Por décadas, confirmar a endometriose exigiu bisturi — e mesmo assim, muitas mulheres esperaram quase uma década para chegar a essa mesa cirúrgica. Agora, startups prometem substituir esse caminho por uma simples coleta de saliva, sangue ou sinais intestinais, invocando algoritmos e biomarcadores como novos oráculos da dor feminina. A ciência avança com genuína esperança, mas os especialistas lembram que promessa e prova são coisas distintas — e que mulheres já pagaram caro demais pelo intervalo entre as duas.
Novos testes prometem diagnóstico de endometriose sem cirurgia, mas especialistas alertam para limitações
Poderíamos fazer muito melhor se simplesmente ouvíssemos nossas pacientes
Por que leva tanto tempo para diagnosticar endometriose? É realmente tão difícil identificar?
Porque a doença não aparece em exames de imagem de forma confiável. Muitas mulheres ouvem que sua dor é normal ou psicológica. A única forma segura de confirmar é cirurgia — um cirurgião procura lesões e faz biópsias. Por isso um teste não invasivo seria tão importante.
Mas esses novos testes realmente funcionam? Os números parecem bons — mais de 90% de precisão.
Aqui está o problema: os estudos que mostram esses números tinham limitações. O Endotest foi testado em 971 pacientes, mas a maioria tinha endometriose. Quando quase todos no estudo têm a doença, é fácil parecer preciso.
Então os testes podem estar superestimando sua própria eficácia?
Exatamente. Um estudo independente do Endotest encontrou resultados menos impressionantes. E o EndomTest identificou apenas 46% das pessoas com endometriose — muitos falsos negativos.
Além disso, as proteínas que alguns testes medem aumentam em muitas doenças, não apenas endometriose. Então há questões reais sobre especificidade.
Quando teremos um teste realmente confiável?
Ninguém sabe. A FDA não aprovou nenhum ainda. Uma empresa espera solicitar aprovação em 2027, mas isso depende de resultados de ensaios maiores que ainda estão em andamento.
E há outra complicação: adolescentes com endometriose inicial podem ter marcadores diferentes dos adultos. Pode ser que precisemos de testes diferentes para diferentes grupos.
Então, enquanto isso, o que as mulheres devem fazer?
Os especialistas dizem que os médicos podem diagnosticar com base em sintomas e exame físico. Ouvir as pacientes é o primeiro passo.
O Pulso
- Milhões de mulheres aguardam anos em dor enquanto a endometriose permanece invisível aos exames convencionais, exigindo cirurgia para ser confirmada.
- Três startups lançaram testes comerciais — analisando saliva, sangue e sinais elétricos intestinais — sem aprovação regulatória da FDA, aproveitando brechas legais.
- Os estudos iniciais mostram precisão acima de 90%, mas foram conduzidos em populações pequenas e com alta prevalência da doença, o que pode inflar artificialmente os resultados.
- Pesquisadores independentes já encontraram desempenho inferior ao prometido, e um dos testes identificou menos da metade das pacientes com a doença.
- Estudos maiores e mais representativos estão em andamento, com possível pedido de aprovação à FDA em 2027 — mas especialistas alertam que, por ora, a promessa ainda não virou prova.
Por décadas, confirmar a endometriose exigiu bisturi — e mesmo assim, muitas mulheres esperaram quase uma década para chegar a essa mesa cirúrgica. Agora, startups prometem substituir esse caminho por uma simples coleta de saliva, sangue ou sinais intestinais, invocando algoritmos e biomarcadores como novos oráculos da dor feminina. A ciência avança com genuína esperança, mas os especialistas lembram que promessa e prova são coisas distintas — e que mulheres já pagaram caro demais pelo intervalo entre as duas.
