Morre último homem indígena da etnia Juma vítima de covid-19

Morte de Amoim Aruká Juma, último homem da etnia, marca o desaparecimento de uma linhagem indígena após séculos de massacres e vulnerabilidade à pandemia.
A etnia Juma deixa de existir como linhagem masculina
Com a morte de Amoim Aruká, o último homem da etnia, uma linhagem indígena se extingue após séculos de massacres e resistência.
Mark

Por que a morte de um cacique específico importa tanto? Não há outros povos indígenas?

Mimi

Importa porque Amoim Aruká era literalmente o último homem da etnia Juma. Quando ele morreu, uma linhagem inteira desapareceu. Suas filhas continuam vivas, mas casadas com homens de outra etnia — a identidade Juma, como povo distinto, se extinguiu.

Luke

Mas tecnicamente a etnia não desapareceu completamente, certo? As filhas dele, os netos, eles carregam sangue Juma.

Mimi

Verdade, mas há uma diferença entre sangue e continuidade cultural. A língua, as práticas, a transmissão direta — tudo isso passa pelo homem mais velho. Aruká era o guardião vivo dessa história.

Mark

E como ele chegou a ser o último? Isso não aconteceu da noite para o dia.

Mimi

Não. A etnia tinha 15 mil pessoas no início do século 20. Massacres sucessivos a reduziram drasticamente. O pior foi em 1964, quando mais de 60 foram mortos a tiros por comerciantes interessados na sorva e castanha do território deles.

Luke

Então a covid-19 não foi o único assassino. Mas as organizações indígenas usaram exatamente essa palavra — "assassinado" — para descrever a morte dele.

Mimi

Porque veem uma continuidade. Séculos de violência, negligência estatal, falta de proteção. A pandemia chegou a um povo já extremamente vulnerável, e o governo não fez nada de comprovado para protegê-lo.

Mark

Ele estava internado, recebeu tratamento médico. Como isso é negligência?

Luke

Boa pergunta. A questão é se o governo fez algo preventivo antes dele adoecer. As organizações dizem que alertaram sobre o risco extremo e nada foi feito.

Mimi

E os números sustentam isso. Mais de 34 mil indígenas amazônicos infectados, 783 mortos em 107 etnias diferentes. Não é um problema isolado.

Mark

Então a morte dele é um sintoma de algo maior.

Mimi

Exatamente. É o ponto final visível de uma vulnerabilidade que vinha sendo ignorada.

  • Amoim Aruká Juma, 86-90 anos, morreu em 17 de fevereiro de 2021 em Porto Velho por insuficiência respiratória causada pela covid-19
  • Etnia Juma reduzida de 15 mil pessoas no início do século 20 para cinco em 2002, após massacres sucessivos, incluindo um em 1964 que matou mais de 60 indígenas
  • Sobrevivem apenas três filhas do cacique, casadas com homens da etnia Uru-Eu-Wau-Wau, deixando 14 netos e bisnetos
  • 34.529 indígenas amazônicos infectados pela covid-19, com 783 mortes em 107 etnias; no Amazonas, 8.674 infectados e 252 óbitos em 38 etnias

O cacique faleceu após internação em UTI, tendo contraído o vírus em janeiro junto com 12 parentes, com piora crítica em fevereiro. A etnia Juma foi reduzida de 15 mil indígenas no século 20 para cinco pessoas em 2002, após massacres históricos, incluindo um em 1964 que matou mais de 60 pessoas.

Amoim Aruká Juma, cacique e último homem da etnia Juma, morre aos 86-90 anos por insuficiência respiratória causada pela covid-19 em Porto Velho. A etnia sobrevive apenas através de suas três filhas casadas com indígenas de outra etnia.

Amoim Aruká Juma morreu na manhã de 17 de fevereiro em um hospital de Porto Velho, vítima de insuficiência respiratória aguda causada pela covid-19. Ele tinha entre 86 e 90 anos e era o último homem vivo da etnia Juma, um povo indígena que habitou a região amazônica por séculos. Seu corpo foi levado para a aldeia Juma, em Canutama, no Amazonas, onde foi enterrado em cerimônia reservada à família e a caciques de etnias vizinhas. Com sua morte, a etnia Juma deixa de existir como linhagem masculina — agora sobrevive apenas através de suas três filhas, Borehá, Maitá e Mandeí, que se casaram com homens da etnia Uru-Eu-Wau-Wau, também falantes de tupi kagwahiva. Esses casamentos foram uma estratégia deliberada para evitar o desaparecimento completo do povo. Aruká deixa 14 netos e bisnetos, além de uma filha de um relacionamento anterior com uma mulher Uru-Eu-Wau-Wau.

