'Meu Filho é um Musical' celebra trajetória de Paulo Gustavo do anonimato ao estrelato

Paulo Gustavo faleceu em 2021 após complicações de infecção por Covid-19, deixando legado significativo na comédia brasileira e representatividade LGBTQIA+.
Não existia uma figura que não precisava pedir desculpas por ser quem era
Pierre Baitelli reflete sobre a importância de Paulo Gustavo como ícone LGBTQIA+ para sua geração.
Mark

Por que agora, cinco anos depois de sua morte, a família decide contar essa história em forma de musical?

Mimi

Acho que é o momento certo. Paulo deixou um legado tão grande que precisava ser honrado de uma forma que fosse à altura. E quem melhor para contar a história dele do que quem o conhecia de verdade?

Mark

A mãe dele, Déa Lúcia, é praticamente uma personagem tão importante quanto Paulo na narrativa. Como isso funciona no palco?

Mimi

Ela é a âncora emocional de tudo. Em algumas noites, ela mesma sobe ao palco. É como se o público estivesse vendo a história através dos olhos dela — a mãe que criou um artista, que o apoiou, que virou personagem dele.

Mark

Os dois atores que fazem Paulo têm idades muito diferentes. Como isso muda a forma como o público vê o personagem?

Mimi

Cada um traz uma perspectiva diferente. O mais jovem cresceu idolatrando Paulo. O mais velho viveu a mesma época, enfrentou os mesmos desafios. Juntos, eles mostram como Paulo tocou gerações diferentes de formas diferentes.

Mark

Qual é o maior risco de fazer um musical sobre alguém tão único, tão particular no seu jeito de fazer comédia?

Mimi

Tentar imitá-lo. Mas a gente percebeu rápido que isso seria um fracasso. O humor dele vinha do corpo, da voz, de uma energia que não dá para copiar. Então a gente criou algo novo, respeitoso, que honra quem ele era sem tentar ser ele.

Mark

E quanto aos momentos difíceis? A peça toca na saída do armário, nos projetos que não deram certo.

Mimi

Sim. Porque Paulo não era só sucesso. Ele era uma pessoa real, com conflitos, com dúvidas. Contar só a parte bonita seria desonesto com quem ele foi.

  • A morte de Paulo Gustavo em 2021, aos 42 anos, deixou um vazio na comédia brasileira que nenhum prêmio ou recorde de bilheteria consegue preencher sozinho.
  • O desafio de recriar um artista tão singular pressiona os dois atores escalados: imitar seria uma armadilha, mas capturar a energia explosiva e o humor corporal de Paulo exige uma entrega quase física.
  • A produção carrega uma tensão íntima — Déa Lúcia, a mãe real, sobe ao palco em algumas sessões para interpretar a si mesma, tornando a homenagem algo entre teatro e ritual familiar.
  • O espetáculo não se esquiva dos momentos difíceis: a saída do armário, os projetos fracassados e os conflitos pessoais entram na trama ao lado dos triunfos que venderam dezenas de milhões de ingressos.
  • Após estreia no Rio de Janeiro, o musical se instala no Teatro Renault de agosto a outubro, levando a São Paulo uma narrativa que é ao mesmo tempo biografia, despedida e declaração de amor.

Cinco anos após a morte de Paulo Gustavo, sua mãe e sua irmã transformam a trajetória do comediante em espetáculo musical, devolvendo ao palco a história de quem havia imortalizando a própria família na arte. 'Meu Filho é um Musical' chega a São Paulo em agosto, completando um ciclo simbólico: o filho que criou Dona Hermínia agora é retratado por aquela que o inspirou. É o gesto raro de uma família que encontrou na criação artística uma forma de luto, memória e celebração ao mesmo tempo.

'Meu Filho é um Musical' chega a São Paulo em agosto com uma proposta que vai além da homenagem convencional: contar a vida inteira de Paulo Gustavo — da infância em Niterói ao estrelato nacional — pelas mãos de quem mais o conheceu. O espetáculo foi criado por Déa Lúcia, sua mãe, e Ju Amaral, sua irmã, com co-direção de João Fonseca, o mesmo diretor de 'Minha Mãe é uma Peça' em 2006. A simetria é deliberada: Paulo imortalizou Déa no palco através de Dona Hermínia; agora ela retribui contando a história do filho. Em algumas sessões, ela própria interpreta a si mesma.

A trama não se limita aos momentos de glória. Passa pela saída do armário, por projetos que não deram certo e pelos conflitos que moldaram o artista, além dos sucessos que transformaram Paulo em fenômeno — os filmes de Dona Hermínia somaram mais de 25 milhões de ingressos vendidos. A trilha sonora mistura composições originais com canções que marcaram a vida do personagem.

Dois atores alternam no papel principal: João Pedro Chaseliov, de 21 anos, e Pierre Baitelli, de 42. Ambos chegaram à mesma conclusão: imitar seria um erro. 'Ele era muito explosivo, e eu sou uma pessoa de pressão baixa. Não podia ir pela imitação', explica Baitelli. Chaseliov, que cresceu consumindo Paulo Gustavo, identificou algo mais técnico: 'É um humor que vem do corpo, meio Charlie Chaplin, com diferentes registros vocais — uma construção muito rica.'