Obter um diagnóstico de endometriose é, em média, uma jornada de sete a nove anos — tempo em que muitas mulheres ouvem que sua dor é apenas cólica normal ou que está na cabeça delas. A doença, em que tecido semelhante ao revestimento uterino cresce fora do útero, afeta pelo menos uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva. Como exames de imagem não a detectam de forma confiável, a confirmação ainda depende de cirurgia. Um teste não invasivo e preciso seria uma transformação real para essas pacientes.
Várias startups afirmam ter encontrado esse caminho. O Endotest analisa microRNAs na saliva; o EndoSure mede atividade elétrica gastrointestinal; o EndomTest busca duas proteínas no sangue. Uma quarta empresa, a Xella Health, usa inteligência artificial para cruzar biomarcadores, sintomas e histórico médico — mas sua precisão nunca foi avaliada publicamente. Nenhum desses testes tem aprovação da FDA, e alguns são comercializados sob brechas regulatórias que a agência tentou, sem sucesso, fechar.
Os estudos iniciais impressionam: Endotest e EndoSure identificaram corretamente mais de 90% dos casos. Mas há um problema metodológico relevante. Quando a maioria das pessoas estudadas já tem a doença, o teste tem poucas oportunidades de errar — e parece melhor do que realmente é. Um estudo independente do Endotest encontrou resultados menos expressivos. O EndomTest, por sua vez, identificou apenas 46% das pacientes com endometriose, além de se basear em uma proteína que sobe em muitas outras condições.
Os fabricantes respondem que estudos maiores estão em andamento. A Ziwig, do Endotest, afirma ter pesquisas com até 25 mil mulheres em curso. A DotLab, com seu teste DotEndo baseado em microRNA, pode solicitar aprovação à FDA já em 2027. Especialistas consideram a tecnologia de microRNA promissora, mas alertam que adolescentes com endometriose inicial podem apresentar marcadores diferentes dos de adultas, o que exigiria testes distintos por faixa etária.
Enquanto a validação não chega, pesquisadores lembram que médicos já poderiam fazer muito mais simplesmente ouvindo suas pacientes — tratando com base em sintomas e exame físico, sem esperar por um exame definitivo. Os novos testes talvez sejam mais úteis para casos ambíguos: mulheres com infertilidade sem causa aparente ou adolescentes com sintomas leves. Por ora, porém, a promessa permanece exatamente isso: promessa.
Obter um diagnóstico de endometriose é uma jornada que, em média, leva entre sete e nove anos — anos em que muitas mulheres ouvem que sua dor é apenas uma cólica menstrual normal ou, pior ainda, que está tudo na cabeça delas. Estima-se que a doença, na qual um tecido semelhante ao revestimento do útero cresce fora dele, afete pelo menos uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva. Para confirmar o diagnóstico, muitas precisam passar por cirurgia, porque os exames de imagem não detectam a doença de forma confiável. Um teste não invasivo e preciso seria, para essas mulheres, uma transformação.
Agora, várias startups afirmam ter encontrado essa solução. Elas oferecem diagnóstico de endometriose analisando moléculas de RNA na saliva, proteínas no sangue ou sinais elétricos no trato gastrointestinal. A premissa é atraente: em vez de cirurgia, uma coleta simples. Mas os especialistas que estudam a doença veem razões para cautela. A Food and Drug Administration, agência reguladora dos Estados Unidos, não aprovou nenhum desses testes não invasivos. Várias empresas os oferecem como "apenas para fins de pesquisa" ou aproveitam uma brecha regulatória que a FDA tentou, sem sucesso, fechar.
Três testes principais estão sendo comercializados. O Endotest analisa a saliva em busca de um padrão de microRNAs, moléculas envolvidas na regulação dos genes. O EndoSure mede a atividade elétrica gastrointestinal. O EndomTest procura duas proteínas no sangue. Um quarto, da Xella Health, usa um algoritmo de inteligência artificial para analisar biomarcadores sanguíneos, sintomas e histórico médico — mas sua precisão nunca foi avaliada publicamente. A Xella também está desenvolvendo um teste com fluido menstrual baseado, até agora, em apenas 28 amostras, um número que especialistas consideram insuficiente para tirar conclusões confiáveis.
