Netanyahu tem Gaza e os EUA na mão

Seis reféns israelitas foram mortos em Gaza; a população palestiniana sofre castigo em níveis atrozes, com mortes civis acumuladas, expulsões da Cisjordânia e ataques a hospitais e escolas.
Netanyahu tem feito nada mais do que ganhar tempo, fingindo negociar
O padrão de comportamento do primeiro-ministro israelita revela uma estratégia de prolongamento do conflito, não de resolução.
Mark

Netanyahu diz que o Hamas não quer acordo porque mata reféns. Isso não é uma acusação legítima?

Mimi

É legítima como acusação, mas é hipócrita como justificação. Netanyahu eliminou o próprio negociador do Hamas com quem estava a negociar. Não se mata um acordo matando um negociador.

Mark

Mas talvez Haniyeh fosse realmente um obstáculo?

Mimi

Talvez. Mas foi substituído por Sinwar, o líder da guerra. Se Netanyahu quisesse um acordo, teria mantido Haniyeh vivo. A escolha de quem matar diz tudo sobre as intenções.

Mark

Os protestos em Israel não o podem derrubar?

Mimi

Podem, mas só se se repetirem com a mesma força que tiveram contra a reforma judicial. Agora a guerra funciona como escudo. Se a população não se levantar novamente, Netanyahu fica intocável.

Mark

E os Estados Unidos? Não têm poder para forçar um cessar-fogo?

Mimi

Têm, mas não o usam. Continuam a enviar ajuda militar enquanto pedem um acordo. É contraditório. Um acordo sem ameaça de corte de ajuda não é uma proposta, é um convite à destruição.

Mark

Biden parece frustrado com Netanyahu.

Mimi

A frustração de Biden é fraqueza. Um presidente poderoso não desabafa em privado, actua em público. Os EUA criaram o conceito de intervenção humanitária, mas perderam toda a credibilidade ao financiar a guerra que fingem querer parar.

Mark

Então Netanyahu ganha tempo indefinidamente?

Mimi

Até que algo mude. Ou a pressão interna explode novamente, ou os EUA cortam a ajuda militar. Sem isso, Netanyahu continua a ganhar tempo enquanto Gaza é destruída.

  • A morte de seis reféns israelitas nos túneis de Gaza expôs a brutalidade de um conflito onde nenhum dos lados parece disposto a recuar, e Netanyahu usou o momento para reforçar a narrativa de que o Hamas inviabiliza qualquer acordo.
  • Israel assassinou Ismail Haniyeh, o negociador do Hamas mais aberto ao diálogo, durante conversações de trégua em Teerão — uma decisão que colocou Yahya Sinwar, o líder da guerra, no centro das negociações e sinalizou que o acordo nunca foi o verdadeiro objectivo.
  • A coligação de extrema-direita que governa Israel mantém-se coesa apesar das acusações de crimes de guerra, enquanto as manifestações de domingo e a greve geral de segunda-feira revelam uma resistência interna que ainda não atingiu a massa crítica necessária para mudar o curso político.
  • Os Estados Unidos preparam um acordo final para as próximas semanas, mas continuam a enviar ajuda militar a Israel, esvaziando a credibilidade da sua pressão diplomática e deixando Netanyahu sem incentivo real para negociar.
  • A Europa permanece apática e silenciosa, perdendo a cada dia que passa a autoridade moral para invocar os valores que diz defender, enquanto Gaza acumula mortos civis, expulsões na Cisjordânia e ataques a hospitais, escolas e organizações humanitárias.

Enquanto seis reféns israelitas eram encontrados mortos nos túneis de Gaza, Benjamin Netanyahu invocou o Hamas como único obstáculo à paz — mas a sequência dos seus actos conta uma história mais sombria: a eliminação deliberada do negociador político do Hamas, Ismail Haniyeh, e a sua substituição pelo arquitecto da guerra, Yahya Sinwar, sugere que o cessar-fogo nunca foi um destino desejado. No cruzamento entre a sobrevivência política de um líder acusado de crimes de guerra e a resistência sacrificial de um movimento disposto a imolar o seu próprio povo, Gaza continua a arder — enquanto o mundo observa e os Estados Unidos oscilam entre a retórica da paz e o envio de armas.

Benjamin Netanyahu afirma que quem mata reféns não quer negociar. Mas a lógica dos seus próprios actos levanta uma questão incómoda: alguma vez ele quis de verdade um cessar-fogo?

Israel eliminou Ismail Haniyeh, o líder político do Hamas considerado mais receptivo ao diálogo, durante negociações de trégua em Teerão. No seu lugar ficou Yahya Sinwar, o arquitecto da guerra. Não foi uma coincidência — foi uma escolha que matou o acordo antes de ele existir. O cessar-fogo não serve ao governo de extrema-direita de Netanyahu, que precisa da guerra como escudo político, nem serve ao Hamas, que recusa qualquer rendição em nome da resistência. Ambos têm razões para prolongar o conflito.

