Enquanto seis reféns israelitas eram encontrados mortos nos túneis de Gaza, Benjamin Netanyahu invocou o Hamas como único obstáculo à paz — mas a sequência dos seus actos conta uma história mais sombria: a eliminação deliberada do negociador político do Hamas, Ismail Haniyeh, e a sua substituição pelo arquitecto da guerra, Yahya Sinwar, sugere que o cessar-fogo nunca foi um destino desejado. No cruzamento entre a sobrevivência política de um líder acusado de crimes de guerra e a resistência sacrificial de um movimento disposto a imolar o seu próprio povo, Gaza continua a arder — enquanto o mun
Netanyahu tem Gaza e os EUA na mão
Netanyahu tem feito nada mais do que ganhar tempo, fingindo negociar
Netanyahu diz que o Hamas não quer acordo porque mata reféns. Isso não é uma acusação legítima?
É legítima como acusação, mas é hipócrita como justificação. Netanyahu eliminou o próprio negociador do Hamas com quem estava a negociar. Não se mata um acordo matando um negociador.
Mas talvez Haniyeh fosse realmente um obstáculo?
Talvez. Mas foi substituído por Sinwar, o líder da guerra. Se Netanyahu quisesse um acordo, teria mantido Haniyeh vivo. A escolha de quem matar diz tudo sobre as intenções.
Os protestos em Israel não o podem derrubar?
Podem, mas só se se repetirem com a mesma força que tiveram contra a reforma judicial. Agora a guerra funciona como escudo. Se a população não se levantar novamente, Netanyahu fica intocável.
E os Estados Unidos? Não têm poder para forçar um cessar-fogo?
Têm, mas não o usam. Continuam a enviar ajuda militar enquanto pedem um acordo. É contraditório. Um acordo sem ameaça de corte de ajuda não é uma proposta, é um convite à destruição.
Biden parece frustrado com Netanyahu.
A frustração de Biden é fraqueza. Um presidente poderoso não desabafa em privado, actua em público. Os EUA criaram o conceito de intervenção humanitária, mas perderam toda a credibilidade ao financiar a guerra que fingem querer parar.
Então Netanyahu ganha tempo indefinidamente?
Até que algo mude. Ou a pressão interna explode novamente, ou os EUA cortam a ajuda militar. Sem isso, Netanyahu continua a ganhar tempo enquanto Gaza é destruída.
The Pulse
- A morte de seis reféns israelitas nos túneis de Gaza expôs a brutalidade de um conflito onde nenhum dos lados parece disposto a recuar, e Netanyahu usou o momento para reforçar a narrativa de que o Hamas inviabiliza qualquer acordo.
- Israel assassinou Ismail Haniyeh, o negociador do Hamas mais aberto ao diálogo, durante conversações de trégua em Teerão — uma decisão que colocou Yahya Sinwar, o líder da guerra, no centro das negociações e sinalizou que o acordo nunca foi o verdadeiro objectivo.
- A coligação de extrema-direita que governa Israel mantém-se coesa apesar das acusações de crimes de guerra, enquanto as manifestações de domingo e a greve geral de segunda-feira revelam uma resistência interna que ainda não atingiu a massa crítica necessária para mudar o curso político.
- Os Estados Unidos preparam um acordo final para as próximas semanas, mas continuam a enviar ajuda militar a Israel, esvaziando a credibilidade da sua pressão diplomática e deixando Netanyahu sem incentivo real para negociar.
- A Europa permanece apática e silenciosa, perdendo a cada dia que passa a autoridade moral para invocar os valores que diz defender, enquanto Gaza acumula mortos civis, expulsões na Cisjordânia e ataques a hospitais, escolas e organizações humanitárias.
Enquanto seis reféns israelitas eram encontrados mortos nos túneis de Gaza, Benjamin Netanyahu invocou o Hamas como único obstáculo à paz — mas a sequência dos seus actos conta uma história mais sombria: a eliminação deliberada do negociador político do Hamas, Ismail Haniyeh, e a sua substituição pelo arquitecto da guerra, Yahya Sinwar, sugere que o cessar-fogo nunca foi um destino desejado. No cruzamento entre a sobrevivência política de um líder acusado de crimes de guerra e a resistência sacrificial de um movimento disposto a imolar o seu próprio povo, Gaza continua a arder — enquanto o mundo observa e os Estados Unidos oscilam entre a retórica da paz e o envio de armas.
Benjamin Netanyahu afirma que quem mata reféns não quer negociar. Mas a lógica dos seus próprios actos levanta uma questão incómoda: alguma vez ele quis de verdade um cessar-fogo?
Israel eliminou Ismail Haniyeh, o líder político do Hamas considerado mais receptivo ao diálogo, durante negociações de trégua em Teerão. No seu lugar ficou Yahya Sinwar, o arquitecto da guerra. Não foi uma coincidência — foi uma escolha que matou o acordo antes de ele existir. O cessar-fogo não serve ao governo de extrema-direita de Netanyahu, que precisa da guerra como escudo político, nem serve ao Hamas, que recusa qualquer rendição em nome da resistência. Ambos têm razões para prolongar o conflito.