Os estudos iniciais do Endotest e do EndoSure encontraram resultados impressionantes: ambos identificaram corretamente mais de 90% das pessoas com e sem endometriose. Mas aqui está o problema. O principal estudo do Endotest envolveu 971 pacientes; o do EndoSure, 154. Na maioria dos casos, essas pessoas tinham endometriose. Quando a população estudada tem alta prevalência da doença, os testes podem parecer enganosamente bons, porque há poucas oportunidades de diagnosticar equivocadamente pessoas que têm outras condições. Um estudo mais recente do Endotest realizado por pesquisadores independentes encontrou resultados menos expressivos, mas era pequeno e foi conduzido com uma população pouco representativa. Dois estudos pequenos realizados na Bélgica e no Brasil também analisaram o EndoSure, mas ainda não passaram por revisão por pares e incluíram tão poucas pessoas sem endometriose que os pesquisadores não conseguiram estimar de forma confiável a eficácia do teste.
Quanto ao EndomTest, um pequeno estudo mostrou quase nenhum falso positivo, mas muitos falsos negativos: identificou apenas 46,2% das pessoas com endometriose. Além disso, o teste se baseia, em parte, em uma proteína cujos níveis aumentam em muitas doenças. Especialistas se mostraram céticos de que analisar duas proteínas juntas tornaria o teste significativamente mais preciso. As evidências sobre a tecnologia do EndoSure, que analisa sinais elétricos intestinais, são ainda mais preliminares. Diversas doenças, medicamentos e outros fatores podem afetar a motilidade intestinal; são necessárias mais pesquisas para confirmar se os sinais medidos pelo EndoSure são específicos da endometriose.
Os fabricantes estão trabalhando em estudos maiores. A Ziwig, fabricante do Endotest, afirmou que estudos prospectivos em condições reais envolvendo até 25 mil mulheres estavam em andamento. O presidente-executivo do EndoSure disse que a empresa também estava realizando estudos com populações mais amplas. Um grande ensaio clínico está avaliando um exame de sangue de microRNA chamado DotEndo. Se os resultados forem bons, a DotLab, fabricante do teste, poderá solicitar a aprovação da FDA já em 2027.
Muitos especialistas consideram promissora a tecnologia de microRNA por trás do Endotest, embora ainda não esteja aperfeiçoada. Mas há uma questão mais profunda: pesquisas recentes mostram que adolescentes com endometriose em estágio inicial podem apresentar marcadores de microRNA diferentes dos observados em adultas. Isso pode significar que sejam necessários testes diferentes para diferentes grupos etários. Enquanto isso, especialistas enfatizaram que os médicos podem ter segurança de que muitas pacientes têm endometriose com base nos sintomas e no exame físico e tratá-las de acordo com essa avaliação. "Poderíamos fazer muito, muito melhor desde já se simplesmente ouvíssemos nossas pacientes", disse um professor de Yale que estuda o microRNA como marcador de endometriose. Os novos testes talvez sejam mais úteis para pacientes cujos sintomas são ambíguos — aquelas com infertilidade sem causa aparente, mas sem dor, ou adolescentes com sintomas leves que possam ser sinais iniciais de endometriose. É possível que um teste atualmente disponível no mercado, ou uma versão modificada dele, seja validado dentro de alguns anos. Mas, por enquanto, a promessa permanece exatamente isso: promessa.
Citações Notáveis
A premissa é boa, porque atualmente o padrão de atendimento é invasivo— Ja Hyun Shin, especialista em cirurgia ginecológica da Weill Cornell Medicine
É difícil saber se algum dos que estamos vendo agora será o melhor teste— Hugh Taylor, professor de Yale que estuda microRNA como marcador de endometriose