Em São Paulo, o prefeito Ricardo Nunes escolheu o caminho mais estreito: ao vetar a possibilidade de renovar metade da frota de ônibus com veículos a diesel, ele manteve intacta a promessa de uma cidade sem emissões fósseis no transporte público até 2038. A decisão rejeita um alívio de curto prazo aprovado pela Câmara e impõe à cidade o peso de uma transição que ainda não tem infraestrutura suficiente para sustentá-la. É o tipo de escolha que define gerações — não pelo que resolve hoje, mas pelo que recusa aceitar como destino.
Nunes veta diesel na renovação de frotas de ônibus de SP até 2038
A cidade tem apenas 290 ônibus elétricos e precisa substituir 3.400 até o fim de 2025
Por que o prefeito vetou justamente essa possibilidade de usar diesel? Parecia uma solução prática para um problema real.
Porque mantém a cidade comprometida com uma meta de zero emissões fósseis em 2038. Se permitisse diesel agora, ônibus novos com essa tecnologia estariam rodando até 2032 ou 2033, atrapalhando a meta final.
Mas a cidade tem apenas 290 ônibus elétricos e precisa substituir 3.400 até o fim de 2025. Isso é fisicamente possível?
Não está claro. A lei exige que cada lote de substituição use tecnologias menos poluentes, mas não especifica se tem que ser 100% elétrico ou se pode ser gás natural.
E o gás natural? Não é uma alternativa?
Tecnicamente sim, mas o especialista citado diz que gás natural emite 23% mais que diesel. Então seria um passo para trás, não para frente.
Calabria mesmo reconhece que na prática as empresas provavelmente não vão usar gás porque não faz sentido econômico ter duas infraestruturas diferentes.
Então qual é a solução real aqui?
Ainda não há. A lei diz que as viações têm 90 dias para apresentar projetos à Enel, e a Enel tem 90 dias para responder. Tudo depende dessa negociação sobre infraestrutura de energia.
E de quanto dinheiro o município conseguir investir ou exigir das operadoras. Ônibus elétrico custa três milhões cada um.
Então o veto resolve o problema ou só o adia?
Resolve simbolicamente. Mantém a meta de 2038. Mas operacionalmente, a cidade ainda não tem resposta.
Il Polso
- A cidade tem 3.400 ônibus que precisam ser substituídos até o fim de 2025, mas conta com apenas 290 elétricos e uma rede de energia ainda despreparada para absorver uma frota inteira.
- O veto eliminou a única válvula de escape aprovada pelos vereadores: a possibilidade de renovar metade da frota com diesel durante o período de transição.
- Cada ônibus elétrico custa cerca de três milhões de reais, e operadoras e poder público não têm capacidade de fazer esse investimento de uma só vez.
- A lei abre brecha para o gás natural como alternativa, mas especialistas alertam que ele emite 23% mais que o diesel — e que, na prática, a inviabilidade econômica deve impedir sua adoção em massa.
- Empresas de transporte têm 90 dias para apresentar projetos de recarga à Enel, cujas respostas definirão o ritmo real da transição nos próximos meses.
Em São Paulo, o prefeito Ricardo Nunes escolheu o caminho mais estreito: ao vetar a possibilidade de renovar metade da frota de ônibus com veículos a diesel, ele manteve intacta a promessa de uma cidade sem emissões fósseis no transporte público até 2038. A decisão rejeita um alívio de curto prazo aprovado pela Câmara e impõe à cidade o peso de uma transição que ainda não tem infraestrutura suficiente para sustentá-la. É o tipo de escolha que define gerações — não pelo que resolve hoje, mas pelo que recusa aceitar como destino.
Na última quinta-feira, o prefeito Ricardo Nunes assinou uma lei que fecha a porta para uma saída mais cômoda na renovação da frota de ônibus paulistana. Ele vetou a possibilidade, aprovada pela Câmara em dezembro, de que as operadoras pudessem substituir veículos antigos com até metade deles movidos a diesel. A decisão mantém São Paulo comprometida com a meta de zero emissões de CO2 fóssil no transporte público até 2038 — trinta anos após a legislação original assinada por Bruno Covas.
O problema concreto, no entanto, não desaparece com o veto. Cerca de 3.400 ônibus precisam ser substituídos até o fim de 2025 por terem ultrapassado o limite de dez anos de uso. A frota elétrica atual é de apenas 290 veículos, e a infraestrutura de energia da cidade ainda não está preparada para uma transição em larga escala. Cada ônibus elétrico custa aproximadamente três milhões de reais — um valor que pressiona tanto o município quanto as empresas privadas de transporte.
