Miró rompeu convenções e conquistou espontaneidade com disciplina severa

A espontaneidade era fabricada todas as manhãs com o mesmo rigor
Miró mantinha rotina de tabelião enquanto os surrealistas teorizavam o automatismo psíquico.
Mark

Por que Miró pintava com tanta disciplina se era considerado surrealista?

Mimi

Porque a espontaneidade que admiravam nele era construída. Ele preparava cada tela com desenhos prévios numerados, mantinha horário de expediente, vestia terno e gravata. Os companheiros teorizavam o automatismo psíquico; ele arquivava tudo.

Mark

E durante a guerra, quando tudo desabava, como ele conseguiu pintar coisas tão serenas?

Mimi

Respondeu ao caos com o oposto do caos. Miniatura, repetição, método. Enquanto a Europa ardia, ele esfregava papel com trapos até obter um fundo nebuloso e dispunha signos com paciência de relojoeiro. Era uma forma de afirmar que o céu ainda existe.

Mark

Ele se considerava um artista político?

Mimi

Não era homem de tribuna. Fez o que sabia: desenhou um cartaz para arrecadar fundos para a República, pintou um mural para o pavilhão espanhol em 1937. Depois desapareceu. A política dele era silenciosa.

Mark

E essa história de "assassinar a pintura"?

Mimi

Não era boutade. Era um programa. Queria matar a pintura-quadro, a mercadoria de cavalete, o ofício satisfeito consigo mesmo. Então começou a subtrair: colagens pobres, objetos montados com cortiça e prego. Reduzia o mundo a signos essenciais.

Mark

As "Constelações" influenciaram realmente o expressionismo abstrato?

Mimi

Foram das primeiras obras produzidas na Europa em guerra que os americanos viram. Pollock e outros encontraram ali já resolvido o problema que perseguiriam: uma pintura sem centro, sem hierarquia, distribuída por toda a superfície como um campo.

Mark

E no final da vida, aos 80 anos, queimava suas próprias telas?

Mimi

Sim. As expunha chamuscadas, declarando-se tanto mais anarquista quanto mais velho. O mercado absorveu tudo sem engasgar. Miró nunca parou de questionar o que fazia.

  • 23 guaches das "Constelações" produzidos entre janeiro de 1940 e junho de 1941
  • Refugiado em Varengeville-sur-Mer, depois Palma de Maiorca e Mont-roig durante a Segunda Guerra
  • Morreu em Palma no Natal de 1983, aos 90 anos
  • Exposição na Faap em São Paulo com pinturas, esculturas, gravuras, tapeçarias e fotografias

Miró produziu suas obras mais serenas durante a Segunda Guerra, refugiado sob ditadura, respondendo ao caos com miniatura, repetição e método rigoroso. O pintor nunca abandonou o mundo visível, mas o reduzia sistematicamente a signos essenciais, criando um alfabeto visual de estrelas, olhos e luas crescentes.

Grande exposição na Faap revisita a trajetória de Joan Miró, pintor que conquistou espontaneidade através de rigorosa disciplina, mantendo fidelidade estética mesmo diante de convulsões políticas do século 20.

Joan Miró estava sentado a uma mesa estreita em Palma de Maiorca quando a Europa ardia. Era junho de 1941, e o pintor catalão terminava mais uma folha de papel de 38 por 46 centímetros, umedecendo o suporte, esfregando-o com trapos até obter um fundo nebuloso, e depois dispondo sobre essa névoa, com paciência de relojoeiro, uma rede de signos: olhos, estrelas, discos negros e vermelhos ligados por linhas finas como as de um mapa celeste. Chamou a obra "Algarismos e Constelações Apaixonados por uma Mulher". Dentro do papel, tudo era exatidão.

Esta folha pertencia à série das "Constelações", 23 guaches de formato idêntico que Miró havia iniciado em janeiro de 1940 num vilarejo normando chamado Varengeville-sur-Mer, onde se refugiara com a mulher, Pilar Juncosa, e a filha. Quando as colunas alemãs romperam a frente francesa, em maio daquele ano, o pintor tomou um dos últimos trens para o sul levando as folhas prontas numa pasta, atravessou a fronteira e foi terminar a série em Palma e depois em Mont-roig, na Catalunha. A ironia era dupla: para escapar de uma ditadura que avançava, refugiou-se dentro de outra, já instalada. Viveu discreto, quase clandestino, sob o sobrenome da mulher. E pintou, naqueles meses, as obras mais serenas de toda a arte europeia do período.

