Tempo de mercado não elimina o risco financeiro
Em 2025, mais de 1,6 milhão de CNPJs brasileiros carregam dívidas — e o retrato que emerge desafia a ideia de que o endividamento é privilégio dos inexperientes. Microempresas dominam a base por seu peso absoluto no tecido produtivo do país, mas são as empresas com mais de 15 anos de atividade que lideram proporcionalmente os casos, revelando que a maturidade no mercado não é antídoto contra a fragilidade financeira. O que une esses dois grupos aparentemente opostos é a mesma exposição: margens estreitas, crédito seletivo e uma economia que pune com pouca misericórdia qualquer desequilíbrio no fluxo de caixa.
- 1,6 milhão de CNPJs endividados foram mapeados em 2025, gerando mais de 3 milhões de consultas por empresas de cobrança — um volume que sinaliza tensão sistêmica, não casos isolados.
- Microempresas respondem por até 63% dos endividados em estados como Rio de Janeiro e São Paulo, reflexo direto de um tecido empresarial onde elas representam 92% das empresas ativas e operam sem colchão financeiro.
- Empresas com mais de 15 anos de mercado lideram o endividamento em todos os estados avaliados, quebrando a percepção de que dívida é problema de quem ainda está aprendendo a gerir um negócio.
- Varejo de vestuário, construção e transporte de carga concentram os setores mais endividados, unidos pela mesma vulnerabilidade: alta dependência do consumo e custos operacionais que não perdoam contrações de demanda.
- Os valores médios de dívida revelam desigualdade regional expressiva — Santa Catarina registra média de R$ 117 mil por CNPJ, enquanto Minas Gerais e Rio de Janeiro ficam abaixo de R$ 20 mil, espelhando estruturas econômicas distintas.
Um levantamento da Assertiva mapeou o endividamento empresarial brasileiro em 2025 e chegou a uma conclusão incômoda: o problema não está concentrado apenas em negócios jovens e inexperientes. Foram identificados 1.638.645 CNPJs distintos endividados, gerando mais de 3 milhões de consultas por empresas do setor de cobrança. O quadro aponta para uma vulnerabilidade que atravessa tanto quem está começando quanto quem já deveria ter aprendido a atravessar crises.
A predominância das microempresas na base de endividados tem explicação estrutural: elas representam 92% das empresas ativas no Brasil, segundo a Receita Federal. Nos principais estados, responderam por entre 58% e 63% dos CNPJs consultados. Pequenas empresas apareceram na sequência, com participação entre 17% e 19%. O que torna esse grupo particularmente frágil é a ausência de reservas — quando custos sobem, a demanda recua ou clientes atrasam pagamentos, não há margem de manobra.
A surpresa do estudo veio de outro dado: empresas com mais de 15 anos de atividade lideram o endividamento em todos os estados avaliados, chegando a 35,63% dos CNPJs consultados em São Paulo. Hederson Albertini, CEO da Assertiva, interpretou o achado como uma quebra de percepção: empresas maduras também acumulam obrigações, especialmente quando operam com margens reduzidas e enfrentam crédito mais seletivo. Ele acrescentou que negócios mais jovens, paradoxalmente, podem ter menos dívidas simplesmente porque têm menos acesso ao crédito.
Os valores médios variam de forma expressiva entre os estados. Santa Catarina lidera com R$ 117.473,88 por CNPJ, seguida por São Paulo com R$ 110.335,26. Paraná registra R$ 47 mil, enquanto Minas Gerais e Rio de Janeiro ficam abaixo de R$ 20 mil — diferenças que refletem o tamanho médio das empresas e a estrutura econômica de cada região.
Nos setores, o varejo de vestuário lidera com 3,19% dos CNPJs endividados, seguido por construção de edifícios, transporte rodoviário de carga, minimercados e mercearias, e restaurantes. O denominador comum entre eles é a combinação de alta dependência do consumo com custos operacionais elevados — condições que transformam qualquer contração de demanda em ameaça à sobrevivência do negócio.
Um levantamento realizado pela Assertiva mapeou o endividamento empresarial brasileiro em 2025 e chegou a uma conclusão que desafia certas suposições sobre quem mais sofre com dívidas: não são apenas as empresas jovens e inexperientes. O estudo identificou 1.638.645 CNPJs distintos endividados, gerando 3.042.775 consultas feitas por empresas do setor de cobrança. O quadro que emerge é de vulnerabilidade concentrada em dois grupos aparentemente opostos — as microempresas, que mal começam, e as empresas consolidadas, que já deveriam ter aprendido a navegar crises.
