Em algum ponto da modernidade, a humanidade parece ter trocado a profundidade pela superfície e a conexão real pelo simulacro do pertencimento. Enquanto crianças passam fome e o planeta aquece sob décadas de omissão consciente, a sociedade contemporânea se ocupa com relacionamentos robóticos, ecobags descartadas e auroras boreais fotografadas sem serem vistas. Esta coluna não narra um escândalo isolado, mas o escândalo difuso e cotidiano de uma civilização que conhece suas contradições e, ainda assim, as abraça.
O mundo está muito confuso: um retrato das contradições contemporâneas
Flutuamos como astronautas de nós mesmos em torno da luz azul
Por que você acha que essas contradições explodiram agora, neste momento específico da história?
Porque temos acesso simultâneo a tudo — sabemos que crianças passam fome enquanto vemos cães em roupas de grife. A tecnologia nos conecta e nos isola ao mesmo tempo. Sabemos demais e fazemos de menos.
Você está dizendo que a informação é o problema?
Não. O problema é que sabemos desde 1988 que estamos destruindo o planeta e continuamos fazendo exatamente isso. Sabemos e escolhemos não saber.
E quanto aos relacionamentos com robôs? Isso não é só uma minoria?
Talvez. Mas representa algo maior — a busca por amor sem risco, sem decepção. É mais fácil amar algo que não pode nos magoar do que amar uma pessoa real.
Então você acha que estamos todos escapando?
Estamos escapando de tudo. Das crianças que passam fome, da responsabilidade, da morte. Pedimos medicamentos para dormir porque não conseguimos estar presentes nem naquilo que deveria ser natural.
Qual é a saída?
Não sei. Talvez começar a olhar para o céu em vez de para a tela. Talvez conversar de verdade em vez de enviar áudios. Talvez reconhecer que estamos todos flutuando sozinhos e que isso é um problema.
Você tem esperança?
Tenho dúvida. Mas a dúvida é melhor que a indiferença.
The Pulse
- A urgência é silenciosa mas total: desde 1988 sabemos que os combustíveis fósseis nos destroem, e a resposta coletiva foi queimar ainda mais — enquanto bilionários planejam escapar para outros planetas.
- A perturbação está na escala do absurdo normalizado: cães comem orgânico enquanto crianças andam descalças, e meninas de doze anos usam cremes anti-envelhecimento enquanto mulheres de sessenta se reinventam.
- A violência atravessa o cotidiano sem provocar ruptura: escolas viram campos de massacre, corpos são contados, e a indústria das armas segue intacta, apoiada pelas mesmas sociedades enlutadas.
- A tecnologia prometeu conexão e entregou isolamento: pessoas constroem vínculos afetivos com máquinas, ouvem as próprias mensagens de voz e, quando ouvem as dos outros, aceleram a velocidade.
- Não há resolução à vista — apenas a deriva: a humanidade orbita suas próprias telas como astronautas de si mesma, cada vez mais solitária dentro de um mundo cada vez mais barulhento.
Em algum ponto da modernidade, a humanidade parece ter trocado a profundidade pela superfície e a conexão real pelo simulacro do pertencimento. Enquanto crianças passam fome e o planeta aquece sob décadas de omissão consciente, a sociedade contemporânea se ocupa com relacionamentos robóticos, ecobags descartadas e auroras boreais fotografadas sem serem vistas. Esta coluna não narra um escândalo isolado, mas o escândalo difuso e cotidiano de uma civilização que conhece suas contradições e, ainda assim, as abraça.
Há dias em que tentar entender o mundo parece inútil. As contradições chegam rápido demais: pessoas que anseiam por amor criam laços com máquinas sem sentimento, enquanto crianças descalças passam fome nas calçadas, invisíveis.
O consenso se desfez. A forma da Terra, a eficácia das vacinas, a confiabilidade da ciência viraram debates abertos, enquanto cães domésticos vestem grife e comem refeições orgânicas. Meninas de doze anos aplicam cremes anti-envelhecimento; mulheres de sessenta proclamam estar em seu auge. Ninguém sabe mais o que é envelhecer.
Numa das democracias mais ricas do mundo, homens entram em escolas para matar. Centenas morrem. A sociedade vê os corpos e, em grande parte, continua apoiando a indústria das armas. Precisamos de remédios para dormir. Mulheres que lutaram pelo direito de votar e de trabalhar assistem a outras mulheres reivindicando o retorno ao fogão como conquista.
Um líder político sugeriu construir um resort sobre os escombros de Gaza. Iogues que pregam compaixão votam em fascistas. O absurdo não é acidente — parece escolha coletiva.
O consumo virou patologia: sacrificamos tempo com os filhos por bolsas de grife e versões mais novas do que já temos. Pedalamos em bicicletas que não nos levam a lugar algum. Uma família viaja à Finlândia para ver a aurora boreal e, quando ela surge, todos olham para as telas, ajustando o cabelo para fotos que estranhos verão enquanto esperam elevadores.
