A cada eleição, o voto é interpretado como escolha racional — mas o primeiro turno brasileiro de 2026 revela uma dimensão mais profunda: o voto como declaração de identidade. Quando eleitores apoiam candidatos de um mesmo campo político em cascata, do presidente ao deputado, independentemente de mérito individual, o gesto expressivo produz um efeito concreto e potencialmente perigoso — a concentração extraordinária de poder em uma única força. Tocqueville já alertava que a democracia carrega em si a semente de sua própria contradição: a maioria, legítima em sua origem, pode tornar-se tirânica
O voto identitário e o risco da tirania da maioria
O voto expressivo acaba produzindo algo muito mais concreto: uma concentração de poder
Então você está dizendo que o voto deixou de ser sobre políticas e passou a ser sobre identidade?
Não exatamente. É que as duas coisas coexistem. O voto sempre foi expressivo e instrumental ao mesmo tempo. Mas o que mudou é que a dimensão expressiva ficou tão forte que começou a dominar a escolha, mesmo quando a avaliação instrumental sugeriria outra coisa.
Mas como você mede isso? Como você sabe que alguém votou por identidade e não por uma razão que simplesmente não aparece nas pesquisas?
O padrão de votação em cascata é o indicador. Candidatos desconhecidos derrotando figuras consolidadas, sempre na mesma direção política. Isso não acontece por acaso.
E por que isso é perigoso? Não é natural que as pessoas votem em quem compartilha seus valores?
É natural, mas há uma consequência que não é imediata. Quando o voto expressivo produz uma concentração de poder tão grande, você enfraquece as instituições que deveriam proteger quem ficou de fora.
Você está falando do Judiciário. Mas é especulação dizer que isso vai acontecer. Ninguém sabe ainda como um novo governo se comportaria.
Verdade. Mas Tocqueville já tinha identificado esse risco há quase dois séculos. Não é novo. É estrutural.
Então a solução seria o quê? Limitar o voto expressivo?
Ou fortalecer as instituições contramajoritárias antes que seja tarde. Mas isso exigiria que a maioria aceitasse limites a si mesma, o que é exatamente o oposto do que está acontecendo.
É por isso que a ironia é tão cruel. Quando você descobre o problema, pode ser tarde demais para corrigi-lo.
O Pulso
- O padrão de votação em cascata — candidatos desconhecidos derrotando figuras consolidadas — expõe que a identidade política sobrepôs-se à avaliação racional de cada candidato.
- Uma única força política avança simultaneamente sobre governos estaduais, Senado, Câmara e a Presidência, configurando uma concentração de poder sem precedentes recentes no Brasil.
- O Judiciário, principal instituição contramajoritária do país, enfrenta pressão crescente: novas nomeações ao STF e a ameaça de impeachment de ministros pelo Senado colocam sua independência em xeque.
- O risco não é uma ruptura violenta, mas um novo regime nascido das próprias urnas — uma tirania da maioria celebrada como expressão da vontade popular.
- A ironia mais cruel desse processo é que seus maiores entusiastas podem só compreender o valor das garantias minoritárias no dia em que eles próprios se tornarem minoria.
A cada eleição, o voto é interpretado como escolha racional — mas o primeiro turno brasileiro de 2026 revela uma dimensão mais profunda: o voto como declaração de identidade. Quando eleitores apoiam candidatos de um mesmo campo político em cascata, do presidente ao deputado, independentemente de mérito individual, o gesto expressivo produz um efeito concreto e potencialmente perigoso — a concentração extraordinária de poder em uma única força. Tocqueville já alertava que a democracia carrega em si a semente de sua própria contradição: a maioria, legítima em sua origem, pode tornar-se tirânica em seus resultados, especialmente quando as instituições criadas para freá-la perdem sua independência.
Quando as urnas fecharam no primeiro turno, analistas correram a explicar os números pela lógica habitual: governos bem avaliados vencem, candidatos desconectados das ruas perdem. Mas o resultado sugere que algo mais fundamental estava em jogo nas cabines de votação — algo que essa lógica instrumental não consegue capturar.
O caso do Rio de Janeiro é emblemático. Douglas Ruas, do PL, venceu a disputa para governador sob o padrinho político de Cláudio Castro, cujo governo foi marcado por escândalos de corrupção e falhas na segurança pública — exatamente as prioridades dos eleitores fluminenses. A explicação não está na competência percebida do candidato, mas no voto expressivo: o ato de votar como declaração de identidade, de reconhecimento, de pertencimento a um campo.
Esse padrão se repete em cascata por todos os cargos. Candidatos praticamente anônimos derrotaram figuras com trajetórias consolidadas porque a identidade política sobrepôs-se à avaliação individual. O eleitor não escolheu necessariamente o mais capaz — escolheu quem reconhecia como um dos seus.
Aqui reside o paradoxo perigoso. O voto expressivo não cancela o voto instrumental: a urna também é o lugar onde se entrega poder real. E nesta eleição, esse poder está sendo entregue com concentração extraordinária — estados, Senado, Câmara e possivelmente a Presidência convergindo para uma única força política.
Tocqueville identificou esse risco no século 19: a maioria pode ser legítima em sua origem e tirânica em seus resultados, retirando direitos de quem ficou de fora. Para evitar isso, as democracias modernas criaram instituições contramajoritárias — e o Judiciário é a principal delas. Mas quando o poder de nomear ministros do STF e de ameaçá-los com impeachment recai sobre a mesma força majoritária, a instituição que deveria frear a maioria passa a estar presa a ela.
