dos dois. Houve melhora real na economia desde 2022. Mas esse otimismo é muito maior entre ricos. Entre mulheres e quem tem pouca escolaridade, a certeza cai para 9%. Então é otimismo desigual.
Renegociar dívidas subiu de 31% para 38% como estratégia. Isso significa que mais pessoas estão conversando com bancos?
Ou que mais pessoas perceberam que precisam conversar. Quando você está endividado e sem saída, renegociar vira a única esperança. O Desenrola Brasil provavelmente ajudou a normalizar essa conversa.
Mas apenas 17% conhecem bem o programa. Como algo tão importante pode ser tão desconhecido?
Porque quem mais precisa — pessoas com pouca escolaridade, sem acesso a informação — não está vendo os anúncios. E 57% têm dúvidas sobre o que o programa cobre. Não é só falta de divulgação, é falta de clareza.
As redes sociais influenciam 23% a gastar mais. Isso é novo?
Não é novo, mas é real. Você vê alguém comprando algo bonito, quer também. Quando você está endividado, isso é perigoso. É pressão social traduzida em dívida.
O que mais surpreende você nessa pesquisa?
Que 24% conseguiram estabilizar as finanças. Em um país onde 80% estão endividados, 24% conseguindo sair da lama é esperança. Mas também é muito pouco.
O Pulso
- O cartão de crédito, presente em 60% das dívidas, subiu em relação ao ano anterior — sinal de que o crédito de curto prazo continua sendo usado para cobrir o que o salário não alcança.
- Um terço dos endividados não consegue sequer pagar os juros em dia, e mulheres com ensino fundamental são as mais vulneráveis, com apenas 9% confiantes em quitar suas dívidas.
- Falta de planejamento e desemprego lideram as causas, mas gastos inesperados com saúde atingem 30% dos inadimplentes — revelando uma população sem margem para absorver qualquer choque.
- A confiança em pagar cresceu de 25% para 39% em um ano, e mais pessoas buscam renegociar dívidas, mas a crença de que a economia nacional vai ajudar caiu de 29% para 20%.
- O programa Desenrola Brasil é conhecido por 76% dos endividados, mas apenas 17% dizem entendê-lo bem — uma lacuna de comunicação que limita seu alcance real.
Em um país onde oito em cada dez famílias carregam dívidas, o endividamento revela não apenas uma crise financeira, mas uma vulnerabilidade estrutural diante de rendas insuficientes, empregos instáveis e despesas imprevisíveis. Uma pesquisa do Instituto Locomotiva e MFM Tecnologia, divulgada em dezembro de 2023 com base em quase mil entrevistas nacionais, mostra que o cartão de crédito — porta de entrada para o consumo imediato — tornou-se também a principal armadilha. Há sinais de recuperação desde a pandemia, mas a esperança permanece desigualmente distribuída, concentrada entre os que já possuem mais recursos para resistir.
Oito em cada dez famílias brasileiras estão endividadas, e um terço delas não consegue pagar nem os juros em dia. É o que revela uma pesquisa do Instituto Locomotiva e MFM Tecnologia, realizada com 983 pessoas de todos os estados entre setembro e outubro de 2023.
O cartão de crédito lidera as dívidas com 60% dos casos — alta em relação aos 56% de 2022 —, seguido por empréstimos bancários (43%) e cheque especial (19%). Contas de serviços básicos não pagas e impostos como IPVA e IPTU completam um quadro que se espraia por quase todas as formas de consumo e crédito.
As causas apontam para uma população sem margem de segurança: falta de planejamento financeiro (36%), desemprego (34%) e gastos inesperados com saúde (30%) lideram. Há também quem tenha emprestado o nome para terceiros ou simplesmente consumido além do orçamento.
Apesar disso, há recuperação. A parcela dos endividados com certeza de conseguir pagar saltou de 25% para 39% em um ano. Mais pessoas também buscam renegociar dívidas — 38%, ante 31% em 2022. Porém, a crença de que a melhora da economia nacional ajudará a quitar dívidas caiu de 29% para 20%, e a desigualdade persiste: entre mulheres e pessoas com ensino fundamental, apenas 9% têm essa certeza.
O que os endividados mais desejam é crédito mais acessível (59%) e orientação financeira de qualidade (56%). O programa Desenrola Brasil é reconhecido por 76%, mas apenas 17% dizem conhecê-lo bem — e 57% têm dúvidas sobre quais dívidas ele contempla. Para a maioria, a saída ainda passa por economizar em um orçamento já apertado e torcer pela melhora do cenário econômico.
