A Justiça Federal determinou que fazendeiros desocupem 2 mil hectares de terra da União até 24 de outubro para criar assentamento rural, mesma data da véspera eleitoral. A região é dominada por produtores de soja bolsonaristas; acampados apoiam Lula e temem que derrota petista inviabilize o assentamento após nove anos de espera.
Na Amazônia, famílias acampadas esperam terra enquanto jagunços e PMs vigiam na véspera da eleição
Quando fomos retirados, não nos deixaram retirar nada. Colocaram fogo em tudo.
Por que exatamente a eleição importa tanto para essas famílias? A Justiça já decidiu que a terra é delas.
A Justiça decidiu, sim, mas a execução dessa decisão depende de vontade política. Se Lula vencer, as famílias acreditam que o Incra terá apoio para implantar o assentamento. Se Flávio Bolsonaro vencer, temem que o processo seja travado ou abandonado.
Mas isso é especulação, certo? Não há declaração de nenhum candidato sobre o que faria com esse assentamento específico.
Verdade. É baseado em histórico e na percepção das famílias sobre qual governo priorizaria reforma agrária. Mas a coincidência de datas—prazo vencendo na véspera do segundo turno—é real e preocupante.
E quanto aos jagunços e à polícia? Há documentação de ameaças ou é relato das famílias?
As ameaças são relatadas pelas lideranças do acampamento. A polícia tem sua versão: cumpriu um programa de tolerância zero a invasões. Não há investigação independente mencionada sobre as ameaças de morte.
Mas a prisão de 2024 sem mandado é documentada. E o padre, a defensora pública e a agente da CPT foram detidos junto com os acampados.
Então há um padrão de confronto, mesmo que as interpretações sejam diferentes.
Há confronto documentado. O que não está claro é se a vigilância atual é apenas segurança de propriedade ou intimidação eleitoral. As duas coisas podem ser verdadeiras simultaneamente.
Para as famílias vivendo ali, a distinção não importa muito. Elas sentem-se cercadas e ameaçadas, e isso afeta como vivem e como votam.
E a questão do agrotóxico? Isso é verificável?
Edna Lima relata que sente a brisa de veneno quando pulverizam. Não há análise de água ou solo mencionada no texto. É um relato de exposição, não uma medição.
Mas é um relato consistente com o que sabemos sobre plantações vizinhas a acampamentos. E dura quase seis meses, segundo ela.
Il Polso
- Dois mil hectares de terra pública devem ser desocupados até 24 de outubro de 2026
- Acampamento existe há nove anos; projeto de assentamento tem 24 anos
- Em Novo Mundo (MT), Bolsonaro recebeu 67% dos votos no primeiro turno de 2022 e 71% no segundo
- Treze acampados foram presos em 2024 sem mandado judicial durante tentativa de ocupação
- Famílias vivem sem energia elétrica, água encanada ou saneamento básico
A Justiça Federal determinou que fazendeiros desocupem 2 mil hectares de terra da União até 24 de outubro para criar assentamento rural, mesma data da véspera eleitoral. A região é dominada por produtores de soja bolsonaristas; acampados apoiam Lula e temem que derrota petista inviabilize o assentamento após nove anos de espera.
Dezenas de famílias acampadas há nove anos no norte de Mato Grosso aguardam a desocupação de 2 mil hectares de terra pública pela Justiça Federal, com prazo vencendo na véspera do segundo turno eleitoral de 2026.
No norte de Mato Grosso, dezenas de famílias vivem em barracos de lona e zinco à beira de uma estrada vicinal, esperando por uma terra que a Justiça Federal já declarou ser delas. Há nove anos acampadas, essas famílias aguardam a concretização de um assentamento rural chamado PDS Novo Mundo, que ocuparia dois mil hectares da Fazenda Cinco Estrelas. A espera, porém, se entrelaçou com o calendário político: o prazo final para que os fazendeiros desocupem a área vence em 24 de outubro, véspera do segundo turno das eleições presidenciais de 2026.
