Mortes por covid entre idosos crescem e apontam necessidade da 4ª dose

Idosos representam crescente proporção de mortes por covid-19, com vulnerabilidade aumentada após 3-4 meses da vacinação completa.
Metade dos mortos agora são idosos com três doses, mas cuja imunidade começou a cair
A mudança no perfil das vítimas revelou que a proteção vacinal diminui após quatro meses em pessoas acima de 70 anos.
Mark

Por que os idosos voltaram a morrer em números tão altos se já estavam vacinados?

Mimi

Porque a imunidade deles caiu. Eles tomaram a terceira dose em novembro, e quatro meses depois, em fevereiro, essa proteção começou a desaparecer. É um problema biológico: idosos simplesmente não mantêm a imunidade tão bem quanto pessoas mais jovens.

Mark

Mas as vacinas não funcionam para eles?

Mimi

Funcionam, mas de forma diferente. Pessoas acima de 70 anos têm imunosenescência — o sistema imunológico envelhece junto com o corpo. As vacinas oferecem proteção acima de 80% contra morte, mas essa proteção cai com o tempo, e cai mais rápido neles.

Mark

Então a quarta dose é a solução?

Mimi

É parte da solução. Mas é um padrão que vai se repetir. A quarta dose vai proteger por alguns meses, e depois a imunidade vai cair de novo. O desafio real é que o vírus mudou. As vacinas foram feitas para o vírus original, não para a Ômicron.

Mark

Qual é a diferença de proteção?

Mimi

Contra infecções leves, caiu bastante. Mas contra morte, manteve-se acima de 80%. O problema é que isso ainda não é suficiente para os idosos. No Espírito Santo, idosos vacinados morriam 35 vezes mais que não idosos vacinados.

Mark

Isso significa que a vacinação falhou?

Mimi

Não. Significa que a vacinação funcionou, mas não igualmente para todos. A letalidade geral caiu para 0,4%. Sem vacinação, seria muito pior. O que falhou foi não reconhecer mais cedo que idosos precisavam de uma estratégia diferente.

Mark

E agora, qual é a esperança?

Mimi

Havia uma janela de 30 dias para intensificar a vacinação enquanto a maioria da população estava imunizada. Se conseguissem aplicar a quarta dose rapidamente nos idosos, poderiam bloquear a circulação do vírus. Mas exigia ação rápida.

  • Em apenas três semanas de fevereiro, a proporção de mortes entre idosos vacinados saltou de minoria para metade de todos os óbitos por covid-19 no país.
  • A imunosenescência e o enfraquecimento da proteção após 4 meses da terceira dose deixam os maiores de 70 anos até 35 vezes mais vulneráveis à morte do que adultos mais jovens com o mesmo esquema vacinal.
  • A idade média das vítimas sobe em todo o mundo — no Brasil, a média de internação passou de 57 para 62 anos com a chegada da Ômicron, sinalizando uma mudança estrutural no perfil da pandemia.
  • Estados como Mato Grosso do Sul e São Paulo já iniciaram ou planejam a aplicação da quarta dose, enquanto pesquisadores alertam que o país tem apenas 30 dias de 'janela de oportunidade' para intensificar a vacinação.
  • Apesar da queda nos novos casos, especialistas da Fiocruz advertem que o momento favorável não autoriza flexibilizar restrições — ao contrário, exige intensificação para bloquear a circulação do vírus.

Mais de dois anos após o início da pandemia, os idosos brasileiros voltam a ocupar o centro da tragédia da covid-19 — não por falta de vacinação, mas por uma limitação silenciosa do próprio corpo que envelhece. A imunosenescência, fenômeno biológico que reduz a resposta imunológica em pessoas acima de 70 anos, combinada ao desgaste natural da proteção vacinal ao longo dos meses, recoloca essa geração em posição de vulnerabilidade. Diante disso, a quarta dose emerge não como excesso, mas como necessidade — e o Brasil dispõe de uma janela estreita de 30 dias para agir antes que uma nova onda torne a escolha mais cara.

Mais de dois anos depois do primeiro caso de covid-19 no Brasil, os dados dos grandes hospitais de referência revelaram uma mudança abrupta: os idosos voltaram a morrer em proporções alarmantes. No início de fevereiro, entre 70% e 90% dos óbitos envolviam pessoas não vacinadas ou com esquema incompleto. Três semanas depois, metade das mortes ocorria entre idosos que já haviam tomado três doses — a maioria vacinada em novembro, quatro meses antes.

A explicação está na imunosenescência, fenômeno biológico pelo qual pessoas acima de 70 anos produzem resposta imunológica significativamente menor. As vacinas, desenvolvidas para o vírus original, mantinham proteção acima de 80% contra morte — mas essa barreira cai após quatro ou cinco meses da vacinação completa. No Espírito Santo, um dos poucos estados com levantamento detalhado, a mortalidade entre idosos completamente vacinados era 35 vezes maior do que entre adultos mais jovens com o mesmo esquema.

Infectologistas ouvidos pela reportagem descreveram a transformação do perfil das vítimas: se nas primeiras semanas da Ômicron praticamente todos os mortos eram não vacinados ou imunossuprimidos, agora esse grupo representa apenas metade. A outra metade são idosos com três doses, cuja imunidade começou a declinar. A idade média das vítimas subiu em todo o mundo — nos Estados Unidos, passou de 68 para 74 anos; no Brasil, a média de internação foi de 57 para 62 anos, com mais de 70% dos casos acima dos 60 anos.

