A temperatura média diária da superfície do mar ultrapassou o anterior máximo de 21,09 ºC registado em março de 2024, marcando um recorde histórico. O fenómeno é impulsionado simultaneamente pelo aquecimento climático de longo prazo e por um episódio extremo de El Niño no Pacífico tropical.
Oceanos atingem temperatura recorde de 21,1 ºC, potencialmente a mais quente em 125 mil anos
O oceano aquece mais depressa do que nunca, e ninguém sabe onde isto termina
Porque é que um recorde de temperatura oceânica em agosto é mais preocupante do que um em março?
Porque quebra o padrão natural. Os oceanos têm um ciclo sazonal bem estabelecido — o pico deveria vir após o verão do hemisfério sul, em março ou abril. Agosto é fora de época. Sugere que algo está a mudar na própria estrutura do sistema climático.
Mas 21,1 ºC versus 21,09 ºC — a diferença é praticamente nada. Porque é que importa?
A diferença numérica é pequena, tens razão. Mas representa uma quantidade colossal de energia adicional armazenada em toda a massa oceânica do planeta. E mais importante: é o terceiro recorde em menos de três anos. Não é um acidente isolado.
Então a questão dos 125 mil anos — é realmente possível saber se estamos tão quentes quanto nessa época?
Não com certeza absoluta. Os cientistas usam proxies — sedimentos, gelo, fósseis — para reconstruir o clima do passado. Há sempre incerteza. Mas o que Ryan Katz-Rosene está a dizer é que, mesmo com essa incerteza, a possibilidade é real o suficiente para ser levada a sério.
E o El Niño — isso é natural, certo? Portanto parte deste aquecimento é apenas ciclo natural?
Sim, El Niño é natural. Mas o que estamos a ver é um El Niño extremo a sobrepor-se a um aquecimento de fundo provocado pelas alterações climáticas. É como adicionar combustível a um fogo que já estava a arder mais depressa do que deveria.
No Algarve, 26,1 ºC — isso é perigoso para as pessoas?
Para as pessoas que nadam, talvez não directamente. Mas para os ecossistemas marinhos, é devastador. Os corais morrem, os peixes migram, as cadeias alimentares desorganizam-se. E isso afeta as comunidades que dependem da pesca. O problema não é apenas o conforto — é a sobrevivência de sistemas inteiros.
Então o que vem a seguir?
Continuamos a observar. Se os recordes continuarem a cair, se as ondas de calor marinhas se tornarem permanentes em vez de episódicas, estaremos perante uma transformação do oceano que levará décadas a reverter — se for possível reverter.
Le Pouls
- Temperatura média diária da superfície do mar atingiu 21,1 ºC a 22 de agosto de 2026
- Recorde anterior era 21,09 ºC em março de 2024
- Aproximadamente 42% dos oceanos afetados por ondas de calor marinhas
- Velocidade de aquecimento aumentou de 0,06 ºC/década (1985-1989) para 0,27 ºC/década (2019-2023)
- No Algarve, boia de Faro registou 26,1 ºC durante episódios de calor marinho
A temperatura média diária da superfície do mar ultrapassou o anterior máximo de 21,09 ºC registado em março de 2024, marcando um recorde histórico. O fenómeno é impulsionado simultaneamente pelo aquecimento climático de longo prazo e por um episódio extremo de El Niño no Pacífico tropical.
Os oceanos globais atingiram 21,1 ºC em agosto de 2026, o valor mais elevado registado em tempos modernos. Cientistas sugerem que pode ser necessário recuar 125 mil anos para encontrar condições oceânicas comparáveis.
A 22 de agosto de 2026, os oceanos do planeta atingiram uma marca que nenhum instrumento moderno havia registado antes: uma temperatura média diária de 21,1 ºC na superfície do mar, entre as latitudes 60º sul e 60º norte. O recorde anterior, de 21,09 ºC, tinha sido estabelecido em março de 2024. A diferença é mínima, mas o facto de ter sido ultrapassado importa menos do que o contexto em que aconteceu.
