Mulheres negras reivindicam direito de escolha sobre maternidade e partos sem violência

Mulheres negras sofrem violência obstétrica sistemática, perdem oportunidades educacionais por gravidez precoce e enfrentam discriminação racial no atendimento de saúde reprodutiva.
Gostaria que fôssemos respeitadas como seres humanos
Heloisa Amâncio relata sua experiência de negligência e discriminação racial durante o parto.
Mark

Por que essas mulheres falam tanto em escolha? Não é óbvio que toda mulher deveria poder decidir sobre sua própria maternidade?

Mimi

Parece óbvio, mas não é. Quando sete em cada dez meninas negras que engravidam antes dos 19 anos não tiveram acesso a informação sexual adequada, a "escolha" é mais ficção que realidade. É como oferecer liberdade sem ferramentas.

Mark

E a violência obstétrica que mencionam? Isso é realmente sistemático ou são casos isolados?

Mimi

A pesquisa da Fiocruz mostra que mulheres negras são as principais vítimas. Não é isolado. É padrão. Médicos subestimam a dor delas, deixam elas esperando horas, fazem procedimentos sem anestesia. Há um mito de que mulheres negras aguentam mais dor.

Mark

Mito? Como isso persiste em profissionais de saúde?

Mimi

Porque o racismo é estrutural. Está nos protocolos, nas suposições, nas práticas que ninguém questiona. Um estudo de 2024 provou que profissionais subestimam a dor de mulheres negras comparado a mulheres brancas. É ciência confirmando o que essas mulheres já sabem.

Mark

Então o que elas querem, no fundo?

Mimi

Querem ser tratadas como seres humanos. Querem poder dizer não à maternidade sem ser questionadas. Querem poder dizer sim e ter um parto digno. Querem que seus filhos cresçam sem sofrer a mesma discriminação. É simples e impossível ao mesmo tempo.

  • Sete em cada dez meninas que engravidam antes dos 19 anos são negras
  • Seis em cada dez mães adolescentes não estudam nem trabalham
  • Estudo de 2024 no Journal of Pain mostra subestimação desproporcional da dor de mulheres negras
  • Mulheres negras são principais vítimas de violência obstétrica, segundo pesquisa Fiocruz
  • 52 em cada 100 lares brasileiros são chefiados por mulheres, maioria preta e parda

Sete em cada dez meninas que engravidam antes dos 19 anos são negras; falta acesso à educação sexual impede escolhas informadas sobre maternidade. Profissionais de saúde subestimam dor de mulheres negras e praticam violência obstétrica; pesquisa Fiocruz confirma disparidade racial no atendimento.

Mulheres negras demandam autonomia reprodutiva, acesso a informação contraceptiva e partos livres de violência obstétrica e racismo, celebrando Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana.

Nathália Rodrigues tem 26 anos e trabalha como administradora. Ela quer que mulheres negras possam decidir quando ter filhos. Bárbara Carine, educadora de 39 anos, sonha com gestações e partos sem violência. Patrícia Andrade, corretora de imóveis com 46 anos, imagina um futuro onde seus filhos cresçam cercados de afeto e acolhimento. No sábado que marca o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, essas três mulheres e outras falam sobre o que desejam para suas vidas reprodutivas e para as gerações que virão.

O direito reprodutivo que reivindicam vai muito além da possibilidade de interromper ou continuar uma gravidez. Inclui poder escolher se e quando ter filhos, com acesso real a informação e a métodos contraceptivos. Significa também que a dor delas seja levada a sério durante consultas ginecológicas, que recebam atendimento digno no parto e que vivam a maternidade sem que o racismo estrutural determine o destino de mães e filhos. Bruna Dias, comunicadora de 32 anos, cresceu na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, vendo meninas abandonarem a escola porque engravidaram. Hoje ela defende mais acesso à informação e educação sexual para adolescentes. Os números revelam a urgência: sete em cada dez meninas que engravidam antes dos 19 anos são negras, conforme dados do IBGE. Entre as mães adolescentes, seis em cada dez não estudam nem trabalham.

