Em um país onde o amanhã pesa mais que o hoje, quatro em cada dez brasileiros apontam as mudanças climáticas como a maior ameaça ao futuro — superando o desemprego e o retrocesso democrático. A pesquisa Termômetro do Brasil, conduzida pelo Instituto Oyá com dois mil entrevistados, revela não apenas uma consciência crescente sobre a crise climática, mas também uma contradição profunda: a urgência percebida para o futuro não se converte em mobilização no presente. Nesse intervalo entre o temor e a ação, prospera a desinformação — e com ela, a fragilidade de uma sociedade que sente o perigo, mas
Mudanças climáticas preocupam mais que desemprego, revela estudo do Instituto Oyá
O brasileiro não é negacionista. Está desinformado.
Como explicar que 41% se preocupem com clima para o futuro, mas apenas 14% mencionem isso como preocupação atual?
Há uma diferença entre reconhecer um risco abstrato e senti-lo como urgência imediata. As pessoas sabem que o clima é importante, mas enfrentam pressões do dia a dia — emprego, saúde, segurança — que parecem mais tangíveis.
Mas a pesquisa não explica por que essa lacuna existe. É falta de informação? Falta de conexão entre o risco climático e a vida cotidiana? Ou as pessoas simplesmente não acreditam que possam fazer algo?
A diretora do Instituto Oyá sugere que a desinformação é central. Se 78% não conseguem diferenciar notícias falsas de verdadeiras, como as pessoas construiriam uma visão clara do risco climático?
E quanto àqueles 45% que confiam em ONGs? Eles poderiam ser um ponto de apoio para mobilização?
Teoricamente, sim. Mas o estudo também mostra que 39% rejeitam campanhas políticas e 33% rejeitam protestos de rua. Confiar em uma instituição não significa estar disposto a agir.
Aqui está o problema: o estudo mede atitudes, não comportamentos. Não sabemos se essas pessoas realmente evitariam um protesto ou se apenas dizem que evitariam em uma pesquisa.
A questão dos deepfakes e IA — 81% temem isso — parece desproporcionalmente alto. Quantas pessoas realmente encontram deepfakes em suas vidas?
Exatamente. Esse número pode refletir medo abstrato alimentado por cobertura de mídia, não experiência real. O estudo não diferencia entre ameaça percebida e ameaça vivida.
Mas o medo é real, mesmo que a exposição seja limitada. E em um contexto eleitoral, a possibilidade de manipulação por IA é uma ameaça legítima, ainda que rara.
Então o Brasil está em um estado de preocupação difusa — consciente de riscos, desinformado sobre detalhes, desconfiado de instituições, mas relutante em agir?
É uma forma de dizer. Há potencial para mobilização através de ONGs e mídia confiável, mas as estruturas para isso ainda não estão consolidadas.
Le Pouls
- 41% dos brasileiros elegem as mudanças climáticas como a maior ameaça futura, mas o tema despenca ao nono lugar quando a pergunta é sobre o presente — uma fissura entre consciência e urgência que preocupa pesquisadores.
- 78% dos entrevistados não conseguem distinguir notícias falsas de verdadeiras sobre eventos climáticos extremos, tornando a população especialmente vulnerável à manipulação emocional e à desinformação organizada.
- O medo de deepfakes e inteligência artificial usados para falsificar imagens e vozes atinge 81% dos brasileiros, ganhando contornos ainda mais graves em um momento de instabilidade eleitoral.
- A confiança nos governos despencou para 35%, enquanto a tecnologia ainda inspira fé em 67% — um vácuo institucional que, segundo pesquisadores, faz as pessoas aceitarem qualquer narrativa como verdade.
- ONGs ainda retêm a confiança de 45% dos brasileiros, sinalizando um caminho possível para a mobilização climática por fora das estruturas políticas tradicionais, que 39% já descartam completamente.
Em um país onde o amanhã pesa mais que o hoje, quatro em cada dez brasileiros apontam as mudanças climáticas como a maior ameaça ao futuro — superando o desemprego e o retrocesso democrático. A pesquisa Termômetro do Brasil, conduzida pelo Instituto Oyá com dois mil entrevistados, revela não apenas uma consciência crescente sobre a crise climática, mas também uma contradição profunda: a urgência percebida para o futuro não se converte em mobilização no presente. Nesse intervalo entre o temor e a ação, prospera a desinformação — e com ela, a fragilidade de uma sociedade que sente o perigo, mas ainda não encontrou os instrumentos coletivos para enfrentá-lo.
Quando perguntados sobre o futuro, 41% dos brasileiros apontam as mudanças climáticas como a ameaça mais grave — número que supera o medo do desemprego e do retrocesso democrático, ambos citados por 32% dos entrevistados. Os dados emergem da pesquisa Termômetro do Brasil, conduzida pelo Instituto Oyá em parceria com a Ipsos, que ouviu dois mil pessoas em todo o país.
Há, porém, uma contradição reveladora: quando a pergunta muda do futuro para o presente, as mudanças climáticas caem ao nono lugar, mencionadas por apenas 14% dos entrevistados. Essa distância entre o que se teme para amanhã e o que mobiliza hoje coloca o Brasil na 20ª posição entre os países mais preocupados com o clima — um ranking que traduz ansiedade sem ação.
