Mercados de dívida em turbulência global e Portugal não está imune aos efeitos

Portugal não está imune, apesar de ser um oásis europeu
Enquanto a dívida portuguesa se reduz, o custo absoluto de financiamento sobe com a turbulência global dos mercados.
Mark

Porque é que os mercados de dívida estão tão agitados agora, quando Portugal conseguiu reduzir tanto o seu endividamento?

Mimi

Porque a turbulência é global, não local. O que está a acontecer nos EUA e na Alemanha cria ondas que chegam a toda a parte. Portugal pode ter as contas mais saudáveis, mas não controla o preço do petróleo ou as decisões da Reserva Federal americana.

Mark

Mas se o spread de Portugal face à Alemanha se mantém estável, isso não significa que estamos protegidos?

Mimi

Protegidos de uma crise de confiança, sim. Mas não protegidos do custo absoluto de financiamento. É a diferença entre ser visto como seguro e ter de pagar menos. Portugal é seguro, mas paga mais do que pagava há meses.

Mark

Qual é o verdadeiro impacto para uma família portuguesa?

Mimi

Quando a Euribor sobe — e já ultrapassou os 3% — as prestações das hipotecas com taxa variável sobem. Ao mesmo tempo, as empresas investem menos porque o crédito fica mais caro. Menos investimento significa menos emprego, menos consumo. É um efeito em cascata.

Mark

O Governo previu um custo de 3,4% para a nova dívida este ano. Agora está em 3,6%. Isso é grave?

Mimi

Não é catastrófico, mas é significativo. E vai piorar gradualmente. Cada título que vence e é substituído por um novo sai mais caro. É como uma conta de água que sobe lentamente, mês após mês.

Mark

Então Portugal está realmente a ser um oásis, ou é apenas uma ilusão?

Mimi

É um oásis real, mas relativo. Comparado com Itália ou França, Portugal está melhor. Mas um oásis num deserto que está a ficar mais quente continua a ser afetado pela seca.

  • A dívida pública americana ultrapassou os 40 biliões de dólares e os juros dos títulos do Tesouro a 30 anos voltaram a superar os 5%, níveis não vistos desde 2007, enquanto a Alemanha se financia ao custo mais elevado desde 2011.
  • Inflação persistente alimentada pelo petróleo perto dos 95 dólares, tensões geopolíticas no Médio Oriente e a concorrência dos investimentos em Inteligência Artificial pressionam simultaneamente os mercados de dívida soberana em todo o mundo.
  • A intervenção do secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, com promessas de recompras de dívida, durou apenas horas antes de os preços das obrigações regressarem aos mínimos, revelando a fragilidade das respostas políticas face à dimensão da pressão.
  • Portugal vê a taxa a dez anos aproximar-se dos 3,6%, mas o spread face à Alemanha mantém-se estável — sinal de que não há crise de confiança, apenas o efeito de uma maré global que levanta todos os custos.
  • A Euribor a 12 meses voltou a superar os 3% e o BCE prepara-se para decidir em setembro se sobe novamente as taxas, numa escolha entre combater a inflação e evitar sufocar a atividade económica.

Numa era em que os grandes Estados acumulam dívidas sem precedente e a inflação recusa retirar-se, os mercados de obrigações soberanas sinalizam uma inquietação profunda — dos Estados Unidos à Europa. Portugal, que construiu com esforço a reputação de aluno aplicado das finanças públicas, beneficia de uma relativa proteção, mas não escapa à maré que sobe: o custo de se financiar aumenta, e esse peso transfere-se, lenta mas inevitavelmente, para empresas e famílias.

Os mercados de dívida pública mundial atravessam um momento de tensão aguda. Nos Estados Unidos, a dívida pública cruzou os 40 biliões de dólares em apenas quatro anos e meio após ter atingido os 30 biliões, e os juros dos títulos do Tesouro a 30 anos voltaram a superar os 5% pela primeira vez desde 2007. Na Europa, a Alemanha financia-se a taxas que não se viam desde 2011. O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, anunciou planos de recompra de dívida para travar a pressão vendedora, mas o efeito dissipou-se em horas.

