Ministério da Saúde amplia vacinação contra HPV para meninos de 9 e 10 anos

Mais de 6 mil brasileiras morreram de câncer de colo de útero em 2019, doença evitável com vacinação e rastreamento.
Uma morte evitável, na maioria dos casos, com vacinação e rastreamento
Reflexão sobre o impacto do câncer de colo de útero no Brasil e a disponibilidade de proteção.
Mark

Por que o ministério decidiu incluir meninos de 9 e 10 anos agora? Isso muda algo na prática?

Mimi

Muda porque iguala a idade de início para meninos e meninas. Antes, meninas podiam se vacinar aos 9, mas meninos só aos 11. A ideia é facilitar campanhas nas escolas e aumentar a cobertura, já que muita gente não sabe que homens também precisam se proteger.

Luke

Mas a cobertura já é baixa. Apenas 36% dos meninos completavam o esquema em 2019. Expandir a faixa etária resolve isso?

Mimi

Não resolve sozinho. O problema real é a desinformação. Muitos pais acreditam que a vacina causa problemas neurológicos ou que incentiva vida sexual precoce. Nenhuma dessas coisas é verdade.

Mark

E quanto àqueles casos no Acre com convulsões? Não havia algo real ali?

Luke

Havia sofrimento real, mas não causado pela vacina. Psiquiatras da USP analisaram e concluíram que era doença psicogênica — sintomas com origem emocional, não biológica. Mas o caso virou manchete e alimentou o pânico.

Mimi

Exatamente. E agora temos 7 em cada 10 pessoas acreditando em informações imprecisas sobre vacinas. O movimento antivacinista ganhou força na pandemia.

Mark

Então a expansão da faixa etária é mais um sinal de esperança do que uma solução garantida?

Luke

É um passo necessário, mas incompleto. Austrália e Ruanda conseguiram altas coberturas porque tiveram campanhas bem estruturadas e comunicação clara. Aqui, sem combater a desinformação, pode não funcionar.

Mimi

Verdade. E é triste porque o câncer de colo de útero matou mais de 6 mil brasileiras em 2019. É evitável.

  • Meninos de 9 e 10 anos agora podem receber a vacina contra HPV pelo SUS, igualando a idade com meninas
  • Apenas 55% das meninas e 36,4% dos meninos completaram o esquema vacinal em 2019
  • Mais de 6 mil brasileiras morreram de câncer de colo de útero em 2019
  • Pesquisa de 2019 mostrou que 7 em cada 10 pessoas acreditam em informações imprecisas sobre vacinas

Meninos de 9 e 10 anos agora podem receber a vacina contra HPV pelo SUS, igualando a idade com meninas e ampliando o acesso à proteção. A cobertura vacinal permanece baixa: apenas 55% das meninas e 36,4% dos meninos completaram o esquema vacinal em 2019.

O Ministério da Saúde expandiu a faixa etária de vacinação contra HPV, incluindo meninos de 9 e 10 anos. A medida visa aumentar a cobertura vacinal, que está abaixo dos 80% recomendados.

O Ministério da Saúde reformulou seu calendário de vacinação contra o HPV em setembro de 2022, abrindo o acesso a meninos de 9 e 10 anos de idade. Até então, apenas rapazes a partir dos 11 anos podiam receber a vacina gratuitamente pelo SUS, enquanto meninas nessa faixa etária já tinham direito garantido. A mudança iguala a idade de início para ambos os sexos e marca uma tentativa de ampliar a proteção contra um vírus que causa múltiplas formas de câncer.

A decisão reflete uma realidade incômoda: a cobertura vacinal contra o HPV no Brasil permanece significativamente abaixo do patamar de 80% recomendado pelo próprio ministério. Em 2019, apenas 55% das meninas que deveriam receber as duas doses completaram o esquema. Entre os meninos, o número era ainda mais desalentador — apenas 36,4% tomaram ambas as doses. Essa lacuna na proteção ocorre apesar de o câncer de colo de útero, doença causada principalmente pelo HPV, ter matado mais de 6 mil brasileiras naquele ano, segundo dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade. É uma morte evitável, na maioria dos casos, com vacinação e rastreamento.

Muitos pais desconhecem que meninos também precisam se vacinar contra o vírus. A razão é dupla: homens podem transmitir o HPV para seus parceiros e parceiras, e o vírus causa doenças em homens também — câncer de pênis, ânus, uretra e garganta, além de condiloma, as verrugas genitais que afetam cerca de 10% da população em algum momento da vida. O preservativo reduz o risco de transmissão, mas não o elimina, pois não impede o contato entre as mucosas que podem carregar o vírus. A vacina oferece proteção mais robusta e, biologicamente, funciona melhor quando aplicada em crianças, antes do contato com o vírus, porque a resposta imunológica é mais efetiva nessa idade.

Um mito persistente afirma que vacinar crianças contra uma infecção sexualmente transmissível as incentivaria a iniciar a vida sexual mais cedo. Não há qualquer evidência científica para essa crença. A vacinação precoce é puramente uma questão de biologia imunológica. Países que implementaram campanhas bem estruturadas demonstram o poder dessa proteção. A Austrália projeta erradicar o câncer de colo de útero até 2028. Ruanda conseguiu vacinar 94% das meninas e espera reduzir drasticamente a mortalidade por essa doença, que historicamente é mais comum em países pobres.

Mas a expansão do programa enfrenta um adversário invisível: a desinformação. Poucas vacinas foram alvo de campanhas de desinformação tão intensas quanto a do HPV. Entre 2014 e 2017, pesquisadores do Instituto de Psiquiatria da USP avaliaram 74 casos de jovens no Acre que relatavam sintomas como convulsões e desmaios supostamente ligados à vacina. Os psiquiatras Renato Luiz Marchetti e José Gallucci Neto analisaram os 16 casos mais graves e concluíram que a maioria havia desenvolvido doença psicogênica — uma condição funcional do sistema nervoso associada a estresse emocional, não a dano orgânico causado pela vacina. Os pacientes sofriam de fato, mas os sintomas tinham origem psíquica, não biológica. Ainda assim, o caso ganhou repercussão na mídia e causou pânico entre os pais.

Esse episódio abriu espaço para uma onda maior de desinformação. O movimento antivacinista, que era incipiente no Brasil mas ganhou força durante a pandemia de covid-19, elegeu a vacina contra o HPV como um de seus alvos preferenciais. Uma pesquisa de 2019 da Sociedade Brasileira de Imunizações e da Avaaz com 2 mil pessoas acima de 16 anos revelou que 7 em cada 10 acreditavam em pelo menos uma informação imprecisa sobre vacinas. Esse dado ilustra o desafio que profissionais de saúde enfrentam: a necessidade de abordar o tema sempre que possível, mesmo em atendimentos para outras questões, e de ampliar a comunicação das campanhas de vacinação com informações confiáveis que estimulem a adesão. A expansão da faixa etária é um passo, mas sem combater a desinformação, a cobertura pode continuar estagnada.

Trata-se de uma doença funcional do sistema nervoso, associada a uma situação de estresse emocional, no caso a vacinação. O paciente não inventa a doença, ele sofre de fato, mas os sintomas, embora estejam relacionados ao evento da vacinação, não são de forma nenhuma causados pelo imunizante
— José Gallucci Neto, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria da USP
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