Merval faz autocrítica sobre voto em Bolsonaro, mas defende segundo turno para constranger Lula

Opor-se a Lula não pode justificar apoiar qualquer candidato
Merval reconhece que o voto útil de 2018 contra o PT não era base suficiente para nenhuma decisão política.
Mark

Merval admite que errou ao votar em Bolsonaro, mas continua criticando Lula. Como isso faz sentido?

Mimi

Ele não está abraçando Lula. Está dizendo que o voto em Bolsonaro foi um erro tático, mas mantém a desconfiança da esquerda. A proposta dele é usar o segundo turno para forçar Lula a negociar com o centro.

Luke

Mas espera — ele está propondo um segundo turno sabendo que Lula provavelmente venceria o primeiro. Isso é realmente uma autocrítica ou é uma estratégia para limitar o poder de Lula?

Mimi

Provavelmente os dois. Ele reconhece que Bolsonaro foi um desastre, mas não quer um governo só do PT. Quer um governo que inclua Ciro e Tebet.

Mark

E ele acha que isso é possível? As pesquisas mostram Lula muito à frente.

Mimi

Ele reconhece que a terceira via não decolou. Mas acredita que um segundo turno forçaria negociações. É uma aposta em como o jogo político funcionaria depois do primeiro turno.

Luke

A questão é: ele está descrevendo o que acha que deveria acontecer ou o que acha que vai acontecer? Porque são coisas diferentes.

Mimi

Ele está claramente prescrevendo. Está dizendo como as coisas deveriam ser, não como ele acha que serão.

Mark

Então é um argumento político, não uma análise.

Mimi

Exatamente. É um colunista tentando influenciar o resultado, não apenas comentar sobre ele.

Luke

E vale notar que ele critica tanto Dilma quanto Bolsonaro, mas não propõe que Lula governe sozinho. Há uma coerência nisso — ele não quer governo de um só lado.

Mark

Mas por que confiar que Lula negociaria com Ciro e Tebet se vencesse o segundo turno?

  • Merval Pereira admite em coluna que apoiar Bolsonaro em 2018 como 'melhor adversário do PT' foi um cálculo que o tempo desmentiu com clareza.
  • A equiparação de Bolsonaro a Dilma Rousseff — dois presidentes incapazes, segundo o colunista — provoca uma ruptura com a lógica do 'voto útil' que justificou escolhas de parte da mídia e das elites em 2018.
  • Mesmo reconhecendo o erro, Pereira não abandona a desconfiança em relação a Lula e ao projeto petista, mantendo uma posição de distância crítica em relação aos dois polos dominantes.
  • A proposta de um segundo turno como ferramenta de pressão — forçando Lula a negociar com Ciro Gomes e Simone Tebet — revela que a autocrítica é também um argumento político para o presente.
  • Com Lula liderando as pesquisas e a terceira via sem tempo de consolidar-se, a coluna tenta influenciar a arquitetura do poder antes mesmo que os votos sejam contados.

Quatro anos depois de apostar que Jair Bolsonaro seria o antídoto ideal ao PT, o colunista Merval Pereira reconhece publicamente o equívoco — mas sua autocrítica não é uma rendição. Escrevendo no O Globo às vésperas do primeiro turno de 2022, Pereira situa Bolsonaro ao lado de Dilma Rousseff como presidentes que nunca deveriam ter ocupado o cargo, e propõe o segundo turno não como vitória de ninguém, mas como instrumento de negociação que force o centro político a ter voz num eventual governo Lula. É a confissão de um erro que, ao ser enunciada, já carrega dentro de si uma nova aposta.

Merval Pereira, colunista do O Globo, publicou nesta quinta-feira uma autocrítica que chegou tarde, mas chegou com peso: em 2018, ele apostou que Bolsonaro seria o melhor instrumento para conter o PT. Quatro anos depois, diante de um mandato que descreve como marcado por incompetência e falta de compostura, ele admite que a lógica não se sustentou.

A confissão é direta, mas tem contornos precisos. Pereira equipara Bolsonaro a Dilma Rousseff — dois presidentes que, em sua avaliação, nunca mereceram o cargo. Dilma foi levada ao poder por Lula e se mostrou incapaz de governar; Bolsonaro foi elevado pela rejeição ao petismo a um lugar onde nunca deveria ter chegado. O 'voto útil', conclui o colunista, não era explicação suficiente para nada.