O Brasil pode estar diante não de uma ditadura militar, mas de um novo regime nascido das urnas — uma tirania da maioria celebrada como democracia. A ironia mais amarga é que seus defensores mais fervorosos talvez só descubram o valor dos direitos das minorias no dia em que eles próprios se tornarem uma.
As urnas fecharam no primeiro turno e imediatamente começou o ritual que se repete a cada eleição: especialistas, comentaristas e observadores se apressaram em explicar o que os números significavam. Fulano venceu porque o governo anterior foi bem administrado. Sicrano perdeu porque não soube ouvir as ruas. Cada interpretação parecia tão certa quanto a anterior, cada uma reivindicando autoridade sobre a vontade do eleitor. Mas raramente, nessas análises frenéticas, alguém se detém para questionar algo mais fundamental: o que realmente é o voto?
A maioria das discussões políticas no Brasil trata o voto como um instrumento — um meio para um fim específico. O eleitor escolhe aquele que acredita ser mais capaz de resolver seus problemas, aquele cujo governo trará melhores resultados. Essa lógica parece irrefutável. Mas o resultado do primeiro turno sugere que algo mais complexo estava acontecendo nas cabines de votação. O Rio de Janeiro oferece talvez o exemplo mais perturbador. Douglas Ruas, do PL, venceu a disputa para governador. Seu padrinho político é Cláudio Castro, também do PL, cujo governo foi marcado por escândalos de corrupção e fracassos na segurança pública — justamente as duas preocupações que pesquisas apontam como prioritárias para os eleitores fluminenses. Como explicar essa escolha pela lógica instrumental? Ruas seria mais preparado que Eduardo Paes para enfrentar esses problemas? A resposta não parece estar ali.
O que as urnas revelaram foi outra dimensão do voto, frequentemente negligenciada nas análises: o voto expressivo. Não se trata apenas de escolher quem governará. Trata-se de declarar quem se é. O eleitor vota para afirmar uma identidade política, para se reconhecer em uma força, para dizer ao mundo de que lado está. Essa interpretação ganha força quando se observa o padrão de votação em cascata — presidente, governador, senador, deputado — onde candidatos praticamente desconhecidos derrotaram figuras políticas com trajetórias consolidadas e reconhecidas. A identidade política se sobrepôs à avaliação individual de cada candidato. O eleitor não necessariamente escolheu quem considerava mais capaz. Escolheu quem reconhecia como um dos seus.
Mas aqui emerge um paradoxo perigoso, quase invisível à primeira vista. O voto expressivo não elimina a dimensão instrumental do voto. A urna não é apenas um palco para declarações de identidade. É também o lugar onde entregamos poder real a alguém. E nesta eleição, essa delegação de poder apresenta uma concentração extraordinária. Nos estados, no Senado, na Câmara dos Deputados e muito provavelmente na Presidência da República, uma única força política poderá assumir o controle das principais instituições do país. Um voto expressivo — um gesto de identidade — acabou produzindo algo muito mais concreto e perigoso: uma concentração massiva de poder.
Alexis de Tocqueville, um dos grandes pensadores conservadores do século 19, identificou esse perigo específico na democracia. O voto permite formar maiorias, mas nada garante que essas maiorias respeitarão os direitos daqueles que ficaram de fora. Uma maioria pode decidir, democraticamente, retirar direitos de uma minoria. A decisão será legítima em sua origem, mas não será democrática em seu resultado. Tocqueville chamou isso de tirania da maioria — talvez a contradição mais corrosiva que uma democracia pode enfrentar.
Para evitar esse desvirtuamento, as democracias modernas criaram instituições contramajoritárias. O Judiciário é a principal delas. Sua função é dizer não à maioria quando ela ultrapassa os limites constitucionais, quando ameaça direitos fundamentais. Mas surge uma questão que ninguém pode ignorar: o que acontece quando a instituição encarregada de impor esses limites fica submetida à própria maioria? Uma eventual presidência com poder de fazer novas nomeações ao Supremo Tribunal Federal, combinada com uma maioria no Senado capaz de ameaçar ministros com impeachment, colocaria a independência judicial sob pressão extraordinária. A instituição que deveria frear a maioria estaria presa a ela.
Se Flávio Bolsonaro, do PL, confirmar sua eleição para o Senado, isso poderá significar muito mais do que uma simples alternância de poder. O Brasil poderia estar inaugurando um novo regime político — não uma ditadura militar como aquela que o país conheceu, mas uma tirania da maioria, na qual o poder nasce das urnas e encontra cada vez menos obstáculos fora delas. O mais perturbador é que esse regime poderia nascer sob aplausos, celebrado como expressão da vontade popular. E talvez continue satisfeito até o momento em que seus próprios entusiastas descobrirem que, ao entregar tanto poder a uma elite política, já não possuem os instrumentos necessários para contê-la. A ironia cruel da tirania da maioria é que seus maiores defensores podem descobrir a importância dos direitos das minorias apenas quando eles próprios se tornarem uma.
Citações Notáveis
O eleitor não escolhe necessariamente quem considera mais capaz de resolver seus problemas. Escolhe quem reconhece como um dos seus.— Análise do artigo sobre voto expressivo
A tirania da maioria tem essa ironia cruel: seus maiores entusiastas podem acabar descobrindo a importância dos direitos das minorias apenas quando eles próprios se tornarem uma.— Reflexão final do artigo