O estudo expõe ainda um problema ainda mais inquietante: 78% dos brasileiros não conseguem diferenciar notícias falsas de verdadeiras, especialmente sobre eventos climáticos extremos. Um experimento cego demonstrou que informações falsas carregadas de apelo emocional são aceitas como verdade. Nesse cenário, 81% temem o uso de deepfakes e inteligência artificial para manipular a realidade — preocupação que se intensifica diante da incerteza eleitoral.
A diretora executiva do Instituto Oyá, Camila Kamilo, aponta que a erosão da confiança institucional agrava tudo: apenas 35% dos brasileiros confiam nos governos, contra 67% que ainda confiam na tecnologia. Esse vácuo, diz ela, não produz negacionismo — produz desinformação. E a diferença importa: onde há desinformação, há espaço para educação e comunicação clara.
O engajamento climático ocorre sobretudo nas redes sociais, de forma distante e digital. Kamilo defende políticas públicas e novos modelos de comunicação que garantam a circulação de informações verificadas. As ONGs, que ainda inspiram confiança em 45% dos entrevistados, surgem como possível vetor de mobilização — especialmente diante de um eleitorado em que 39% já descarta qualquer forma de participação política convencional.
Quando perguntados sobre suas maiores preocupações para o futuro, 41% dos brasileiros apontam as mudanças climáticas como a ameaça mais grave. Esse número emerge de uma pesquisa inédita do Instituto Oyá, realizada em parceria com a Ipsos, que ouviu 2 mil pessoas e foi divulgada esta semana sob o título Termômetro do Brasil. A descoberta é significativa porque coloca o tema climático acima de outras questões que historicamente mobilizam a opinião pública: apenas 32% citam a perda de emprego como principal preocupação, 32% mencionam retrocesso democrático, 31% apontam deterioração da saúde, 30% falam em escassez de alimentos, e 24% ainda temem uma nova pandemia.
Mas há uma contradição reveladora nos dados. Quando os mesmos 2 mil entrevistados são perguntados sobre suas preocupações imediatas no presente, as mudanças climáticas caem para o nono lugar, com apenas 14% de menção. As ameaças ao meio ambiente ocupam a décima posição, com 10%. Essa discrepância entre o que as pessoas temem para o futuro distante e o que as preocupa agora coloca o Brasil na 20ª posição entre os países mais preocupados com clima — um ranking que sugere que, apesar da ansiedade sobre o amanhã, a urgência climática não se traduz em mobilização imediata.
O estudo revelou um problema ainda mais inquietante: a desinformação em massa. Segundo Camila Kamilo, diretora executiva do Instituto Oyá, 78% dos brasileiros não conseguem diferenciar notícias falsas de verdadeiras, particularmente quando se trata de eventos climáticos extremos. Um experimento social cego demonstrou que as pessoas aceitam como verdadeiras informações falsas que apelam fortemente às emoções. Nesse contexto de vulnerabilidade informativa, 81% dos entrevistados temem o uso de deepfakes e tecnologias de inteligência artificial para manipular imagens e vozes — uma preocupação que ganha peso especial em um momento de incerteza eleitoral no país.
A erosão da confiança institucional agrava o cenário. Enquanto 67% dos brasileiros confiam na tecnologia, apenas 35% confiam nos governos. Kamilo observa que essa deterioração da confiança em instituições públicas cria um vácuo perigoso: as pessoas, literalmente, aceitam qualquer coisa como verdade. Esse padrão não se limita à crise climática, mas permeia desafios sociais, econômicos e ecológicos mais amplos. A pesquisadora enfatiza que o brasileiro não é majoritariamente negacionista — está, antes, desinformado. A diferença é crucial: significa que há espaço para educação e comunicação clara, não apenas para convencimento ideológico.
O engajamento social sobre clima tem ocorrido predominantemente nas redes sociais, de forma distante e digital, em vez de presencial e ativa. Kamilo argumenta que o país precisa urgentemente de políticas públicas e novos modelos de comunicação que garantam a veracidade das informações em circulação. Apesar da desconfiança nas instituições, 45% dos brasileiros ainda acreditam em organizações não governamentais — um dado que aponta para uma possível via de mobilização. A pesquisadora destaca a importância de fortalecer organizações da sociedade civil e a imprensa como difusora de informações verificadas.
Outro achado relevante diz respeito ao afastamento do eleitor brasileiro do engajamento político tradicional. Um total de 39% descarta participar de campanhas ou partidos, e 33% rejeita protestos de rua. Essa desconexão com as formas convencionais de ação política, combinada com a alta desinformação e a erosão da confiança institucional, desenha um quadro de população preocupada mas fragmentada — consciente de ameaças futuras, mas sem canais claros ou confiáveis para agir no presente.
Citations marquantes
O brasileiro não é negacionista na sua maioria. Ele está desinformado.— Camila Kamilo, diretora executiva do Instituto Oyá
A deterioração da confiança do brasileiro faz com que as pessoas, literalmente, aceitem qualquer coisa como verdade.— Camila Kamilo, Instituto Oyá