Diante do desabamento geral, Miró não respondeu com o grito. Respondeu com a miniatura, a repetição, o método. Nenhuma das 23 folhas denunciava coisa alguma; todas afirmavam, contra a evidência dos fatos, que ainda existe céu e que ele pode ser medido. Há quem chame isso de evasão, e o próprio Miró não recusaria a palavra. Mas a escada, em Miró, nunca foi metáfora de deserção. Ela aparece pela primeira vez encostada a uma árvore em "A Fazenda", a tela que fecha a juventude do pintor, iniciada em Mont-roig e terminada em Paris. Para não trair um só detalhe, Miró levou na mala ervas secas colhidas na propriedade, que consultava como um filólogo consulta manuscritos. Cada folha, cada regador, cada rachadura do muro estava lá, inventariada com uma minúcia que já não era realismo, era obsessão. Os marchands recusaram o quadro; quem o comprou, por 5.000 francos que não tinha, foi Ernest Hemingway, que diria mais tarde não trocá-lo por nenhuma outra pintura no mundo.

A partir de 1920, Miró ocupou um ateliê na rua Blomet, em Paris, parede com parede com André Masson, no centro exato do que viria a ser o surrealismo. Passava fome e anotava as alucinações que a fome lhe dava. André Breton o declarou "o mais surrealista de todos nós", elogio que era também uma anexação. Miró deixou-se anexar até certo ponto: frequentava o grupo, mas não assinava os manifestos. Enquanto os companheiros teorizavam o automatismo psíquico, ele preparava cada tela com desenhos prévios, numerados e arquivados, vestia terno e gravata e mantinha horário de expediente. O pintor dos sonhos tinha rotina de tabelião. A espontaneidade, que os críticos celebrariam como dom, era fabricada todas as manhãs com o mesmo rigor.

Em 1927, Miró anunciou que queria "assassinar a pintura". A frase fez fortuna e costuma ser lida como boutade. Era um programa. A pintura que ele pretendia matar era a pintura-quadro, a mercadoria de cavalete, o ofício satisfeito consigo mesmo. Seguiram-se colagens deliberadamente pobres, objetos montados com cortiça, pena e prego de chapéu. O método era sempre o mesmo: partir do inventário e subtrair até que restasse o signo. Miró não abandonou nunca o mundo visível; foi-o reduzindo, folha a folha, como quem poda uma planta. Durante a Guerra Civil Espanhola, desenhou o cartaz "Aidez l'Espagne" para arrecadar fundos para a República e pintou, para o pavilhão espanhol da Exposição de Paris de 1937, o mural "O Ceifador", um camponês catalão de foice erguida. Desmontado o pavilhão, o mural desapareceu e nunca foi encontrado.

As "Constelações" chegaram a Nova York em 1945, expostas na galeria de Pierre Matisse. Foram das primeiras obras produzidas na Europa em guerra que o público americano pôde ver, e os pintores jovens que se acotovelaram diante delas, Pollock entre eles, encontraram ali, já resolvido, o problema em que trabalhariam pela década seguinte: uma pintura sem centro, sem hierarquia, distribuída por toda a superfície como um campo. O expressionismo abstrato deve às 23 folhas de um refugiado mais do que os seus manifestos admitiram. O grande ateliê, afinal, veio em 1956, quando Miró, aos 63 anos, instalou-se em Palma num edifício desenhado pelo amigo Josep Lluís Sert. Em vez de expandir-se, entrou em crise: passou meses revendo o trabalho antigo, destruiu dezenas de telas e recomeçou por subtração ainda mais radical.

Aos 80 anos, queimou e rasgou telas que expôs assim mesmo, chamuscadas, na retrospectiva do Grand Palais de 1974, declarando-se tanto mais anarquista quanto mais velho. O mercado, que já o negociava a preços de mestre antigo, absorveu as telas queimadas sem engasgar. Miró morreu em Palma no Natal de 1983, aos 90 anos. A trajetória inteira cabe no percurso de uma escada: a de "A Fazenda", ferramenta encostada na árvore; a de "Cão Ladrando à Lua", que sobe de um chão deserto para um céu vazio, sem apoiar-se em nada; a das "Constelações", já inteiramente signo entre signos. Miró fugiu a vida inteira, mas fugiu para cima. A evasão, nele, não é o contrário do engajamento, é o contrário da rendição. Reduzir o mundo a um alfabeto de estrelas, olhos e luas crescentes, legível por qualquer um em qualquer língua, foi a sua maneira de não entregar o mundo a quem o incendiava. A exposição que o museu da Faap inaugura agora em São Paulo oferece a rara oportunidade de verificar esse percurso diante das obras, fora das reproduções que, no caso de Miró, mentem mais do que de costume.

Queria assassinar a pintura — a pintura-quadro, a mercadoria de cavalete, o ofício satisfeito consigo mesmo
— Joan Miró, 1927
O pintor dos sonhos tinha rotina de tabelião
— Crítica sobre o método de trabalho de Miró
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