O que surpreende é a resiliência de Netanyahu perante a pressão. Ele recuou na reforma da justiça quando as ruas se levantaram, mas agora, com a guerra como cobertura, parece intocável. A manifestação gigantesca de domingo e a greve geral de segunda-feira mostram que a oposição existe — a questão é se terá força para se sustentar. Se não se repetir com a mesma intensidade, isso dirá algo sobre o que a maioria israelita está disposta a aceitar: mortes civis acumuladas, expulsões na Cisjordânia, ataques a hospitais e escolas, castigo de uma população inteira.

A pressão externa recai quase exclusivamente nos Estados Unidos, porque a Europa se mantém apática e sem voz. Os EUA oscilam entre exigir o fim da guerra e anunciar novos pacotes de ajuda militar a Israel — uma contradição que destrói a sua credibilidade. Biden deixou escapar que Netanyahu podia fazer muito mais para garantir um acordo, mas um desabafo não é política. Washington prepara um acordo final para as próximas semanas, mas sem ameaça real de corte de ajuda militar, Netanyahu não tem razão para aceitar. Tem feito exactamente o que sempre fez: ganhar tempo, fingindo negociar. Agora, já nem sequer precisa de fingir.

Benjamin Netanyahu afirma que quem mata reféns não quer chegar a um acordo. A pergunta que fica no ar é simples: Netanyahu alguma vez quis de verdade negociar?

O primeiro-ministro israelita acusa o Hamas de assassinar seis reféns encontrados nos túneis de Gaza no domingo, usando esse facto para justificar a impossibilidade de um cessar-fogo. Mas a lógica dos seus actos conta uma história diferente. Israel eliminou Ismail Haniyeh, o negociador político do Hamas — um dos seus líderes considerados mais abertos ao diálogo — durante negociações de trégua em Teerão. Quem o substituiu foi Yahya Sinwar, o homem que dirige a guerra. Esta não é uma coincidência. É uma escolha deliberada de matar um acordo e de aprofundar o conflito.

O cessar-fogo não serve aos interesses do governo extremista de Israel, nem serve aos do Hamas. Netanyahu está disposto a sacrificar os reféns que for necessário para eliminar Sinwar e consolidar o poder. Sinwar, por sua vez, continuará a sacrificar a população palestiniana até à destruição completa do movimento, recusando qualquer rendição em nome da honra e do martírio. Ambos os lados têm razões para prolongar a guerra. O primeiro quer sobreviver politicamente e atrair os Estados Unidos para um confronto directo com o Irão. O segundo quer manter viva a resistência, custe o que custar.

O que surpreende é como Netanyahu e a coligação de extrema-direita que governa Israel — composta por ministros que defendem abertamente o extermínio de um povo inteiro — conseguem manter-se de pé perante toda a pressão, tanto interna como externa. Um primeiro-ministro acusado de crimes de guerra deveria estar em guerra com o seu próprio governo. Mas não está. Netanyahu recuou na sua reforma da justiça quando as ruas se levantaram contra ele, mas agora, com a guerra como escudo, parece intocável. A manifestação gigantesca de domingo e a greve geral de segunda-feira mostram que a resistência existe. A questão é se ela terá força para se repetir com a mesma intensidade que teve durante a luta contra a reforma judicial.

Se os protestos não se repetirem com essa magnitude, só pode significar uma coisa: ou a maioria israelita está exausta e desinteressada, ou subscreve a política de Israel desde 7 de Outubro — acumulação de civis mortos, castigo da população palestiniana em níveis atroces, expulsão de habitantes da Cisjordânia, expansão de colonatos, ataques a hospitais, escolas, campos de refugiados e organizações humanitárias da ONU. A desistência é uma opção política.

A pressão interna depende de um movimento popular que ainda não se materializou com força suficiente. A pressão externa recai integralmente nos Estados Unidos, porque a Europa se mantém apática e cobarde. Cada dia que passa, cada morte em Gaza, a Europa perde autoridade para falar de valores e ética. Os EUA oscilam entre afirmar que é necessário acabar com a guerra e defender a solução dos dois Estados, e depois anunciar milhões de dólares em ajuda militar. Fazem-no com demasiada regularidade e despreocupação, minando a credibilidade de uma potência que inventou o conceito de direito de intervenção humanitário.

Joe Biden reuniu o seu conselho de segurança na Casa Branca e deixou escapar um desabafo: Netanyahu podia fazer muito mais para garantir um acordo. Esse desabafo é fraqueza. Os EUA pretendem apresentar um acordo final nas próximas semanas, e se não funcionar, Washington abandonará as negociações. Mas um acordo "pegar ou largar", sem estar associado ao fim da ajuda militar americana, não é uma proposta séria. É um convite à destruição completa de Gaza e da Cisjordânia e ao extermínio e expulsão da população. Netanyahu tem feito nada mais do que ganhar tempo, fingindo negociar enquanto Biden era poderoso. Agora, já nem sequer é preciso fingir.

Netanyahu podia fazer muito mais para garantir esse acordo
— Joe Biden, durante reunião do conselho de segurança na Casa Branca
Netanyahu tem feito nada mais do que ganhar tempo, fingindo negociar enquanto Biden era poderoso
— Giles Kepel, cientista político francês, ao PÚBLICO
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