A estrutura do tecido empresarial brasileiro explica parte dessa concentração. Segundo a Receita Federal, cerca de 92% das empresas ativas no país são microempresas. Pequenas empresas representam aproximadamente 5%, médias 2% e grandes em torno de 1%. Quando a Assertiva olhou para os principais estados, o padrão se repetiu: microempresas responderam por 63,31% dos CNPJs endividados consultados no Rio de Janeiro, 59,81% em Santa Catarina, 59,49% em São Paulo, 59,41% no Paraná e 58,68% em Minas Gerais. Pequenas empresas apareceram na sequência, com participação entre 17,08% e 19,66%, dependendo do estado.
O que torna essas microempresas particularmente frágeis é a realidade operacional que enfrentam. Muitas delas trabalham com caixa apertado e têm acesso restrito a financiamento em condições razoáveis. Quando os custos oscilam, quando a demanda cai ou quando os clientes atrasam o pagamento, não há colchão financeiro. A Assertiva ressalta que esse cenário reforça a vulnerabilidade dessas empresas menores diante de qualquer perturbação no ambiente econômico.
Mas o estudo revelou algo que surpreendeu: empresas com mais de 15 anos de atividade lideram a base de endividados. Em São Paulo, elas representam 35,63% dos CNPJs consultados; no Rio de Janeiro, 31,95%; em Minas Gerais, 31,86%; no Paraná, 30,92%; e em Santa Catarina, 28,90%. Empresas com 5 a 10 anos de atividade aparecem na sequência, com participação próxima de 22% a 24% nos estados avaliados. Hederson Albertini, CEO da Assertiva, interpretou esse dado como uma quebra de percepção: o endividamento empresarial não está concentrado apenas em negócios jovens. Empresas maduras também acumulam obrigações, principalmente quando operam em ambientes de margem reduzida e crédito mais seletivo. Albertini também observou que negócios mais jovens tendem a ter mais dificuldade de acesso ao crédito — o que pode limitar, inclusive, sua capacidade de se endividar.
Os valores médios de dívida variam significativamente entre os estados. Santa Catarina lidera com R$ 117.473,88, seguida por São Paulo com R$ 110.335,26. O Paraná registra média de R$ 47.094,49, enquanto Minas Gerais e Rio de Janeiro ficam abaixo de R$ 20 mil. Essa disparidade reflete diferenças na estrutura econômica regional e no tamanho médio das empresas em cada estado.
Quanto aos setores, o comércio varejista de artigos do vestuário e acessórios lidera a base de CNPJs endividados consultados, com 3,19%. Construção de edifícios vem em seguida com 2,24%, seguida por transporte rodoviário de carga com 2,23%, varejo de mercadorias em geral com predominância de alimentos — como minimercados, mercearias e armazéns — com 2,11%, e restaurantes e similares com 1,98%. Segundo a Assertiva, esses segmentos compartilham características que os tornam particularmente vulneráveis: alta dependência do consumo, custos operacionais relevantes e necessidade constante de capital de giro. São setores que vivem na corda bamba, onde qualquer contração da demanda ou aumento de custos pode rapidamente transformar uma operação viável em uma operação insustentável.
Notable Quotes
O cenário reforça a vulnerabilidade das empresas menores diante de oscilações de custos, queda na demanda e atrasos nos recebíveis— Assertiva
O dado quebra a percepção de que o endividamento empresarial está concentrado apenas em negócios jovens— Hederson Albertini, CEO da Assertiva
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que empresas com 15 anos ou mais de atividade estão tão endividadas quanto as jovens? Não deveriam ter aprendido a gerenciar melhor?
O tempo de mercado não garante saúde financeira. Essas empresas maduras muitas vezes operam em setores de margem apertada — varejo, construção, transporte — onde os custos crescem mais rápido que a receita. Elas acumulam dívidas porque precisam delas para continuar operando.
E as microempresas? Elas representam 92% das empresas, mas só 58-63% dos endividados. Isso significa que a maioria não está endividada?
Não exatamente. Significa que muitas microempresas nem conseguem se endividar. Bancos não querem emprestar para elas. Então elas operam com o que têm — e quando não têm o suficiente, simplesmente não crescem.
Qual é o setor mais vulnerável?
O varejo de vestuário lidera, mas o padrão é claro: setores que dependem de consumo e precisam de muito capital de giro. Restaurantes, minimercados, lojas de roupas. São negócios que vivem do fluxo de caixa diário.
Se Santa Catarina tem dívida média de R$ 117 mil e Minas Gerais tem R$ 20 mil, o que explica essa diferença?
Provavelmente o tamanho médio das empresas e a estrutura econômica regional. Santa Catarina tem mais indústria e comércio de maior escala. Minas Gerais tem mais microempresas rurais e pequenos negócios.
O que muda se essas empresas conseguissem crédito em melhores condições?
Tudo. Com acesso a financiamento barato, uma microempresa poderia investir em estoque, equipamento, expansão. Mas sem isso, ela fica presa ao ciclo de sobrevivência.