Para além do riso, o que o musical propõe é resgatar a pessoa por trás do sorriso explosivo — inclusive sua importância como ícone LGBTQIA+ numa geração que, segundo Baitelli, não tinha figuras que 'não precisavam pedir desculpas por ser quem eram'. Paulo Gustavo morreu em maio de 2021, aos 42 anos, vítima de complicações da Covid-19. O espetáculo fica em cartaz no Teatro Renault até meados de outubro.

Vinte anos depois que Paulo Gustavo levou Dona Hermínia aos palcos pela primeira vez, sua mãe e sua irmã agora contam sua história inteira em forma de musical. "Meu Filho é um Musical" chega a São Paulo em agosto, trazendo desde a infância do comediante em Niterói até o momento em que se tornou um dos maiores nomes da comédia brasileira — e tudo isso enquadrado pela perda que marcou 2021, quando Paulo morreu aos 42 anos, vítima de complicações da Covid-19.

O espetáculo estreou no Rio de Janeiro no fim de maio e agora se instala no Teatro Renault, no centro de São Paulo, de 20 de agosto até meados de outubro. A trama não se limita aos momentos de glória. Ela passa pelos primeiros experimentos no teatro, pela ascensão que o tornou famoso em todo o país, mas também pelos conflitos que marcaram sua vida — a saída do armário, os projetos que não funcionaram, como a peça "Infraturas" ao lado de Fábio Porchat. A trilha sonora mistura composições originais criadas para o musical com canções que o personagem ouvia, incluindo sucessos do pop internacional.

O projeto nasceu de um lugar muito particular. Déa Lúcia, a mãe, e Ju Amaral, a irmã, criaram o musical juntas, com João Fonseca na co-direção — o mesmo João Fonseca que dirigiu "Minha Mãe é uma Peça" em 2006. Há uma simetria nessa escolha: Paulo Gustavo imortalizou sua mãe em Dona Hermínia, um papel que o indicou ao prêmio Shell de melhor ator e o colocou no radar da crítica e do público. Agora, Déa retribui a homenagem contando a vida do filho. Em algumas sessões, ela própria sobe ao palco para interpretar a si mesma; em outras, a atriz Stella Maria Rodrigues a substitui.

Dois atores alternam no papel de Paulo Gustavo: João Pedro Chaseliov, de 21 anos, e Pierre Baitelli, de 42. Ambos enfrentaram o mesmo desafio — e chegaram à mesma conclusão. Não se trata de imitar. "Acho que o nosso grande desafio é trazer a energia dele. Para mim, foi particularmente difícil. Ele era um cara muito explosivo, e eu sou uma pessoa de pressão baixa. Para achar esse tom, eu não podia ir por uma imitação", explica Baitelli. Chaseliov, que ganhou notoriedade durante a pandemia gravando vídeos em que imitava sua mãe no estilo de Paulo, percebeu algo diferente quando começou a trabalhar no musical. "O Paulo tem um tipo de humor que vem do corpo, meio Charlie Chaplin, e usa diferentes registros vocais, é uma construção muito rica."

Os dois atores representam gerações distintas e absorveram Paulo Gustavo de formas diferentes. Para Chaseliov, ele moldou o humor de sua geração inteira. "É com certeza um dos maiores ícones da nossa cultura, não só da nossa comédia. Eu cresci consumindo Paulo Gustavo e sempre levei ele como uma grande referência, não só como humorista, mas como ser humano e ícone LGBTQIA+." Baitelli, que já atuava quando Paulo atingiu o estrelato, fala de algo mais profundo: a ausência de modelos. "Enquanto eu crescia, não existia uma figura que não precisava pedir desculpas por ser quem era, sem se esconder. Nem essa mãe, essa figura da Dona Déa, que aceitava o filho e bradava para todos os cantos: aceitem seus filhos como eles são."

O legado de Paulo Gustavo se estende muito além das risadas. Dona Hermínia, apresentada pela primeira vez em 2004 na peça "O Surto!" e depois desenvolvida no monólogo de 2006, se tornou um fenômeno quando adaptada para o cinema em 2013. O filme vendeu mais de 4 milhões de ingressos. As duas sequências que vieram depois venderam 9 milhões e quase 12 milhões respectivamente, consolidando Paulo como um dos grandes nomes de sua geração. Mas o que "Meu Filho é um Musical" traz agora é algo diferente: não apenas o artista que conquistou multidões, mas a pessoa que viveu por trás daquele sorriso explosivo.

Ele moldou o humor da minha geração. É com certeza um dos maiores ícones da nossa cultura.
— João Pedro Chaseliov, ator
O Paulo tem um tipo de humor que vem do corpo, meio Charlie Chaplin, e usa diferentes registros vocais, é uma construção muito rica.
— João Pedro Chaseliov, ator
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