Em um país onde a política frequentemente se fragmenta entre personalidades e não entre ideias, o ministro Alexandre de Moraes ergueu sua voz para propor uma reorientação profunda: substituir gradualmente o voto proporcional de lista aberta por um sistema distrital misto, apostando que partidos mais fortes produziriam um Congresso mais capaz de governar. A proposta, enunciada no Tribunal de Contas do Município de São Paulo, carrega o peso de quem ocupa um dos assentos mais influentes da República — mas ainda precisa percorrer o longo caminho entre o auditório e a Constituição.
Moraes defende adoção gradual do voto distrital misto e critica sistema proporcional
O modelo eleitoral faliu porque produz candidatos sem vinculação a partidos
Por que o ministro acredita que o sistema proporcional faliu especificamente?
Porque produz candidatos e eleitos sem vínculo real com seus partidos. Eles usam a legenda como plataforma, mas sua lealdade é ao próprio nome, à própria campanha. O partido vira quase um detalhe.
E o voto distrital misto resolveria isso?
Na teoria, sim. Se você é eleito por um distrito específico, você tem raízes ali. E se parte das vagas é preenchida por listas fechadas, o partido volta a ter poder real sobre quem entra no Congresso.
Qual é o risco de uma transição tão gradual — 30%, depois 40%?
Que ela nunca termine. Cada eleição, os que se beneficiam do sistema atual podem frear o aumento. Além disso, um Congresso dividido entre dois sistemas pode ficar ainda mais confuso.
Moraes mencionou a Constituição como base para democracia partidária. Isso é verdade?
É o que ele acredita. A Constituição de 1988 foi pensada com partidos em mente. Mas a realidade política evoluiu de forma diferente — os candidatos individuais ganharam poder que a Constituição não previu.
Quem se oporia a essa mudança?
Candidatos que ganham votos pessoais fortes, independentemente do partido. Também partidos pequenos que se beneficiam do sistema atual. E qualquer um que veja risco em fortalecer ainda mais as máquinas partidárias.
Isso precisa de emenda constitucional?
Pode precisar, dependendo de como for desenhado. Se for só mudar a lei eleitoral, talvez não. Mas se mexer na estrutura fundamental de como representantes são eleitos, aí sim.
El Pulso
- Moraes diagnostica uma crise silenciosa: o sistema proporcional atual fabrica políticos sem partido, candidatos que usam legendas como disfarce e governam como marcas pessoais.
- A proposta de transição gradual — começando em 30% distrital e avançando a cada eleição — tenta evitar o choque de uma ruptura abrupta com décadas de cultura eleitoral.
- A adoção de listas fechadas na parcela proporcional é a aposta mais ousada: tirar do eleitor o poder de escolher o candidato e devolvê-lo ao partido, invertendo uma lógica enraizada.
- O Congresso, principal alvo da crítica, é também o único capaz de aprovar a mudança — uma tensão que torna a proposta politicamente delicada e institucionalmente complexa.
- Sem projeto legislativo concreto nem detalhamento técnico, a ideia permanece no plano do debate, aguardando o momento em que intenção e viabilidade se encontrem.
Em um país onde a política frequentemente se fragmenta entre personalidades e não entre ideias, o ministro Alexandre de Moraes ergueu sua voz para propor uma reorientação profunda: substituir gradualmente o voto proporcional de lista aberta por um sistema distrital misto, apostando que partidos mais fortes produziriam um Congresso mais capaz de governar. A proposta, enunciada no Tribunal de Contas do Município de São Paulo, carrega o peso de quem ocupa um dos assentos mais influentes da República — mas ainda precisa percorrer o longo caminho entre o auditório e a Constituição.
Na segunda-feira, o ministro Alexandre de Moraes subiu ao palco do Tribunal de Contas do Município de São Paulo para defender uma transformação no modo como o Brasil escolhe seus representantes. A proposta não é nova em sua trajetória — vem dos tempos de promotor —, mas ganhou peso ao ser enunciada por um dos magistrados mais influentes do país: abandonar gradualmente o sistema proporcional em favor do voto distrital misto.
Para Moraes, o sistema proporcional falhou não em eleger pessoas, mas em produzir uma classe política vinculada aos partidos. O que ele enxerga é um Congresso repleto de eleitos que tratam suas legendas como meros veículos, priorizando campanhas individuais sobre o debate substantivo de projetos legislativos. Esse descolamento entre representante e partido enfraquece tanto as siglas quanto a capacidade do Congresso de governar.
