Num palco em Lisboa, Barack Obama ofereceu ao mundo uma reflexão que atravessa décadas de experiência no poder: a tecnologia avança mais depressa do que a consciência humana consegue acompanhar, as guerras exigem mais do que a vontade de um só homem, e a democracia só sobrevive quando os seus líderes reconhecem a humanidade partilhada entre povos. O ex-presidente falou no Game Changers Forum como quem observa o presente a partir de uma distância que permite ver os contornos do perigo — e também os da esperança.
Obama em Lisboa aborda IA, guerra e liderança democrática no Game Changers Forum
O que é unicamente humano é ter discernimento sobre o que é importante na vida
Porque é que Obama escolheu falar sobre estes temas específicos em Lisboa, neste momento?
Porque estão todos interligados. A IA é um desafio de coordenação internacional que os EUA e a China têm de resolver juntos. A autoridade presidencial em guerras é um princípio constitucional que está sob pressão. E a liderança democrática é o que mantém tudo isto junto — sem ela, não há confiança para regular nada.
Mas ele não nomeou Trump. Como sabemos que estava a falar dele?
O contexto é claro — Trump autorizou ataques contra o Irão sem aprovação do Congresso, e Obama estava a dizer que presidentes não podem fazer isso. Mas tens razão, não foi explícito.
E quanto à IA? Ele ofereceu soluções concretas?
Não, ofereceu diagnóstico. Disse que a regulação tem de começar nos EUA, que tem de haver coordenação com a China, que precisamos de guias de segurança. Mas como fazer isso quando não há confiança entre os dois países? Essa é a pergunta que deixou no ar.
Ele também disse que a IA avança a cada três meses e que os governos se movem devagar. Isso é verdade, mas é também uma desculpa para não fazer nada — "os governos são lentos, portanto não podemos regular". Não é bem assim.
Não, ele estava a dizer o oposto. Estava a dizer que precisamos de regulação *porque* a tecnologia se move depressa. A lentidão dos governos é o problema, não a solução.
E a parte sobre as profissões que as máquinas não podem substituir — educação, cuidados de enfermagem — isso é realista?
Ele estava a fazer um ponto sobre valores. Sim, há coisas que as máquinas não podem fazer, mas o ponto maior é que desvalorizámos essas profissões. Isso é uma escolha que fazemos como sociedade, não uma lei da natureza.
Mas ele não respondeu à pergunta óbvia: se desvalorizámos essas profissões, porque é que vamos revalorizá-las agora? Qual é o mecanismo?
Não respondeu porque não há resposta fácil. É um apelo à liderança, não uma solução técnica.
E no final, quando falou sobre liderança democrática e humanidade comum — isso é um contraste direto com o que está a acontecer nos EUA agora?
Sim. Ele estava a criticar a nostalgia de um passado excludente, a ideia de que há uma "América real" onde as pessoas negras eram silenciosas e as mulheres sabiam o seu lugar. Isso é um diagnóstico do que está a acontecer politicamente.
Mas ele não ofereceu um plano para como combater isso. Apenas disse que precisamos de líderes diferentes. Como é que isso acontece?
Il Polso
- A inteligência artificial evolui a cada três meses e pode comprometer sistemas financeiros, tráfego aéreo e segurança biológica antes que qualquer regulação esteja em vigor.
- A desconfiança entre os Estados Unidos e a China — as duas potências mais avançadas em IA — torna quase impossível a coordenação que o momento exige.
- Obama evocou a Síria e o Irão para lembrar que presidentes não podem iniciar guerras sozinhos, numa sala onde o contexto político tornava a mensagem inconfundível.
- A democracia enfrenta uma ameaça interna: a nostalgia de um passado onde certas vozes eram silenciadas, disfarçada de patriotismo e identidade nacional.
- A saída apontada passa por líderes capazes de reconhecer uma humanidade comum — e por novas instituições ágeis o suficiente para responder às transformações em curso.
Num palco em Lisboa, Barack Obama ofereceu ao mundo uma reflexão que atravessa décadas de experiência no poder: a tecnologia avança mais depressa do que a consciência humana consegue acompanhar, as guerras exigem mais do que a vontade de um só homem, e a democracia só sobrevive quando os seus líderes reconhecem a humanidade partilhada entre povos. O ex-presidente falou no Game Changers Forum como quem observa o presente a partir de uma distância que permite ver os contornos do perigo — e também os da esperança.
Barack Obama chegou à Meo Arena em Lisboa como orador principal do Game Changers Forum e começou com gestos de proximidade — agradeceu em português, evocou os luso-americanos da sua administração e brincou com a raça dos seus cães. Mas o tom mudou depressa.
Sem nomear Trump, Obama recordou que presidentes não podem iniciar guerras sem aprovação parlamentar — uma afirmação que ganhou peso num momento em que ataques ao Irão foram autorizados sem consulta legislativa. A Síria foi o exemplo pessoal: um povo a ser massacrado, mas sem base legal para intervenção. O mesmo princípio aplicou-se às armas nucleares: nenhuma decisão dessa magnitude pode caber a uma única pessoa.
O tema que mais tempo ocupou foi a inteligência artificial. Obama descreveu um mundo onde a tecnologia avança a cada três meses enquanto os governos se movem em décadas — e onde os riscos são concretos: intrusões em infraestruturas críticas, novos agentes patogénicos, instabilidade financeira. A regulação é urgente, mas exige cooperação entre EUA e China, dois países que não se fiam um do outro.