Patrícia engravidou aos 22 anos e precisou desistir da faculdade. Ainda sonha em cursar letras. "Hoje em dia, as meninas menstruam com 11 anos. A menina que teve a menarca tem direito a entender sobre a sexualidade, com tempo e na linguagem correta", diz ela. Segundo as entrevistadas, esse acesso à informação evita que meninas sejam forçadas a escolher entre maternidade e carreira. Michele Salles, diretora de impacto social com 44 anos, afirma que "uma mulher negra sadia e segura de sua decisão ganha o mundo, e o mundo ganha com ela". Michele perdeu três gestações antes de conseguir realizar o sonho de ter um filho — hoje, Caetano tem sete anos. Ao longo do processo, sua própria decisão de ser mãe foi questionada e ela foi submetida a procedimentos dolorosos sem anestesia. "Alguns médicos foram extremamente racistas. Essa coisa de achar que a mulher negra tem mais tolerância à dor", relata.

Um estudo de 2024 publicado no Journal of Pain mostrou que profissionais de saúde subestimam de forma desproporcional a dor de mulheres negras, em comparação a mulheres brancas e também a homens negros e brancos. A professora Luciana Azevedo, 43 anos, questiona: "Todas as mulheres precisam fazer exames ginecológicos. Mas às vezes somos tratadas sem atenção nenhuma. São invasivos, dolorosos. Por que não pensar em uma estratégia para amenizar isso?". Na sociedade que as entrevistadas imaginam, mulheres negras que não quisessem engravidar seriam respeitadas nessa escolha. As que optassem pela gravidez poderiam decidir o melhor momento e viver a gestação e o parto em paz, sem procedimentos dolorosos desnecessários.

Bárbara Carine precisou se mobilizar para conseguir uma equipe inteiramente negra em seu parto. Isso porque mulheres negras são as principais vítimas de violência obstétrica, segundo a pesquisa "Nascer no Brasil", coordenada pela Fiocruz. Heloisa Amâncio, servidora pública de 52 anos, viveu essa realidade. Em um dos partos, esperou mais de oito horas na maternidade sem ser observada pelos profissionais de saúde. Quando notaram sua presença, já estava em risco. Romperam sua bolsa e ela precisou caminhar até a sala de parto. "Gostaria que fôssemos respeitadas como seres humanos. Quando uma mulher negra chega na maternidade, acham que ela vai aguentar a dor sem anestesia, que vai aguentar esperar mais tempo, que pode ficar de pé encostada em qualquer lugar. Acham que ela aguenta", diz Heloisa.

Patrícia considera a maternidade a área mais bem-sucedida de sua vida e deseja que outras mulheres negras tenham a mesma experiência que ela teve no parto. "Fui muito bem tratada." Ela teve os três filhos pelo SUS na maternidade de referência do Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo. Em 2021, o convênio entre o hospital e a prefeitura foi encerrado. "Gostaria que mulheres negras pudessem ter bons hospitais para ter seus filhos", diz. Patrícia deseja ainda que elas encontrem acolhimento em seus parceiros ou parceiras. "Que tenham afeto e amor, porque é tão difícil a mulher negra ter isso", afirma. A cada cem lares brasileiros, 52 são chefiados por mulheres, em sua maioria pretas e pardas e com ensino superior incompleto, segundo o IBGE.

Os desejos das entrevistadas vão além dos próprios direitos reprodutivos. Elas querem que seus filhas e filhos tenham um caminho mais leve do que o vivido por elas. Bárbara levou sua filha a uma dentista desconhecida e a profissional disse que não precisava de anestesia. "Não sabia se era um novo método ou se ela achava que minha filha, por ser negra, não sentia dor", diz Bárbara. "Eu queria ter paz para simplesmente ir a um lugar e minha filha arrancar o dente, sem precisar fazer várias elaborações sobre o que está acontecendo", afirma. A advogada Tulani Hipólito, 26 anos, ainda não tem filhos, mas quer que eles tenham mais liberdade de escolha do que ela teve. "Desejo sonhos ambiciosos para meus filhos."

Uma mulher negra sadia e segura de sua decisão ganha o mundo, e o mundo ganha com ela
— Michele Salles, diretora de impacto social
Quando uma mulher negra chega na maternidade, acham que ela vai aguentar a dor sem anestesia, que vai aguentar esperar mais tempo
— Heloisa Amâncio, servidora pública
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