Desde 1988, líderes sabem o que os combustíveis fósseis farão ao planeta. A maioria respondeu queimando mais. Empresários destroem a única Terra habitável para tentar a sorte em mundos inóspitos. Pais não deixam filhos ir à esquina sozinhos, mas os entregam a aplicativos com milhões de estranhos. A camiseta que você veste foi costurada por crianças bolivianas.
Em vez de conversar, gravamos monólogos em áudio e os ouvimos de volta. Quando ouvimos os dos outros, aceleramos. O mundo está plenamente confuso, e nós flutuamos cada vez mais solitários — astronautas de nós mesmos, orbitando a luz azul das telas.
Há dias em que a tentativa de compreender o mundo parece um exercício fútil. As contradições se acumulam tão rapidamente que fica difícil acompanhar. Pessoas que anseiam desesperadamente por amor constroem relacionamentos com máquinas incapazes de qualquer sentimento. Enquanto isso, crianças passam fome nas ruas, descalças, invisíveis.
A realidade se tornou um espelho quebrado. Fatos que antes eram consenso — a forma da terra, a eficácia das vacinas, a confiabilidade da ciência — viraram questões em aberto para multidões. Ao mesmo tempo, cães domésticos vestem roupas de grife e comem refeições orgânicas preparadas com cuidado. A desproporção é tão absurda que quase parece proposital. Meninas de doze anos aplicam cremes anti-envelhecimento no rosto enquanto mulheres de sessenta proclamam estar em seu melhor momento. Ninguém sabe mais o que é envelhecer naturalmente.
Em uma das democracias mais ricas do planeta, homens entram em escolas não para distribuir doces, mas para distribuir balas de fuzil. Centenas morrem. A sociedade vê os corpos e, em grande parte, continua apoiando a indústria que fabrica as armas. Precisamos de medicamentos para dormir — a tarefa mais simples que existe se tornou impossível sem intervenção química. Nossas avós lutaram pelo direito de votar. Nossas mães lutaram pelo direito de trabalhar. Agora há mulheres que lutam para voltar ao fogão, chamando isso de escolha.
Um líder político, vendo Gaza destruída por bombardeios, com corpos espalhados pelas ruas, sugeriu construir um resort no local. Iogues que pregam compaixão votam em fascistas. Pessoas brancas se identificam como vítimas de racismo. Monges fazem propaganda de cerveja. O mundo não apenas está confuso — está em um estado de confusão que parece deliberado, como se tivéssemos coletivamente decidido abraçar o absurdo.
Nosso relacionamento com o consumo se tornou patológico. Sacrificamos horas com nossos filhos para comprar bolsas com logomarcas, bancos de couro, versões mais novas de coisas que já possuímos. Pagamos para pedalar em bicicletas estacionárias que não nos levam a lugar nenhum, olhando para paredes sem horizonte. Enquanto buscamos evoluir, criamos uma forma de inteligência capaz de nos destruir. Uma família viaja para a Finlândia para ver a aurora boreal — um dos espetáculos mais raros da natureza — e quando o fenômeno finalmente ocorre, ninguém olha para o céu. Todos olham para pequenas telas, ajustando cabelos para impressionar desconhecidos que veem as fotos enquanto esperam elevadores ou refogam cebolas em casa.
Desde 1988, líderes mundiais sabem que queimar combustíveis fósseis nos levará à ruína. A maioria deles respondeu queimando ainda mais. Empresários que se consideram gênios destroem o único planeta com vida para tentar sorte em outro, completamente inóspito. Pais não permitem que filhos caminhem até a esquina sozinhos, mas os deixam dentro de aplicativos com milhões de estranhos. Meninos de dez anos aprendem sobre sexo anal antes de aprender sobre um beijo de língua. Marcas que se vendem como defensoras da natureza produzem milhões de ecobags e copos reutilizáveis que acabarão em gavetas e aterros sanitários.
A camiseta que você veste foi costurada por crianças bolivianas. Antes as pessoas escondiam livros; agora os exibem em prateleiras que quase nunca consultam. Em vez de conversar, preferimos monólogos em áudio. Ouvimos nossas próprias mensagens de volta. Quando finalmente ouvimos as dos outros, é em velocidade dobrada. O mundo está redondamente confuso, plenamente confuso, e nós flutuamos cada vez mais solitários, como astronautas de nós mesmos, orbitando a luz azul de nossas telas.
Notable Quotes
As pessoas que mais querem ser amadas estão se relacionando com robôs incapazes de sentir amor— Colunista
Sacrificamos horas com nossos filhos em troca de bolsas com logomarcas e bancos de couro— Colunista