O que surpreende é a resiliência de Netanyahu perante a pressão. Ele recuou na reforma da justiça quando as ruas se levantaram, mas agora, com a guerra como cobertura, parece intocável. A manifestação gigantesca de domingo e a greve geral de segunda-feira mostram que a oposição existe — a questão é se terá força para se sustentar. Se não se repetir com a mesma intensidade, isso dirá algo sobre o que a maioria israelita está disposta a aceitar: mortes civis acumuladas, expulsões na Cisjordânia, ataques a hospitais e escolas, castigo de uma população inteira.
A pressão externa recai quase exclusivamente nos Estados Unidos, porque a Europa se mantém apática e sem voz. Os EUA oscilam entre exigir o fim da guerra e anunciar novos pacotes de ajuda militar a Israel — uma contradição que destrói a sua credibilidade. Biden deixou escapar que Netanyahu podia fazer muito mais para garantir um acordo, mas um desabafo não é política. Washington prepara um acordo final para as próximas semanas, mas sem ameaça real de corte de ajuda militar, Netanyahu não tem razão para aceitar. Tem feito exactamente o que sempre fez: ganhar tempo, fingindo negociar. Agora, já nem sequer precisa de fingir.
Benjamin Netanyahu afirma que quem mata reféns não quer chegar a um acordo. A pergunta que fica no ar é simples: Netanyahu alguma vez quis de verdade negociar?
O primeiro-ministro israelita acusa o Hamas de assassinar seis reféns encontrados nos túneis de Gaza no domingo, usando esse facto para justificar a impossibilidade de um cessar-fogo. Mas a lógica dos seus actos conta uma história diferente. Israel eliminou Ismail Haniyeh, o negociador político do Hamas — um dos seus líderes considerados mais abertos ao diálogo — durante negociações de trégua em Teerão. Quem o substituiu foi Yahya Sinwar, o homem que dirige a guerra. Esta não é uma coincidência. É uma escolha deliberada de matar um acordo e de aprofundar o conflito.
O cessar-fogo não serve aos interesses do governo extremista de Israel, nem serve aos do Hamas. Netanyahu está disposto a sacrificar os reféns que for necessário para eliminar Sinwar e consolidar o poder. Sinwar, por sua vez, continuará a sacrificar a população palestiniana até à destruição completa do movimento, recusando qualquer rendição em nome da honra e do martírio. Ambos os lados têm razões para prolongar a guerra. O primeiro quer sobreviver politicamente e atrair os Estados Unidos para um confronto directo com o Irão. O segundo quer manter viva a resistência, custe o que custar.
O que surpreende é como Netanyahu e a coligação de extrema-direita que governa Israel — composta por ministros que defendem abertamente o extermínio de um povo inteiro — conseguem manter-se de pé perante toda a pressão, tanto interna como externa. Um primeiro-ministro acusado de crimes de guerra deveria estar em guerra com o seu próprio governo. Mas não está. Netanyahu recuou na sua reforma da justiça quando as ruas se levantaram contra ele, mas agora, com a guerra como escudo, parece intocável. A manifestação gigantesca de domingo e a greve geral de segunda-feira mostram que a resistência existe. A questão é se ela terá força para se repetir com a mesma intensidade que teve durante a luta contra a reforma judicial.
Se os protestos não se repetirem com essa magnitude, só pode significar uma coisa: ou a maioria israelita está exausta e desinteressada, ou subscreve a política de Israel desde 7 de Outubro — acumulação de civis mortos, castigo da população palestiniana em níveis atroces, expulsão de habitantes da Cisjordânia, expansão de colonatos, ataques a hospitais, escolas, campos de refugiados e organizações humanitárias da ONU. A desistência é uma opção política.
A pressão interna depende de um movimento popular que ainda não se materializou com força suficiente. A pressão externa recai integralmente nos Estados Unidos, porque a Europa se mantém apática e cobarde. Cada dia que passa, cada morte em Gaza, a Europa perde autoridade para falar de valores e ética. Os EUA oscilam entre afirmar que é necessário acabar com a guerra e defender a solução dos dois Estados, e depois anunciar milhões de dólares em ajuda militar. Fazem-no com demasiada regularidade e despreocupação, minando a credibilidade de uma potência que inventou o conceito de direito de intervenção humanitário.
Joe Biden reuniu o seu conselho de segurança na Casa Branca e deixou escapar um desabafo: Netanyahu podia fazer muito mais para garantir um acordo. Esse desabafo é fraqueza. Os EUA pretendem apresentar um acordo final nas próximas semanas, e se não funcionar, Washington abandonará as negociações. Mas um acordo "pegar ou largar", sem estar associado ao fim da ajuda militar americana, não é uma proposta séria. É um convite à destruição completa de Gaza e da Cisjordânia e ao extermínio e expulsão da população. Netanyahu tem feito nada mais do que ganhar tempo, fingindo negociar enquanto Biden era poderoso. Agora, já nem sequer é preciso fingir.
Notable Quotes
Netanyahu podia fazer muito mais para garantir esse acordo— Joe Biden, durante reunião do conselho de segurança na Casa Branca
Netanyahu tem feito nada mais do que ganhar tempo, fingindo negociar enquanto Biden era poderoso— Giles Kepel, cientista político francês, ao PÚBLICO