O cretino fundamental e a ilusão de um mundo novo

Nada há de novo embaixo do sol, mas o cretino fundamental jura que criou um mundo totalmente novo
O colunista questiona a ilusão contemporânea de originalidade, citando o Eclesiastes para demonstrar a recorrência histórica.
Mark

Por que você acha que as pessoas de hoje acreditam tanto que estão vivendo algo completamente novo?

Mimi

Porque temos tecnologia deslumbrante. Aviões, computadores, redes sociais. Isso nos dá uma sensação de ruptura com o passado. Mas a tecnologia muda; a natureza humana, não.

Mark

Então você está dizendo que o conflito de gerações não é novo?

Mimi

Não é. Dostoiévski já descrevia isso em 1875. Turguêniev em 1861. Quando a ciência e a indústria exigiram novas habilidades, os jovens começaram a ver os velhos como obsoletos. É um ciclo.

Mark

E quanto às "novas formas de amor" que as pessoas falam tanto?

Mimi

Os escritores russos já viviam em relacionamentos que hoje chamamos de "trisais". Já trocavam de parceiros. Tudo isso muito antes de alguém achar que o século vinte e um havia inventado algo.

Mark

Qual é o perigo real dessa ilusão de novidade?

Mimi

Que nos impede de aprender com a história. Acreditamos estar navegando em experiências disruptivas quando estamos apenas repetindo, com roupas diferentes, os mesmos conflitos antigos.

Mark

Então o que mudou de verdade?

Mimi

A tecnologia. Tudo o mais — as buscas, os conflitos, as fraquezas — continua o mesmo.

  • A geração atual convive com a certeza íntima de ter inventado conflitos geracionais, novas formas de amor e identidades políticas inéditas — ignorando séculos de precedentes documentados.
  • Dostoiévski já descrevia em 1875, pela voz do personagem Kraft, exatamente o mesmo quadro de mediocridade e preguiça intelectual que hoje se atribui ao ambiente digital.
  • O romance 'Pais e Filhos', de Turguêniev, publicado em 1861, narrava tensões geracionais com a mesma intensidade que as discussões contemporâneas — esvaziando a pretensão de originalidade do presente.
  • A obsessão com identidade sexual e pessoal como eixo central da política é apresentada não como avanço progressista, mas como narcisismo revestido de linguagem nova.
  • O texto aponta que a ilusão de novidade é tão poderosa que impede o reconhecimento dos próprios padrões históricos — condenando cada geração a repetir, com roupas diferentes, os mesmos conflitos de sempre.

Há uma tentação recorrente na história humana: a de acreditar que a própria época representa uma ruptura absoluta com tudo que veio antes. O colunista da Folha de S.Paulo recorre a Dostoiévski — escrevendo em 1875 sobre mediocridade, preguiça intelectual e insensibilidade — para lembrar que os vícios que hoje atribuímos às redes sociais e à política identitária são, na verdade, variações de temas muito antigos. O narcisismo contemporâneo, argumenta o texto, não é uma inovação: é apenas a versão mais recente de uma ilusão que cada geração cultiva sobre si mesma.

Uma citação circula há décadas sem que quase ninguém saiba sua origem: 'Os dias de hoje são a época da mediocridade e da insensibilidade, da paixão pela ignorância, pela preguiça, pela incapacidade de agir e pela necessidade de ter tudo pronto.' Parece uma descrição do mundo das redes sociais. Foi escrita por Dostoiévski em 1875, no romance 'O Adolescente', pela voz do personagem Kraft.

O colunista usa essa coincidência como ponto de partida para diagnosticar o que chama de ilusão de novidade — a crença de que a geração atual não apenas herdou transformações tecnológicas reais, mas também inventou novas formas de amor, novas masculinidades, novos conflitos geracionais e novas identidades políticas. Recorrendo ao conceito de Nelson Rodrigues do 'cretino fundamental', descreve aquele que se vê como o clímax da história, como se sua existência fosse a boa nova que o mundo esperava.

O conflito entre gerações, frequentemente apresentado como fenômeno contemporâneo, já estava no centro de 'Pais e Filhos', de Turguêniev, publicado em 1861. O jovem Bazarov desprezava a geração do pai com a mesma intensidade com que jovens de hoje rejeitam a dos seus. Os grandes escritores russos do século dezenove já viviam arranjos afetivos que o século vinte e um acredita ter inventado.

