A C Blindados e controladas enfrentam descompasso entre investimentos em verticalização (R$ 180 mi em 5 anos) e retorno operacional mais lento. Credores com 47,6% dos créditos já aderiram ao plano; empresa antecipou pedido por três ações de despejo envolvendo sede, fábrica e showroom.
Líder em blindagem, Grupo Carbon pede recuperação extrajudicial com dívida de R$ 371,5 mi
Crescimento de receita não é a mesma coisa que fluxo de caixa
Por que uma empresa que está crescendo em receita e lucro precisa pedir recuperação extrajudicial?
Porque crescimento não é a mesma coisa que fluxo de caixa. A Carbon investiu 180 milhões em cinco anos para verticalizar a produção, mas esses investimentos demoraram muito mais para gerar retorno do que esperava. Enquanto isso, as dívidas continuavam vencendo.
Mas a receita cresceu 45% em 2025. Isso não deveria gerar caixa suficiente?
Deveria, mas não gerou. A empresa diz que gera 52 milhões de caixa por ano, enquanto precisa pagar 139 milhões em dívidas nos próximos 12 meses. Há um descompasso entre o crescimento da receita e a capacidade de pagar o que deve.
E se a fábrica de Jarinu tivesse começado a operar em maio de 2025, como planejado, teria evitado tudo isso?
Possivelmente. A empresa diz que arcou com dois salários e aluguel de unidades antigas durante quase um ano enquanto esperava a fábrica ficar pronta. Esse custo extra ajudou a criar o buraco.
Mas isso é especulação. O que sabemos é que a fábrica atrasou, custou 80 milhões, e a empresa não conseguiu pagar suas contas. O resto é interpretação.
Quantos credores já concordaram com o plano?
Credores que detêm 47,6% do total de créditos. Isso inclui Amadeus, SSG e Bradesco. Mas Digimais, Banco do Brasil, Santander e Porto Seguro ainda não aderiram.
E a lei permite começar o processo com um terço dos credores, desde que chegue a mais da metade em 90 dias. A Carbon já tem quase metade, então tem uma chance real.
O que acontece com os 1.300 funcionários se o plano falhar?
Não sabemos. A recuperação extrajudicial é uma tentativa de evitar insolvência. Se falhar, a próxima etapa seria recuperação judicial, que é muito mais disruptiva.
E a empresa não diz nada sobre isso no pedido. Apenas que a operação é viável. Mas viável com quanto de redução de custos, de pessoal, de operações? Isso ainda está em aberto.
Il Polso
- Grupo Carbon protocolou pedido de recuperação extrajudicial com dívida de R$ 371,5 milhões
- Investiu R$ 180 milhões em cinco anos em verticalização; fábrica de Jarinu atrasou quase um ano
- Receita cresceu 45% em 2025 para R$ 673 milhões; Ebitda triplicou para R$ 41 milhões
- Credores com 47,6% dos créditos já aderiram; vencimentos de R$ 139 milhões em 12 meses vs. geração de caixa de R$ 52 milhões
- Cerca de 1.300 funcionários entre empregados e prestadores diretos
A C Blindados e controladas enfrentam descompasso entre investimentos em verticalização (R$ 180 mi em 5 anos) e retorno operacional mais lento. Credores com 47,6% dos créditos já aderiram ao plano; empresa antecipou pedido por três ações de despejo envolvendo sede, fábrica e showroom.
Grupo Carbon, líder em blindagem de veículos civis, protocolou pedido de recuperação extrajudicial para renegociar R$ 371,5 milhões em dívidas após expansão com retorno mais lento que esperado.
O Grupo Carbon, que se posiciona como maior fabricante de blindagem para veículos civis do mundo, entrou na Justiça de São Paulo na segunda-feira, dia 5 de outubro, pedindo recuperação extrajudicial para renegociar 371,5 milhões de reais em dívidas. A empresa apresentou o pedido através de sua principal operação, a C Blindados, junto com duas subsidiárias: a Opera Glass, que fabrica vidros blindados, e a Vertco Blindagem.