O cacique contraiu o novo coronavírus na primeira quinzena de janeiro, junto com 12 parentes próximos. No dia 17 daquele mês, seu estado de saúde se deteriorou e foi internado no hospital regional de Humaitá, município vizinho. Durante semanas, passou por sucessivas internações e conseguiu receber alta médica, mas em 2 de fevereiro seu quadro se agravou drasticamente. Precisou ser transferido para leito de UTI e levado ao hospital de campanha Regina Pacis, em Porto Velho, na região sul do Amazonas. A Secretaria Especial de Saúde Indígena registrou uma melhora no dia 7 de fevereiro, mas oito dias depois Aruká sofreu um choque séptico — uma infecção generalizada — e precisou ser intubado novamente. Pouco antes dessa piora final, ele pediu à filha mais velha, Borehá, que seu corpo fosse enterrado no local onde havia construído a primeira maloca da aldeia Juma, onde também estava enterrada a mãe de Borehá.

A história do povo Juma é marcada por séculos de violência e redução populacional. No início do século 20, a etnia contava com aproximadamente 15 mil pessoas. Ao longo das décadas, sofreu inúmeros massacres que dizimaram sua população. O mais devastador ocorreu em 1964, no rio Assuã, na bacia do rio Purus. Comerciantes de Tapauá, interessados na sorva e castanha que existiam no território Juma, contrataram assassinos que mataram a tiros mais de 60 indígenas da etnia. Apenas sete pessoas sobreviveram àquele massacre. Amoim Aruká foi um desses sobreviventes e dedicou sua vida a garantir a continuidade de seu povo. Lutou pela demarcação do território Juma, que só foi homologado em 2004. Na década de 2000, quando a etnia estava à beira do desaparecimento — reduzida a apenas cinco pessoas em 2002 — conseguiu que suas filhas se casassem com homens Uru-Eu-Wau-Wau, permitindo que a população crescesse novamente através de gerações mestiças.

Organizações indígenas nacionais e internacionais responsabilizaram o governo federal pela morte de Aruká. A Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira), a APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) e o OPI (Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato) emitiram uma nota conjunta afirmando que o cacique foi "assassinado" pelo governo, acusando-o de omissão criminosa e incompetência. As entidades apontaram que haviam alertado previamente que povos indígenas de recente contato estavam em extremo risco durante a pandemia, mas nenhuma medida comprovada teria sido tomada para protegê-los. "O governo assassinou Aruká. Assim como assassinou seus antepassados, é uma perda indígena devastadora e irreparável", declararam as organizações.

A Secretaria Especial de Saúde Indígena e o Distrito Sanitário Especial Indígena de Porto Velho responderam afirmando que adotaram todas as providências possíveis para atender o paciente e que continuam prestando assistência à família do cacique. Manifestaram pesar pela morte e solidariedade aos enlutados. Os números da pandemia entre povos indígenas da Amazônia brasileira revelam a magnitude da crise: segundo dados da Coiab, 34.529 indígenas foram infectados pelo novo coronavírus, com 783 mortes registradas em 107 etnias diferentes. No Amazonas especificamente, 8.674 indígenas contraíram o vírus e 252 óbitos foram confirmados em 38 etnias. A morte de Amoim Aruká Juma marca não apenas o fim de uma linhagem, mas também expõe as vulnerabilidades estruturais que povos indígenas enfrentam diante de crises sanitárias globais.

O governo assassinou Aruká. Assim como assassinou seus antepassados, é uma perda indígena devastadora e irreparável
— Coiab, APIB e OPI em nota conjunta
A Sesai e o Dsei Porto Velho manifestam profundo pesar pelo falecimento desse grande guerreiro e cacique e se solidarizam com amigos e familiares neste momento de luto
— Secretaria Especial de Saúde Indígena e Distrito Sanitário Especial Indígena de Porto Velho
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