O que Dostoiévski revela, conclui o texto, é que mediocridade e preguiça intelectual não nasceram com o algoritmo. O erro central do narcisismo contemporâneo é confundir recorrência histórica com disrupção genuína — navegando em experiências que julga inéditas, mas que são, no fundo, variações de temas que o Eclesiastes já anunciava: 'Nada há de novo embaixo do sol.'

Há uma citação que circula há muito tempo, e a maioria das pessoas erraria completamente ao tentar adivinhar quando foi escrita. "Os dias de hoje são a época da mediocridade e da insensibilidade, da paixão pela ignorância, pela preguiça, pela incapacidade de agir e pela necessidade de ter tudo pronto. Ninguém faz uma reflexão; seria raro alguém suportar uma ideia." Essa frase não descreve o mundo das redes sociais ou da inteligência artificial. Ela foi escrita por Dostoiévski em 1875, colocada na boca de um personagem chamado Kraft no romance "O Adolescente".

Nosso tempo carrega uma ilusão particular: a de que somos os inventores de um mundo radicalmente novo. Temos aviões, computadores, redes sociais, medicina científica. Tudo mudou, dirão. Mas não nos contentamos em reconhecer as transformações tecnológicas. Precisamos ir além. Precisamos acreditar que nossa geração criou novas formas de amor, novas masculinidades, uma nova mulher, novas maneiras de viajar em busca de "experiência", novas crianças, um novo trabalho. O que Nelson Rodrigues chamava de "o cretino fundamental" — aquele que, desde que nasceu, trouxe uma boa nova para o mundo, a saber, ele mesmo, suas opiniões, seu pensamento — vê a si mesmo como o clímax da história, o sonho que o espírito absoluto sempre carregou consigo ao longo dos milênios.

Uma das grandes novidades que esse cretino fundamental trouxe foi a ideia de que existe um "conflito de gerações" e de que, antes de seus filhos e filhas de quinze anos, o mundo nunca havia visto tensões entre as gerações. A expressão tem cara de século vinte, é verdade. Mas o fenômeno é muito mais antigo. No século dezenove e no início do vinte, alguns fatos se acumularam: o surgimento da ciência e da revolução industrial exigiram uma formação técnica especializada das próximas gerações. A Primeira Guerra Mundial criou uma crise de consciência moral em muitos professores, que se perguntavam quais valores poderiam ensinar aos mais jovens. O romance "Pais e Filhos" de Turguêniev, publicado em 1861, narra exatamente esse conflito. O jovem médico Bazarov considera a geração do seu pai — um médico de província, pré-científico — inútil, ignorante e atrasada. Nada de novo aqui.

O século vinte e um, até agora, inventou principalmente a mentira como método. Muita purpurina que cobre até os cemitérios. E gente que acredita que sua vida sexual, a saia ou calça que veste, devem ser o centro da política. Como herdeiros dos hippies, acham que suas personalidades e corpos são políticos. Existe gente mais chata do que essa? Mas aqui está o ponto: os grandes escritores russos já viviam em "trisais" reconhecidos como tal, já trocavam de marido e de mulher, muito antes de o século vinte e um achar que havia inventado as "novas formas de amor". Se procurarmos com atenção, encontraremos essas tais novas formas de amor muito antes do século dezenove. "Nada há de novo embaixo do sol", diz o Eclesiastes. Um dos pecados dos contemporâneos é acreditar piamente que criaram um mundo totalmente novo.

O que a citação de Dostoiévski revela é que a mediocridade, a paixão pela ignorância, a preguiça, a insensibilidade e a necessidade de ter tudo pronto não são invenções das redes sociais. Elas se arrastam pelo mundo há muito tempo. Muitos poderiam jurar que Kraft estava descrevendo o mundo digital quando, na verdade, estava descrevendo a condição humana de sua própria época. O grande erro do cretino fundamental é confundir processos históricos recorrentes com disrupção genuína. Ele navega em experiências que acredita serem disruptivas, mas que são, na verdade, variações de temas muito antigos. A ilusão de novidade é tão poderosa que nos impede de ver que estamos repetindo, com roupas diferentes, os mesmos conflitos, as mesmas buscas, as mesmas fraquezas que nossos antepassados enfrentaram há séculos.

Os dias de hoje são a época da mediocridade e da insensibilidade, da paixão pela ignorância, pela preguiça, pela incapacidade de agir e pela necessidade de ter tudo pronto
— Kraft, personagem de Dostoiévski em "O Adolescente" (1875)
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