Mineradoras buscam na Ufes identificar terras raras no Espírito Santo

O segredo não é encontrar a terra rara. O segredo é separar.
Pesquisador da Ufes explica por que o desafio brasileiro vai além da descoberta de depósitos minerais.
Mark

Por que as mineradoras não conseguem identificar essas terras raras sozinhas?

Mimi

Porque não é uma questão de geologia básica. Você precisa de fluorescência de raios X, técnicas nucleares, laboratórios especializados. É um conhecimento que vai muito além do levantamento convencional.

Mark

E o Espírito Santo realmente tem esses minerais?

Mimi

Tem potencial real, especialmente nas areias monazíticas do litoral. Mas o que importa não é ter — é saber o que fazer com isso.

Mark

Qual é então o verdadeiro desafio?

Mimi

Separar, processar, transformar em valor. O Brasil sabia fazer isso nos anos 1960. Depois perdeu continuidade. Enquanto isso, a China dominou o mercado mundial.

Mark

Se as mineradoras extraem, por que não deixar que elas processem também?

Mimi

Porque elas não investem em refinamento. Querem extrair rápido, gastar pouco, lucrar muito. Com terras raras isso não funciona — exige tecnologia sofisticada.

Mark

Então qual seria o modelo certo?

Mimi

Agregar valor aqui. Transformar o mineral em componentes, em materiais de alto desempenho, em tecnologia. É isso que gera riqueza de verdade.

Mark

E os impactos ambientais?

Mimi

Dependem da tecnologia. Você pode processar a areia e devolver o restante ao ambiente. O problema é quando se faz mineração sem investir em tecnologia — aí sim deixa passivo ambiental.

  • Mineradoras de rochas ornamentais, granito e areia encaminham amostras à Ufes para análise de cério, samário e ítrio
  • Espírito Santo possui potencial em areias monazíticas do litoral, conhecidas há décadas pela presença de terras raras
  • China controla a maior parte da capacidade mundial de processamento desses elementos
  • Brasil desenvolveu tecnologia de processamento nos anos 1960, mas perdeu continuidade
  • Interesses internacionais de EUA, China e Japão buscam participar da cadeia produtiva brasileira

Mineradoras de rochas ornamentais e areia encaminham amostras à universidade para análise de elementos estratégicos como cério, samário e ítrio. Espírito Santo possui potencial em areias monazíticas do litoral, mas Brasil carece de estratégia nacional para processar terras raras e agregar valor.

Empresas de mineração no Espírito Santo procuram a Ufes para identificar terras raras em áreas de extração. Pesquisador alerta que o desafio brasileiro é desenvolver tecnologia de processamento, não apenas encontrar depósitos.

As mineradoras que operam no Espírito Santo começam a bater à porta da Universidade Federal do Estado em busca de respostas sobre um recurso que o mundo inteiro quer: terras raras. Empresas ligadas à extração de rochas ornamentais, granito e areia estão encaminhando amostras para análise especializada, tentando descobrir se nos seus lotes de mineração existem elementos como cério, samário e ítrio — minerais que alimentam a indústria de alta tecnologia e a transição energética global.

Marcos Tadeu Orlando, físico nuclear e professor do Departamento de Física da Ufes, é quem recebe essas demandas. Representante da universidade no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Terras Raras, ele explica que as mineradoras não conseguem fazer essa identificação sozinhas. É preciso fluorescência de raios X, técnicas nucleares, equipamentos e conhecimento que vão muito além do levantamento geológico convencional. O Espírito Santo, segundo ele, possui potencial real para essas ocorrências, especialmente nas areias monazíticas do litoral sul, onde há décadas se conhece a presença de minerais que concentram esses elementos estratégicos. Pesquisas também apontam ocorrências em outras regiões do Estado, embora Orlando prefira não detalhar os locais antes que os levantamentos se completem.

Mas aqui está o ponto que Orlando não cansa de repetir: encontrar terras raras não é o desafio do Brasil. O desafio é separá-las, processá-las, transformá-las em algo de valor. Nos anos 1960, o país já dominava essa tecnologia de processamento. Depois veio a descontinuidade — um governo investe, o próximo abandona, e enquanto isso outros países avançam. Hoje, a China controla a maior parte da capacidade mundial de processamento desses elementos, enquanto Estados Unidos, União Europeia e outras potências buscam desesperadamente novas fontes de fornecimento. Terras raras entram em tudo: motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, chips, equipamentos médicos, lasers, LEDs, celulares, radares, sistemas de navegação, aplicações aeroespaciais e de defesa.

O que Orlando teme é que o Brasil repita seu padrão histórico: extrair matéria-prima, exportá-la bruta, importar produtos industrializados. As mineradoras, diz ele, investem em tecnologia de extração, não em refinamento. Querem tirar o máximo de recurso gastando o mínimo, obtendo o maior lucro possível. Com terras raras, esse modelo não funciona. Não é como minério de ferro ou ouro, onde você encontra um filão pronto. Terras raras aparecem misturadas a outros minerais e precisam ser separadas — esse processo é o grande segredo tecnológico. Exploração predatória não faz sentido aqui. O que gera riqueza é agregar valor localmente, transformar esses minerais em tecnologia, em componentes, em materiais de alto desempenho.

Enquanto o Brasil ainda debate apenas a abertura de novas áreas para mineração, interesses internacionais já se movem. Grupos dos Estados Unidos, China e Japão acompanham o potencial capixaba e tentam conseguir áreas de mineração a baixo custo. Depois, todo o valor agregado fica no processamento — que acontece fora daqui. Orlando integra um grupo nacional de cientistas que discute alternativas para fortalecer a cadeia tecnológica brasileira e participa de cooperação internacional para aprimorar a caracterização mineralógica desses depósitos. Ele defende que a discussão sobre soberania mineral, que ganhou força com a tramitação da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos no Congresso, precisa ir além da extração. O desafio real é transformar esses minerais em desenvolvimento econômico para o país.

Sobre os impactos ambientais, Orlando é claro: dependem inteiramente da tecnologia empregada. Você pode processar a areia, retirar os elementos de interesse e devolver o restante do material ao ambiente. O problema não é a terra rara em si — é quando se faz mineração sem investir em tecnologia, quando se abre uma grande cava e deixa um passivo ambiental permanente. Se existe tecnologia para recuperar o material e devolver praticamente as mesmas características ao solo, esse é o caminho que deve ser seguido.

O Espírito Santo, porém, nunca se empenhou estruturalmente em resolver problemas como o da areia monazítica. Os estudos existentes são, na avaliação de Orlando, insipientes e descontínuos — o que ele chama de trabalho aventureiro. Estados como São Paulo e Rio de Janeiro desenvolveram aptidão diferente. Talvez agora, com o aumento do interesse internacional, o Estado queira desenvolver algo de verdade. A questão que Orlando coloca é simples e fundamental: o Brasil quer continuar exportando matéria-prima ou quer participar da etapa que realmente gera riqueza?

As mineradoras estão me procurando para fazer esse levantamento. Você precisa pegar amostras e descobrir o teor dessas terras raras em cada um dos lotes. Elas não conseguem identificar isso sozinhas, porque são necessárias técnicas especiais, como fluorescência de raios X e técnicas nucleares.
— Marcos Tadeu Orlando, físico nuclear e professor da Ufes
O Brasil precisa decidir se quer continuar exportando matéria-prima ou se quer participar da etapa que realmente gera riqueza. É isso que está em disputa quando falamos de terras raras.
— Marcos Tadeu Orlando
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