Oito em cada dez famílias brasileiras carregam dívidas. Um terço delas não consegue nem pagar os juros em dia. Esses números saíram de uma pesquisa do Instituto Locomotiva e MFM Tecnologia divulgada na quinta-feira passada, baseada em 983 entrevistas realizadas entre setembro e outubro com homens e mulheres de todos os estados do país.
O cartão de crédito segue sendo o vilão da história. Responsável por 60% de todas as dívidas em aberto este ano, o plástico subiu de 56% em 2022 — um crescimento que mostra como as pessoas continuam usando crédito de curto prazo para cobrir despesas que não conseguem pagar à vista. Depois vêm os empréstimos bancários e financiamentos, que atingem 43% dos endividados, seguidos pelo cheque especial em 19%. Contas de luz, gás e água não pagas aparecem em 17% dos casos. Impostos como IPVA e IPTU, contas de celular e compras em lojas de departamento completam o quadro de inadimplência que se espraia por quase todas as formas de crédito e consumo.
As razões por trás desse endividamento em massa revelam uma população vulnerável a choques financeiros. Falta de planejamento financeiro lidera com 36%, seguida de perto pelo desemprego em 34%. Gastos inesperados com saúde atingem 30% dos inadimplentes. Há também quem tenha emprestado o nome para que outros fizessem compras ou contratassem serviços — 16% dos casos — e quem simplesmente comprou além do orçamento, em 11% das situações. O retrato é de uma população que não consegue antecipar despesas, que perde renda de forma abrupta, e que muitas vezes não tem margem para absorver uma conta médica ou um carro que quebra.
Há, porém, sinais de recuperação. Em 2022, apenas 25% dos endividados tinham certeza de que conseguiriam pagar suas dívidas. Este ano, esse número subiu para 39% — um aumento significativo que sugere melhora nas condições econômicas ou, pelo menos, maior esperança. Outros 23% acreditam que conseguirão pagar, enquanto 32% não têm certeza. Apenas 5% acreditam que não terão condições, e 2% têm certeza de que é impossível. Os mais otimistas tendem a estar nas classes A e B, representando 78% desse grupo. Já entre as mulheres e entre quem tem apenas ensino fundamental, a certeza de conseguir pagar cai drasticamente para 9%.
Quando perguntados sobre como sairiam dessa situação, 60% dos inadimplentes apontam economizar dinheiro como estratégia principal. Renegociar dívidas aparece em segundo lugar, citada por 38% — um aumento em relação aos 31% de 2022, sugerindo que mais pessoas estão buscando conversar com credores. Também houve melhora no número de brasileiros que conseguiram estabilizar suas finanças, que passou de 20% em 2022 para 24% neste ano. Mas há um dado preocupante: a porcentagem de quem acredita que a economia nacional melhorará e ajudará a quitar dívidas caiu de 29% para 20%.
O que os endividados mais pedem é acesso a crédito mais barato e acessível — 59% citam isso como algo que teria grande impacto em suas vidas. Orientações de qualidade sobre como gerenciar orçamento interessam a 56%. Políticas públicas que reduzissem custos com cuidado infantil — creches em horário estendido ou próximas de casa e trabalho — seriam valorizadas por 41%, porque liberariam recursos para pagar contas.
As redes sociais aparecem como influência negativa para 23% dos inadimplentes, levando-os a comportamentos que dificultam o pagamento das contas. Cônjuges influenciam 10%. O programa Desenrola Brasil, iniciativa do governo para renegociar dívidas, é considerado importante por oito em cada dez endividados. Mas há um problema de comunicação: 76% conhecem o programa, porém apenas 17% dizem conhecer bem. Outros 58% apenas ouviram falar. Cerca de 57% têm dúvidas sobre quais dívidas o programa contempla. Entre os endividados, 20% já negociaram dívidas pelo Desenrola, número que sobe para 28% entre os inadimplentes. Dos que têm certeza de conseguir pagar, 46% planejam usar o programa para renegociar.
O quadro que emerge é de uma população que, apesar de melhorias desde o pico da pandemia, segue frágil financeiramente. O endividamento não é escolha, mas resposta a uma renda insuficiente, desemprego, e falta de proteção contra despesas inesperadas. A esperança cresce, mas permanece desigualmente distribuída — concentrada nas classes mais altas e entre homens com melhor escolaridade. Para a maioria, a saída passa por economizar em um orçamento já apertado, renegociar com credores, e torcer para que a economia melhore.
Citações Notáveis
Oito em cada dez endividados consideram o programa Desenrola Brasil importante para ajudar na vida financeira dos brasileiros— Instituto Locomotiva
59% dos endividados acreditam que crédito mais acessível e barato teria grande impacto em suas vidas financeiras— Pesquisa do Instituto Locomotiva