O que torna este momento particularmente notável é quando ocorreu. As temperaturas oceânicas globais costumam atingir o seu pico entre março e abril, após o verão no hemisfério sul. Desta vez, o máximo surgiu em pleno agosto, sugerindo um padrão anómalo. Já em julho, a temperatura média da superfície dos oceanos tinha estabelecido um novo máximo para esse mês, atingindo 20,96 ºC. Segundo o Copernicus Climate Change Service, que forneceu estes dados, o recorde é consistente com o aquecimento continuado dos oceanos e com um episódio extremamente intenso de El Niño a desenvolver-se no Pacífico tropical.
Mas há uma questão que ultrapassa o mero registo instrumental. Alguns investigadores, como Ryan Katz-Rosene, professor da Universidade de Ottawa, sugerem que pode ser necessário recuar aproximadamente 125 mil anos — até ao último período interglacial — para encontrar oceanos globalmente tão quentes. Esta afirmação repousa em métodos indiretos de reconstrução climática, conhecidos como proxies, que utilizam sedimentos marinhos, gelo e fósseis para inferir condições do passado distante. É importante notar que isto não está cientificamente demonstrado com certeza absoluta. Os dados instrumentais do Copernicus remontam apenas a 1979, e qualquer comparação com épocas muito anteriores carrega inevitavelmente maior incerteza. Ainda assim, a possibilidade de estarmos perante temperaturas sem precedentes em mais de um século de milénios é suficientemente significativa para preocupar os climatologistas.
Dois fenómenos estão a atuar em simultâneo. O primeiro é o aquecimento de longo prazo dos oceanos, directamente associado às alterações climáticas provocadas pela atividade humana. O segundo é um episódio natural mas extremamente intenso de El Niño, capaz de elevar temporariamente as temperaturas globais. Os dados anteriores revelam uma aceleração preocupante: entre 1985 e 1989, a velocidade de aquecimento da superfície do mar rondava 0,06 ºC por década; entre 2019 e 2023, esse ritmo aumentou para 0,27 ºC por década. A mudança é dramática.
As consequências já são visíveis. Aproximadamente 42% dos oceanos do planeta estão actualmente afetados por ondas de calor marinhas. Estas temperaturas extremas provocam mortalidade de corais, alterações na distribuição dos peixes, perda de biodiversidade marinha e perturbações nas cadeias alimentares. Um oceano algumas décimas de grau mais quente à escala planetária pode parecer insignificante, mas representa uma quantidade gigantesca de energia adicional armazenada no sistema climático. Oceanos mais quentes disponibilizam mais energia e vapor de água à atmosfera, podendo favorecer precipitação mais intensa e tempestades mais fortes. A expansão térmica da água contribui igualmente para a subida do nível do mar.
Portugal não está afastado desta situação. O verão de 2026 foi marcado por temperaturas excecionalmente elevadas nas águas próximas da Península Ibérica. Uma análise da World Weather Attribution concluiu que cerca de 90% do Golfo da Biscaia e da costa ibérica esteve sujeito a condições de onda de calor marinha, com as alterações climáticas a contribuírem significativamente para a intensidade do fenómeno. No Algarve, a boia oceanográfica de Faro registou uma temperatura média diária próxima dos 25 ºC, com valores de 26,1 ºC durante episódios de calor marinho.
O que preocupa verdadeiramente os climatologistas não é um recorde isolado, mas a sucessão e persistência dos valores extremos. Um recorde pode resultar da combinação de diferentes fatores naturais. Porém, quando os recordes se sucedem com regularidade crescente, o padrão torna-se inegável. O oceano funciona como um enorme amortecedor climático, absorvendo grande parte do excesso de calor acumulado no sistema terrestre. Quando essa reserva de água aquece progressivamente, as consequências podem prolongar-se durante anos. Os 21,1 ºC registados a 22 de agosto de 2026 são oficialmente um recorde dentro da era moderna de observação. A possibilidade de estarmos perante temperaturas sem paralelo desde o último período interglacial é mais difícil de provar, mas a trajectória dos dados não deixa margem para dúvida sobre a direcção em que nos movemos.
Citations marquantes
É possível que seja necessário recuar cerca de 125 mil anos para encontrar oceanos globalmente tão quentes— Ryan Katz-Rosene, professor da Universidade de Ottawa
O recorde é consistente com o aquecimento continuado dos oceanos e com o aparecimento de um El Niño extremo no Pacífico tropical— Copernicus Climate Change Service