Obama não rejeitou a tecnologia, mas alertou para o que ela não pode substituir: o discernimento humano presente na educação, nos cuidados, na amizade. Sociedades que desvalorizam essas funções perdem algo que nenhuma eficiência recupera.
No encerramento, voltou à democracia. Criticou a nostalgia americana de um passado onde mulheres e pessoas negras 'sabiam o seu lugar', e defendeu líderes suficientemente seguros de si para querer um mundo de igualdade — não de superioridade. Tecnologia, guerra e democracia, concluiu, são faces do mesmo desafio: construir instituições e lideranças à altura de uma humanidade que é mais do que desconfiança.
Barack Obama desceu do palco da Meo Arena em Lisboa no sábado passado com o público de pé. Tinha vindo como orador principal da sexta edição do Game Changers Forum, e começou a sua intervenção de forma desarmante: agradeceu em português, recordou que a sua administração tinha tido mais luso-americanos do que qualquer outra — o diretor político, o secretário da Energia, o fotógrafo oficial — e depois riu-se ao mencionar que os seus dois cães, Bo e Sunny, eram da raça cão de água português. Mas o tom mudou rapidamente quando começou a falar dos temas que o preocupam.
Obama tocou numa questão que ressoa particularmente agora, um mês antes das eleições intercalares nos Estados Unidos. Presidentes, disse ele, não podem começar uma guerra sem aprovação do parlamento. A sala aplaudiu forte. Não nomeou Donald Trump, mas o contexto era claro: Trump tinha autorizado ataques contra o Irão sem pedir autorização legislativa. Obama estava a falar de um princípio constitucional que considera fundamental, e a sua reflexão vinha de experiências pessoais. Durante os seus dois mandatos, entre 2009 e 2017, enfrentou um dos dilemas mais difíceis da sua presidência: a guerra civil na Síria, onde Bashar al-Assad estava a matar o seu próprio povo. Como aliviar aquele sofrimento respeitando a lei internacional? A Síria não tinha atacado os Estados Unidos, o que significava que não havia base legal para uma intervenção militar. "Havia temas ligados à nossa Constituição", explicou. Para a maioria das decisões que tomou, reconheceu, não havia uma resposta clara, porque eram problemas difíceis.
O ex-presidente também abordou o seu trabalho para travar as armas nucleares, nomeadamente através de acordos com o Irão que Trump depois revogou. Aqui, a questão era diferente mas igualmente grave: ninguém, disse Obama, pode ter um sistema onde uma única pessoa decide quando lançar uma arma nuclear. É uma decisão que tem de envolver várias pessoas, várias camadas de aprovação. O princípio subjacente é o mesmo: o poder presidencial tem limites, e esses limites existem por uma razão.
Mas a maior parte do tempo foi dedicada à inteligência artificial, um tema que Obama vê como o desafio regulatório mais urgente da próxima década. Os Estados Unidos e a China, disse, são os países mais avançados em IA, mas não há confiança entre eles. E isso é um problema porque a tecnologia move-se muito depressa — os modelos avançam a cada três meses, ensinam-se a si próprios — enquanto os governos e as sociedades se movem devagar. Não existem ainda as guias de segurança necessárias. "Temos de regular e coordenar entre nações e isso vai ser um grande desafio", comentou. A mudança económica, social e política que a IA vai provocar vai acontecer em dez anos, não em trinta ou cinquenta. E os riscos são reais: alguém pode entrar no sistema financeiro, no controlo de tráfego aéreo, pode desenvolver um novo patógeno. A regulação tem de começar nos Estados Unidos, mas também envolve a China e outras potências tecnológicas.
Mas Obama não é um tecnófobo. Reconheceu que há coisas em que as máquinas serão melhores do que os humanos. O problema, porém, é que há realidades em que as máquinas nunca poderão substituir os humanos: educação, cuidados de enfermagem, qualquer coisa que exija discernimento e sabedoria. E aqui tocou num ponto que o preocupa profundamente: como sociedade, desvalorizámos essas profissões. "Temos de reavaliar o que valorizamos e o que tem maior posição nas nossas sociedades", disse. As máquinas podem ser eficientes, mas eficiência nem sempre é o que queremos. O que é unicamente humano é ter discernimento sobre o que é importante na vida: amizade, família, cuidar de alguém, mesmo que seja um estranho, ter perspetiva.
No final, Obama voltou-se para a questão da liderança democrática. O que o mundo precisa agora, disse, são líderes que representem o seu próprio povo mas que também vejam que quem está noutro país tem esperanças e sonhos, que reconheçam uma humanidade comum. Nos Estados Unidos, observou, tem havido um esforço de dizer que há uma "América real", uma nostalgia de um tempo em que as pessoas negras eram silenciosas, em que as mulheres sabiam o seu lugar. Isso é perigoso. O que precisamos são líderes suficientemente confiantes para dizer que querem viver num mundo onde as suas filhas têm as mesmas oportunidades que os seus filhos, onde o vizinho não é uma ameaça, onde não é preciso ser superior a ninguém. "Precisamos desse impulso democrático na nossa liderança e de líderes que compreendem os valores da democracia e da igualdade", insistiu. E também de novas instituições que se movam depressa o suficiente para entregar resultados às pessoas. A tecnologia, a guerra, a democracia — tudo está ligado, e tudo exige liderança que compreenda que a humanidade é mais do que desconfiança.
Citazioni salienti
Tecnicamente, um presidente não pode começar uma guerra sem aprovação do parlamento— Barack Obama
O que precisamos agora é de líderes que representem o seu próprio povo mas que também vejam que quem está noutro país também tem esperanças e sonhos, que temos uma humanidade comum— Barack Obama