A lei sancionada também permite o uso de gás natural como alternativa aos elétricos, o que preocupa especialistas. Rafael Calabria, especialista em mobilidade urbana, aponta que o gás natural emite 23% mais que o diesel e tem menor eficiência de motor. Ainda assim, ele acredita que a alternativa não se tornará dominante, pois manter duas matrizes energéticas diferentes é economicamente inviável para as operadoras.
O próximo capítulo depende das respostas da Enel aos projetos de recarga que as empresas de transporte devem apresentar nos próximos noventa dias. Nunes escolheu a ambição sobre a conveniência — mas a cidade ainda precisa provar que tem condições de honrar essa escolha.
Ricardo Nunes assinou nesta quinta-feira uma lei que rejeita uma saída mais fácil para a renovação da frota de ônibus de São Paulo. O prefeito vetou a possibilidade de que as empresas de transporte pudessem substituir seus veículos antigos com metade deles movidos a diesel — uma alternativa que havia sido aprovada pela Câmara Municipal em dezembro e que teria aliviado a pressão sobre operadoras e poder público nos próximos anos.
O projeto original era do ex-vereador Milton Leite, que argumentava durante a votação que a cidade enfrenta um problema concreto: cerca de 3.500 ônibus já ultrapassaram o prazo de validade estabelecido em lei, com mais de dez anos de uso. Os fabricantes têm dificuldade para fazer entregas, e a infraestrutura de energia elétrica na cidade não está preparada para absorver uma frota inteira de veículos elétricos. Leite também apontou que cada ônibus elétrico custa aproximadamente três milhões de reais — um investimento que o município e as operadoras não conseguem fazer de uma vez. Sem a flexibilidade que o veto eliminou, a pressão sobre o sistema só aumenta.
A lei sancionada, que altera legislações de 2009 e 2018, estabelece 2038 como o ano em que São Paulo deve alcançar redução total de emissões de dióxido de carbono de origem fóssil em sua frota de ônibus. Esse prazo marca trinta anos a partir da aprovação da legislação original, assinada pelo ex-prefeito Bruno Covas em 2008. O texto também mantém a meta de reduzir em 95% as emissões de material particulado — as partículas geradas pela queima de combustíveis fósseis — até a mesma data. Qualquer veículo novo que entrar na frota deve ter propulsores ou combustíveis menos poluentes que os que está substituindo, garantindo uma transição gradual mas obrigatória.
O cenário atual revela a dimensão do desafio. A cidade possui apenas 290 ônibus elétricos a bateria em uma frota que precisa ser renovada. A SPTrans, estatal responsável pela administração do transporte público municipal, informou que cerca de 3.400 veículos devem ser substituídos até o final de 2025 porque atingiram a idade máxima permitida. A medida que proibia a compra de veículos movidos a combustão para renovação da frota está em vigor desde outubro de 2022, quando a SPTrans a determinou unilateralmente.
A lei também abre um caminho que preocupa especialistas: permite o uso de gás natural como alternativa. As empresas terão noventa dias para apresentar à Enel, concessionária de energia elétrica, seus projetos de recarga de baterias, e a empresa terá o mesmo prazo para responder. O mesmo procedimento vale para o abastecimento com gás. Rafael Calabria, especialista em mobilidade urbana, critica essa possibilidade porque o gás natural gera 23% mais emissões que o diesel, além de ter menor eficiência de motor. Ainda assim, Calabria acredita que na prática essa alternativa não será adotada em larga escala, porque não é economicamente viável para as operadoras manter duas matrizes energéticas diferentes.
O veto de Nunes mantém a cidade em um caminho mais ambicioso, mas também mais custoso e complexo. Sem a flexibilidade de incorporar diesel na renovação, as operadoras enfrentarão pressão para acelerar a transição para tecnologias limpas enquanto a infraestrutura de energia ainda está sendo construída. O próximo passo dependerá de como a Enel responderá aos projetos das viações e de quanto o município conseguirá investir ou exigir das empresas nos próximos treze anos.
Citazioni salienti
Não temos nenhuma forma de fornecimento de energia limpa capaz de fazer frente a tal frota nem temos recurso para comprar veículos à vista— Milton Leite, ex-vereador, durante defesa do projeto original
É um caminho ruim, mas não chega a ser tão grave porque na prática não vai ser adotado. Não é produtivo para as empresas terem duas matrizes elétricas— Rafael Calabria, especialista em mobilidade urbana, sobre possibilidade de gás natural