Alguns estados já responderam ao cenário: Mato Grosso do Sul iniciou a quarta dose para idosos, e São Paulo planejava começar em abril. A medida é vista como necessária para cobrir uma vulnerabilidade que as três primeiras doses não conseguem mais sustentar após alguns meses — problema que também afeta pessoas em quimioterapia, imunossuprimidos e portadores de HIV.

Para pesquisadores do Observatório Covid-19 da Fiocruz, o pico da Ômicron já havia passado, e o Brasil vivia uma 'janela de oportunidade' de 30 dias — tempo em que grande parte da população estaria imunizada por vacina ou infecção recente. Intensificar a vacinação nesse período poderia bloquear a circulação do vírus. Mas os especialistas alertavam: esse cenário favorável não autorizava afrouxar restrições. Era, ao contrário, o momento de apertar o cerco para que a oportunidade não se perdesse.

Mais de dois anos após o primeiro caso de covid-19 no Brasil, os idosos voltaram a morrer em proporções alarmantes. A mudança é abrupta e clara nos dados dos maiores hospitais de referência do país. No início de fevereiro, entre 70% e 90% dos óbitos ocorriam entre pessoas não vacinadas ou com esquema incompleto. Três semanas depois, esse número caiu pela metade — mas não porque a vacinação funcionava. Agora, metade das mortes acontecia entre idosos que haviam completado três doses, a maioria deles vacinada em novembro, quatro meses antes.

A explicação está em um fenômeno biológico chamado imunosenescência. Pessoas acima de 70 anos simplesmente não geram a mesma resposta imunológica que o resto da população. As vacinas, desenvolvidas para o vírus original, ofereciam proteção acima de 80% contra infecções leves e acima de 90% contra casos graves e morte. Mas com a Ômicron, essa proteção desabou para os casos mais leves — embora tenha se mantido acima de 80% para morte. O problema é que essa proteção cai ainda mais após quatro ou cinco meses da vacinação completa. No Espírito Santo, um dos poucos estados que fez levantamento detalhado, a taxa de mortalidade entre idosos completamente vacinados era 35 vezes maior que entre não idosos com o mesmo esquema.

O infectologista Alexandre Naime Barbosa, da Faculdade de Medicina da Unesp em Botucatu, resumiu a mudança de perfil das vítimas: nas primeiras semanas da Ômicron, praticamente 100% dos mortos eram não vacinados, com esquema incompleto ou imunossuprimidos. Agora, esse grupo representa metade. Os outros 50% são idosos com três doses, mas cuja imunidade começou a cair. A infectologista Ethel Maciel, da Universidade Federal do Espírito Santo, explicou que as vacinas foram desenvolvidas para o Sars-CoV-2 anterior às mutações. Com o surgimento de novas variantes, houve redução significativa da proteção, especialmente para infecções leves.

A idade média das vítimas subiu em todo lugar. Nos Estados Unidos, onde a população é mais envelhecida que a brasileira, a idade média dos mortos por covid antes da Ômicron era 68,4 anos. Depois, passou para 74,2 anos. No Brasil, a idade média de internação pré-Ômicron era 57,4 anos e subiu para 62,5, com mais de 70% dos casos de internação acima dos 60 anos. O número de óbitos voltou a ultrapassar mil vítimas diárias em meados de fevereiro, embora a letalidade geral tenha permanecido baixa — entre 0,4% — revelando o efeito protetor da vacinação em massa.

Alguns estados já começaram a responder. Mato Grosso do Sul iniciou a aplicação da quarta dose nos idosos, e São Paulo planejava começar em abril. Botucatu também já havia começado. A quarta dose surge como resposta necessária a uma vulnerabilidade que as três primeiras doses não conseguem mais cobrir após alguns meses. O fenômeno não é exclusivo dos idosos: pessoas submetidas a quimioterapia, em uso de medicações imunossupressoras, portadores de imunodeficiências, pessoas vivendo com HIV e aquelas em uso crônico de altas doses de corticoide enfrentam o mesmo problema.

Para Raphael Guimarães, pesquisador do Observatório Covid-19 da Fiocruz, o pico da Ômicron já havia ficado para trás quando a reportagem foi publicada, com redução nos números de novos casos e mortes. O Brasil atravessava o que os pesquisadores chamam de "janela de oportunidade" — os próximos 30 dias em que a grande maioria da população estaria imunizada, seja por vacinação ou por infecção recente. Se conseguissem alavancar a vacinação, particularmente a quarta dose para idosos, seria possível reunir um conjunto tão grande de pessoas imunes que poderia bloquear a circulação do vírus. Mas Guimarães alertava que esse cenário favorável ainda não permitia flexibilizar as medidas de restrição nem autorizar eventos de aglomeração. Era hora de intensificar as restrições para que o vírus não conseguisse se espalhar.

Nas primeiras três semanas da disseminação da Ômicron, praticamente 100% dos mortos eram não vacinados, com esquema incompleto ou imunossuprimidos. Agora, esse grupo representa 50% dos mortos, os outros 50% são idosos já com as três doses; a diferença é que eles tomaram essa 3ª dose há mais de três meses e a imunidade deles começou a cair.
— Alexandre Naime Barbosa, infectologista da Faculdade de Medicina da Unesp
Se conseguirmos alavancar a vacinação, vamos reunir um conjunto tão grande de pessoas imunes que é possível pensar em bloquear a circulação do vírus, diminuindo os casos e óbitos.
— Raphael Guimarães, pesquisador do Observatório Covid-19/Fiocruz
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