A solução proposta é uma transição cuidadosa: começaria com 30% das vagas preenchidas pelo sistema distrital e 70% mantidas no proporcional, alterando os percentuais a cada ciclo eleitoral até consolidar a mudança. Na parcela proporcional remanescente, Moraes também defende a adoção de listas fechadas — modelo em que o eleitor vota no partido, não no candidato, e a legenda define previamente a ordem de seus representantes.
O raciocínio de fundo é constitucional: a Constituição brasileira foi pensada para funcionar com partidos fortes e coesos, e reforçá-los poderia reduzir os problemas de governabilidade que afligem o país. Um Congresso com representantes leais a seus partidos seria mais previsível e mais capaz de formar maiorias estáveis.
Moraes, porém, não apresentou proposta legislativa específica nem detalhou a divisão técnica das cadeiras. Qualquer mudança dessa magnitude exigiria aprovação do Congresso e alterações na legislação eleitoral — e, dependendo do modelo, até uma emenda constitucional. A distância entre defender uma ideia em um auditório e transformá-la em lei é considerável, especialmente quando a lei afeta diretamente quem a faz.
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, subiu ao palco do Tribunal de Contas do Município de São Paulo na segunda-feira para defender uma transformação no modo como o Brasil escolhe seus representantes. A proposta que apresentou não é nova em sua trajetória — vem de tempos de promotor — mas ganhou peso ao ser enunciada por um dos magistrados mais influentes do país: abandonar gradualmente o sistema proporcional em favor do voto distrital misto.
Para Moraes, o sistema proporcional atual simplesmente falhou. Não falhou em eleger pessoas, mas em produzir uma classe política vinculada aos partidos. O que ele vê é um Congresso repleto de candidatos e eleitos que tratam suas legendas como meros veículos, priorizando campanhas permanentes e atuação individual sobre o debate substantivo de projetos legislativos. Esse descolamento entre representante e partido, na visão do ministro, enfraquece tanto as siglas quanto a própria capacidade do Congresso de governar.
A solução que Moraes propõe é uma transição cuidadosa, não uma ruptura abrupta. Começaria com 30% das vagas preenchidas pelo sistema distrital — onde candidatos são eleitos em circunscrições geográficas específicas — e 70% mantidas no proporcional. Na eleição seguinte, os números mudariam para 40% e 60%. O padrão é claro: a cada ciclo eleitoral, mais peso ao distrital até que a mudança se consolidasse.
Na parcela que permaneceria proporcional, Moraes também sugere a adoção de listas fechadas. Nesse modelo, o eleitor vota no partido, não em candidatos individuais, e a legenda define previamente a ordem de seus representantes. Para o ministro, essa mudança reforçaria o papel das siglas, transformando-as de novo em atores centrais da política, não em simples rótulos que candidatos vestem e despem conforme convém.
O raciocínio de fundo é constitucional. Moraes argumenta que a Constituição brasileira se funda em uma democracia partidária — o sistema foi pensado para funcionar com partidos fortes e coesos. Se as legendas fossem reforçadas, ele acredita que muitos dos problemas de governabilidade que afligem o país diminuiriam. Um Congresso onde os representantes têm lealdade real aos seus partidos é um Congresso mais previsível, mais capaz de formar maiorias estáveis.
O sistema atual, para contexto, funciona assim: o Brasil usa lista aberta para eleger deputados federais, estaduais, distritais e vereadores. Os votos dados a candidatos e legendas determinam quantas cadeiras cada partido recebe. As vagas são preenchidas pelos candidatos mais votados que alcancem ao menos 10% do quociente eleitoral em votos nominais. É um sistema que premia o voto pessoal e permite que candidatos com grande penetração local ganhem espaço mesmo que seus partidos não os apoiem formalmente.
Mas Moraes não apresentou uma proposta legislativa específica nem detalhou como exatamente as cadeiras seriam divididas entre os dois sistemas. Isso importa porque qualquer mudança dessa magnitude exigiria aprovação do Congresso e alterações na legislação eleitoral — e dependendo do modelo escolhido, poderia ser necessária até uma emenda constitucional. A distância entre defender uma ideia em um auditório e transformá-la em lei é considerável, especialmente quando a lei afeta diretamente quem a faz.
Citas Notables
Eu defendo há muito tempo, desde o tempo de promotor. Eu defendo que o Brasil saia do proporcional e vá para o distrital misto— Alexandre de Moraes, ministro do STF
Esse modelo eleitoral faliu porque produz candidatos e eleitos que não têm vinculação nenhuma a partidos— Alexandre de Moraes