Petrobras atinge defasagem recorde de preços na reta final eleitoral

Os preços estão congelados na reta final das eleições
A Petrobras mantém combustíveis 18% a 20% abaixo do mercado internacional sob pressão política.
Mark

Por que a Petrobras deixa os preços tão defasados? Não é ruim para a empresa?

Mimi

É ruim, sim. Ela está vendendo abaixo do custo internacional, perdendo margem. Mas o governo pediu para congelar até as eleições acabarem.

Luke

Espera — fontes do setor afirmam isso, mas a Petrobras nunca confirmou publicamente essa pressão, certo?

Mimi

Correto. A empresa diz oficialmente que quer evitar volatilidade. Mas a defasagem de 18% a 20% não é acidental.

Mark

E depois das eleições? Vai ter reajuste?

Mimi

Quase certamente. Os economistas dizem que é inevitável. A questão é quanto e quando.

Luke

Mas aí entra o câmbio e o preço do barril. Se o dólar continuar subindo e o petróleo ficar em US$ 110, a defasagem pode ser ainda maior.

Mimi

Exatamente. Então quando vier o reajuste, vai ser grande. Talvez R$ 0,80 só de gasolina.

Mark

E quanto disso chega até a bomba?

Mimi

Cerca de 75% a 80%, segundo os economistas. Então o consumidor sente quase tudo.

Luke

Mas isso é uma estimativa de um economista, não um número confirmado pela Petrobras, certo?

Mimi

Certo. É baseado em padrões históricos, não em dados oficiais atuais.

Mark

Então a Petrobras está basicamente adiando um problema que vai explodir depois?

Mimi

Parece ser isso. E enquanto adia, segue vendendo refinarias e ativos.

  • Defasagem de gasolina: R$ 0,75/litro (-18%); diesel: R$ 1,25/litro (-20%)
  • Governo Bolsonaro pressionou Petrobras a não reajustar até fim do segundo turno
  • Câmbio em alta e petróleo internacional em escalada ampliam a pressão
  • Defasagem pode chegar a R$ 0,80/litro de gasolina se PPI for retomado com câmbio atual

A defasagem atinge recorde: gasolina R$ 0,75/litro e diesel R$ 1,25/litro abaixo das cotações internacionais, segundo a Abicom. Governo Bolsonaro pressionou Petrobras a congelar preços até fim do segundo turno eleitoral, enquanto câmbio e petróleo internacional sobem.

Petrobras chega às eleições com gasolina e diesel defasados entre 18% e 20% em relação ao mercado internacional, sob pressão do governo Bolsonaro para não reajustar até o segundo turno.

A Petrobras chega aos últimos dias da campanha eleitoral com um problema que não consegue mais esconder. Os preços da gasolina e do diesel praticados pela estatal estão entre 18% e 20% abaixo do que cobram nos mercados internacionais — a maior defasagem registrada até agora. Segundo a Abicom, associação que reúne importadores de combustíveis, a gasolina vendida pela estatal acumula uma diferença de R$ 0,75 por litro em relação às cotações globais, enquanto o diesel fica R$ 1,25 mais barato. Desde o início de outubro, essa lacuna só tem crescido, atingindo seu pico na última sexta-feira.

O cenário é resultado de uma pressão política clara. Fontes do setor afirmam que o governo Jair Bolsonaro pediu à Petrobras que não reajustasse combustíveis até o encerramento do segundo turno eleitoral. Enquanto isso, dois fatores externos trabalham contra a estatal: o barril de petróleo continua em alta nos mercados internacionais, e o câmbio segue subindo, tornando as importações mais caras. A empresa, porém, descarta novos reajustes até o fim da votação. Oficialmente, a Petrobras justifica sua postura dizendo que busca evitar repassar volatilidade aos consumidores — uma explicação que não convence especialistas, que desde o início de outubro alertam sobre a necessidade de alguma correção de preços.

Caio Paes de Andrade, que assumiu a presidência da estatal em junho, havia promovido diversas reduções nos preços dos combustíveis, aproveitando a queda das cotações internacionais naquele período. Agora, porém, a dinâmica se inverteu. Rodrigo Leão, economista do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas da Federação Única dos Petroleiros, é direto ao descrever o que acontece: os preços dos combustíveis estão congelados. Segundo ele, o objetivo da chegada de Paes de Andrade foi aplicar uma política de congelamento que contrariava o que a empresa vinha fazendo até então, quando usava o PPI — o preço de paridade de importação — como parâmetro para reajustes.

Mas Leão ressalva que, até agora, a Petrobras não sinalizou formalmente ao mercado que abandonou o uso do PPI. Isso significa que o congelamento atual é provavelmente temporário. Se a estatal retomar o PPI considerando a taxa de câmbio atual e uma projeção de que o barril de petróleo termine 2022 em torno de US$ 110, a defasagem apenas da gasolina poderia chegar a aproximadamente R$ 0,80 ao final do ano. Leão estima que entre 75% e 80% dos reajustes da Petrobras acabam chegando até a bomba de combustível.

Enquanto isso, a empresa segue com seu processo de abertura do mercado e desinvestimentos. A Petrobras já arrecadou R$ 9,6 bilhões com a privatização da BR Distribuidora, R$ 33 bilhões com a venda de 90% da TAG — a maior transportadora de gás natural do país — para um consórcio formado pela francesa Engie e a canadense CDPQ. Vendeu também a refinaria de Pasadena, nos EUA, para a Chevron por R$ 1,8 bilhão. Está em processo de venda de quatro refinarias, incluindo a de Abreu e Lima em Pernambuco, e pretende se desfazer de campos maduros na Bacia de Campos e de Santos. A próxima venda deve ser a subsidiária de distribuição de botijões de gás Liquigás. A empresa afirma que não quer retrocessos e que continuará com o processo de abertura do mercado — mas a realidade imediata é que combustíveis seguem congelados enquanto a pressão política e econômica cresce.

O objetivo foi aplicar uma política de congelamento de preços na contramão do que a empresa vinha fazendo até então
— Rodrigo Leão, economista do Ineep/FUP
Cerca de 75% a 80% dos reajustes da estatal acabam chegando na bomba
— Rodrigo Leão, economista do Ineep/FUP
Envie de l'histoire complète ? Lire l'original sur O GLOBO ↗
Nous contacter FAQ