O problema que levou a Carbon a esse passo é simples de descrever, complexo de resolver. A companhia contraiu dívidas pesadas para expandir suas operações, mas o retorno dos investimentos chegou muito mais lentamente do que havia planejado. Nos últimos cinco anos, o grupo investiu mais de 180 milhões de reais em uma estratégia de verticalização — produzindo internamente vidros e materiais balísticos que antes comprava de fornecedores. A fábrica de vidros em Jarinu, no interior de São Paulo, consumiu sozinha cerca de 80 milhões de reais. Mas enquanto essa planta deveria estar operando em maio de 2025, só começou a funcionar em abril deste ano. Nesse intervalo de quase um ano, a Carbon continuou pagando dois salários para seus funcionários e mantendo aluguel em unidades antigas em Mogi das Cruzes e Atibaia. Tudo isso enquanto a dívida crescia.
Na recuperação extrajudicial, a empresa negocia diretamente com seus credores e leva o acordo ao Judiciário para homologação. Uma vez aprovado, o plano vincula até quem não aderiu. No caso da Carbon, o processo envolve credores quirografários — fornecedores e bancos sem garantia real sobre os bens da empresa. Segundo o pedido, credores que detêm 47,6% do total de créditos já aderiram ao plano de reestruturação. A lei permite iniciar o processo com apoio de um terço dos credores, desde que a empresa alcance mais da metade deles em até 90 dias.
Mas a Carbon não esperou chegar a esse ponto naturalmente. A empresa antecipou o pedido porque enfrentava três ações de despejo por falta de pagamento. Uma envolve o galpão em Barueri onde fica a sede da companhia, outra a fábrica de vidros em Jarinu, e a terceira o showroom na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Esses três imóveis custam 459 mil reais por mês em aluguel. Uma das ações, a de Barueri, já estava pronta para julgamento após uma tentativa de conciliação que fracassou. A Carbon pediu uma liminar para impedir a desocupação enquanto durar a suspensão das cobranças.
Os números revelam a escala do problema. A documentação apresentada à Justiça lista cerca de 600 credores e 2.700 títulos de dívida, quase tudo concentrado na C Blindados. A Opera Glass responde por cerca de 11 milhões de reais, e a Vertco por menos de 1 milhão. Os maiores credores são fundos de recebíveis e bancos. O fundo Amadeus lidera com 95,3 milhões de reais, seguido pelo Banco Digimais com 61,4 milhões em debêntures, e o fundo SSG com 38,4 milhões. Banco do Brasil, Bradesco, Santander e Porto Seguro também estão na lista. Dos maiores, Amadeus, SSG e Bradesco já aderiram ao plano. Digimais, Banco do Brasil, Santander e Porto Seguro ainda não.
O custo médio das dívidas é de 22% ao ano. Nos próximos 12 meses, a Carbon precisa pagar 139 milhões de reais, mas sua geração de caixa é de apenas 52 milhões. Essa é a lacuna que a recuperação extrajudicial tenta fechar. A empresa argumenta que sua operação é viável — a receita líquida cresceu 45% em 2025, chegando a 673 milhões de reais, e o Ebitda triplicou, passando de 15 milhões para 41 milhões. O problema, sustenta a Carbon, não é o negócio em si, mas o peso da dívida.
Fundada em 2015, a Carbon diz responder por cerca de 16% das blindagens de veículos civis no país. O grupo é homologado por montadoras como Volvo, Jaguar Land Rover, Toyota e BYD. Em 2025, produziu mais de 6 mil veículos blindados e emprega cerca de 1.300 pessoas, entre funcionários diretos e prestadores de serviço. O resultado dos próximos 90 dias — se conseguir a adesão de mais da metade dos credores — determinará se essa estrutura sobrevive intacta ou se passa por uma redução significativa.
Citazioni salienti
A crise decorre do descompasso entre a dívida contraída para expandir o negócio e o retorno dos investimentos, que foi mais lento do que o esperado— Grupo Carbon, em petição à Justiça
A empresa sustenta que, da forma como está, a operação é viável e que o problema está no endividamento— Grupo Carbon, em petição à Justiça