A dor crónica, longe de ser apenas uma experiência do corpo, é também moldada pelo tecido invisível das relações humanas, das condições materiais de vida e dos preconceitos que habitam os sistemas de saúde. A investigadora Sónia Bernardes recorda-nos que o sofrimento não existe no vácuo: quem nos rodeia, o que possuímos e como somos vistos pelos outros interferem profundamente no modo como sentimos e suportamos a dor. Neste sentido, tratar a dor crónica é também, inevitavelmente, um ato social e político.
O contexto social molda como sentimos a dor, diz investigadora
A dor não se resume ao corpo e mente. A psicóloga e investigadora Sónia Bernard…
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“O contexto social molda a forma como sentimos a dor".
Give me the shape of it.
A dor não se resume ao corpo e mente. A psicóloga e investigadora Sónia Bernardes lembra que as relações, as condições de vida e os preconceitos interferem na experiência.
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- Milhões de pessoas com dor crónica enfrentam um paradoxo cruel: a sua dor é real, mas o mundo ao redor — família, empregadores, profissionais de saúde — frequentemente não a reconhece como tal.
- O isolamento social, o desemprego e a depressão surgem como consequências em cascata quando o contexto socioeconómico é desfavorável e o apoio escasseia.
- Profissionais de saúde carregam enviesamentos de género e estereótipos que distorcem a avaliação da dor, embora esses preconceitos não sejam uniformes nem inevitáveis.
- A resposta que se procura é multidisciplinar — medicina, psicologia e fisioterapia em articulação — com o objetivo de preservar a autonomia e a funcionalidade do doente.
- A investigação de Sónia Bernardes aponta para um caminho em que o tratamento da dor exige olhar para além do corpo e interrogar as condições em que cada pessoa vive.
A dor crónica, longe de ser apenas uma experiência do corpo, é também moldada pelo tecido invisível das relações humanas, das condições materiais de vida e dos preconceitos que habitam os sistemas de saúde. A investigadora Sónia Bernardes recorda-nos que o sofrimento não existe no vácuo: quem nos rodeia, o que possuímos e como somos vistos pelos outros interferem profundamente no modo como sentimos e suportamos a dor. Neste sentido, tratar a dor crónica é também, inevitavelmente, um ato social e político.
A psicóloga e investigadora Sónia Bernardes parte de uma premissa que desafia a visão mais comum sobre a dor: o sofrimento crónico não é apenas um fenómeno biológico. As relações que mantemos, a segurança financeira de que dispomos, o apoio familiar que recebemos — ou não recebemos — e as condições gerais em que vivemos moldam de forma significativa a intensidade e a qualidade da experiência dolorosa.
Esta perspetiva tem consequências práticas e humanas profundas. Quando o contexto é adverso — isolamento, precariedade, falta de reconhecimento —, a dor tende a agravar-se e a instalar-se de forma mais duradoura. As pessoas perdem funcionalidade, afastam-se do trabalho, caem em depressão. O corpo sofre, mas o sofrimento alimenta-se também do que está fora dele.
Bernardes chama ainda a atenção para os enviesamentos que existem dentro dos próprios sistemas de saúde. Profissionais podem avaliar a dor de forma diferente consoante o género ou os estereótipos associados ao doente — embora, sublinha a investigadora, esses preconceitos dependam de circunstâncias específicas e não sejam uma regra universal.
A resposta eficaz, defende, passa por uma abordagem verdadeiramente multidisciplinar, que articule medicina, psicologia e fisioterapia, e que coloque no centro a autonomia funcional de quem vive com dor. Tratar a dor crónica é, assim, também uma forma de reparar o contexto em que ela cresce.
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Este artigo faz parte da série “O que eu aprendi com a dor dos outros”, um conjunto de reportagens escritas por um jornalista a partir de entrevistas com profissionais de saúde que acompanham doentes com dor crónica. As conversas sobre dor…
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