A região onde essas famílias acampam é dominada pela soja. Mato Grosso lidera a produção nacional do grão, e a parte norte do estado concentra quarenta por cento dessa produção, com cidades como Sinop e Sorriso entre as principais produtoras. A Fazenda Cinco Estrelas, com seus quatro mil trezentos e cinquenta e quatro hectares, integra um corredor de escoamento de commodities que conecta o norte mato-grossense ao sul do Pará, alimentando portos amazônicos. Nessa paisagem de plantações, a dicotomia política é profunda. Em Novo Mundo, a cidade mais próxima da fazenda, Jair Bolsonaro recebeu sessenta e sete por cento dos votos válidos no primeiro turno de 2022 e setenta e um por cento no segundo turno. Esse padrão bolsonarista se repete em todas as cidades ao longo da BR-163. Os fazendeiros, plantadores de soja e milho, operadores de commodities, criadores de gado e empresários agrícolas da região apoiam amplamente a candidatura de Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente, que disputa o segundo turno contra Lula.
Os acampados, por sua vez, apoiam o candidato petista e temem que uma derrota nas urnas inviabilize o assentamento após quase uma década de espera. A Justiça Federal, em primeira e segunda instâncias, já decidiu que a área é pública, pertencente à União, e que a família Rodrigues da Cunha, proprietária da Fazenda Cinco Estrelas, deve desocupá-la. Uma decisão proferida em vinte e quatro de abril estabeleceu um prazo de cento e oitenta dias corridos para a saída dos fazendeiros. Conforme a contagem dos acampados, esse prazo se encerra precisamente em vinte e quatro de outubro, embora cálculos mais exatos apontem vinte e um de outubro. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária afirma estar em curso medidas judiciais para a desocupação e para a imissão do Incra na posse, permitindo a implantação efetiva do assentamento.
Mas a espera não é pacífica. Em 2024, quando acampados decidiram ocupar a área dos dois mil hectares diante do vaivém judicial sobre a desocupação, a patrulha rural da Polícia Militar de Mato Grosso foi acionada. Treze acampados foram presos sem mandado judicial. No mesmo episódio, foram detidos um padre, uma defensora pública e uma agente da Comissão Pastoral da Terra. Os acampados permaneceram presos por uma semana. Dois anos depois, as famílias relatam que a área é vigiada por homens armados—chamados de "guachebas", sinônimo local de jagunços—com atuação ostensiva de policiais militares contra os acampados e ameaças crescentes conforme a eleição se aproxima. O Governo de Mato Grosso, em nota, afirmou que a PM recebeu denúncia sobre invasão ilegal e cumpriu as diretrizes do Programa Tolerância Zero às Invasões de Terra, apreendendo espingarda, facas, facões e armas artesanais.
A vida no acampamento é de precariedade extrema. As famílias não têm energia elétrica, água encanada ou poços, e sofrem com alagamentos frequentes das casas. Parte da área destinada ao assentamento foi arrendada a plantadores de soja, e um garimpo se instalou em outra porção. As plantações vizinhas trazem consequências diretas: quando pulverizam, uma "brisa de veneno" chega ao acampamento, conforme relata Edna Lima, quarenta e nove anos, uma das acampadas. Os efeitos do agrotóxico duram quase um semestre inteiro. Lideranças do acampamento e do assentamento próximo dizem receber ameaças de agressão e morte, intensificadas pelo período eleitoral.
Maria Lúcia Vaz, cinquenta e seis anos, é uma das acampadas mais antigas da região. Ela espera entrar definitivamente na Fazenda Cinco Estrelas antes do segundo turno presidencial. Quando foram retirados da área em 2024, relata, não lhes permitiram retirar nada. Colocaram fogo em tudo. Agora, com o prazo de desocupação vencendo na véspera da eleição, as famílias aguardam não apenas uma decisão judicial, mas também o resultado das urnas que pode determinar se o assentamento sai do papel ou permanece como promessa adiada.
Citazioni salienti
A soja está em volta da represa onde a gente pega água. Quando pulveriza, tem uma brisa de veneno aqui. Os efeitos duram quase um semestre inteiro.— Edna Lima, 49 anos, acampada
Quando fomos retirados da área, em 2024, não nos deixaram retirar nada. Colocaram fogo em tudo.— Maria Lúcia Vaz, 56 anos, acampada há muitos anos