Mas a autocrítica tem limites claros. No mesmo texto em que reconhece o erro, Pereira propõe uma estratégia voltada ao presente: defender um segundo turno nas eleições de 2022 — não para que Bolsonaro vença, mas para forçar Lula a negociar com candidatos de centro como Ciro Gomes e Simone Tebet. O objetivo declarado é construir um governo de amplo espectro, que não seja apenas expressão da esquerda petista.

O colunista reconhece que Ciro e Tebet cresceram nas pesquisas recentes, mas avalia que não há mais tempo para a terceira via consolidar-se como alternativa viável. Sua proposta é então pragmática: usar o segundo turno como alavanca de negociação política. A coluna, portanto, não é apenas uma reflexão sobre um voto de quatro anos atrás — é um argumento dirigido ao momento presente, tentando moldar como a disputa de 2022 deveria se desenrolar antes mesmo do primeiro turno.

Merval Pereira, colunista do jornal O Globo, reconheceu nesta quinta-feira um erro de cálculo político que o marcou há quatro anos. Em 2018, ele havia apostado que Jair Bolsonaro seria o melhor instrumento para conter o Partido dos Trabalhadores. Agora, após um mandato que o próprio Pereira descreve como marcado pela falta de compostura e pela incompetência elementar, ele admite que a lógica não se sustentou.

A autocrítica, publicada em sua coluna, é direta: considerar Bolsonaro o adversário ideal do PT foi um equívoco. O jornalista argumenta que quatro anos de governo tornaram evidente que não é aceitável ter na presidência uma pessoa sem noção básica do cargo. Pereira vai além e equipara Bolsonaro a Dilma Rousseff como exemplos de presidentes que não mereciam estar no posto — Dilma, em sua avaliação, foi levada ao poder por Lula e se mostrou incapaz de governar; Bolsonaro, por sua vez, foi elevado pela rejeição ao petismo a um lugar onde nunca deveria ter chegado.

Mas a autocrítica tem limites. No mesmo texto em que reconhece o erro, Pereira mantém as críticas a Lula e, mais significativamente, propõe uma estratégia que visa constrangê-lo. Ele defende que haja um segundo turno nas eleições de 2022 — não porque acredite que Bolsonaro possa vencer, mas porque um segundo turno forçaria Lula a negociar com candidatos de centro como Ciro Gomes e Simone Tebet. Dessa forma, argumenta Pereira, seria possível construir um governo de amplo espectro, que não fosse apenas da esquerda periférica do PT.

O colunista reconhece que as pesquisas mais recentes mostram crescimento tanto de Ciro quanto de Tebet, mas avalia que não há mais tempo para uma terceira via consolidar-se como alternativa viável. Diante disso, sua proposta é pragmática: use o segundo turno como ferramenta de negociação. Força-se Lula a conversar com o centro político, limita-se o poder da esquerda, e constrói-se um governo que, na visão de Pereira, seria mais equilibrado.

O posicionamento revela uma tensão característica de certos setores da mídia e da política brasileira naquele momento. Pereira admite que o voto útil de 2018 — aquele que justificava apoiar qualquer candidato desde que derrotasse o PT — não era explicação suficiente para nada. Mas isso não o leva a abraçar Lula ou o projeto petista. Em vez disso, busca uma terceira posição: reconhecer o fracasso de Bolsonaro sem aceitar uma vitória clara de Lula, propondo mecanismos que diluam o poder de qualquer um deles.

Essa postura ocorre em um contexto em que a campanha de 2022 se aproximava do primeiro turno, com Lula liderando as pesquisas e Bolsonaro enfrentando desgaste acumulado. A coluna de Pereira, portanto, não é apenas uma reflexão pessoal sobre um voto de quatro anos atrás — é um argumento político dirigido ao momento presente, tentando influenciar como a disputa deveria se desenrolar.

Foi um equívoco considerar que Bolsonaro era o melhor adversário do PT. Depois de quatro anos de governo, vê-se que não é possível aceitar que o presidente da República seja uma pessoa sem a menor noção do que seja ocupar o cargo.
— Merval Pereira, colunista do O Globo
Há tempo para forçar um segundo turno em que o provável vencedor, Lula, seja obrigado a negociar com esses outros dois candidatos para fazer um governo de amplo espectro, não apenas da esquerda periférica do PT
— Merval Pereira
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