Os analistas identificam uma confluência de causas: receios sobre a sustentabilidade das finanças públicas dos grandes países, inflação persistente alimentada pelo petróleo perto dos 95 dólares e tensões geopolíticas no Médio Oriente, e ainda a concorrência dos investimentos em Inteligência Artificial, que desvia capitais que antes fluíam para obrigações soberanas. Filipe Silva, do Banco Carregosa, sublinha que o regresso das preocupações inflacionistas é o fator mais imediato.

Portugal não fica imune. A taxa de juro da dívida a dez anos aproximou-se dos 3,6%, perto de níveis não vistos desde 2017. Ainda assim, o spread face à Alemanha mantém-se estável — o que distingue esta situação de uma crise de confiança. O Commerzbank chegou a classificar Portugal como um oásis europeu, reconhecendo a redução drástica do endividamento: a dívida pública baixou para menos de 90% do PIB, com o Governo a apontar para 87,5% no final do ano.

O problema é mais subtil mas real: Portugal precisa de emitir nova dívida para substituir títulos antigos emitidos quando as taxas eram muito baixas. A taxa média do stock de dívida era de 2,1% no final de 2025, mas desde 2022 que cada nova emissão custa acima de 3%. O impacto é gradual — como aquecer água morna — mas inevitável. E estende-se à economia em geral: a Euribor a 12 meses voltou a superar os 3%, o crédito à habitação encarece, o investimento empresarial abranda. O BCE reúne-se em setembro com uma decisão difícil pela frente: subir taxas para conter a inflação, ou reconhecer que o aperto financeiro já está a fazer o trabalho por si.

Os mercados de dívida pública mundial estão em convulsão. A Alemanha, a maior economia europeia, financia-se agora a juros que não via desde 2011. Nos Estados Unidos, os investidores exigem rendimentos tão elevados para comprar títulos do Tesouro quanto exigiam em 2007, antes do colapso financeiro. Portugal, apesar de considerado um porto seguro relativo na Europa, não fica imune aos efeitos desta turbulência global.

O cenário americano ilustra a velocidade da deterioração. Apenas quatro anos e meio separaram o momento em que a dívida pública dos EUA ultrapassou 30 biliões de dólares do patamar dos 40 biliões, atingido há dias. Esta semana, a taxa dos títulos do Tesouro a 30 anos superou os 5%, regressando a níveis não vistos desde 2007. No prazo de dez anos, a taxa fixou-se em 4,72%. A Casa Branca interveio: Scott Bessent, secretário do Tesouro, anunciou planos para duplicar as recompras de dívida no mercado, tentando sinalizar disponibilidade para atuar caso a pressão vendedora se intensifique. O efeito foi breve. Ao início da manhã seguinte, os preços das obrigações já tinham regressado aos níveis anteriores. Bessent voltou a falar, sugerindo que o plano de recompras poderia ser ainda maior, numa tentativa de desincentivar movimentos especulativos contra a dívida americana.

Os analistas apontam uma combinação de fatores para explicar esta pressão generalizada. Os receios dos investidores sobre as contas públicas dos maiores países, o medo de uma inflação persistente ligada aos preços elevados da energia, e até a concorrência dos investimentos em Inteligência Artificial — que desviam capitais que poderiam ser aplicados em dívida pública — formam um quadro complexo. Filipe Silva, diretor de investimentos do Banco Carregosa, sublinha que o fator mais imediato é o regresso das preocupações com a inflação, sobretudo devido à subida do preço do petróleo e ao agravamento das tensões geopolíticas no Médio Oriente. Com o petróleo novamente perto dos 95 dólares, aumenta o risco de um novo choque energético.

Em Portugal, a taxa de juro da dívida a dez anos superou nos últimos dias os 3,6%, aproximando-se de níveis que não se veem desde 2017. Porém, o diferencial entre os juros portugueses e os alemães — o chamado spread — mantém-se estável. Isto é particularmente importante porque significa que não estamos perante uma crise de confiança na dívida portuguesa, como salienta Silva. Por comparação, os investidores estão a pedir mais de 4% para emprestar a Itália e França, e quase 3,7% a Espanha. O Commerzbank, banco de investimento alemão, destacou que Portugal é, até certo ponto, um oásis no contexto europeu. A razão: ao contrário da maioria dos outros países da zona euro, Portugal tem vindo a reduzir de forma drástica o seu endividamento e beneficia de melhorias significativas no rating. A dívida pública portuguesa baixou para menos de 90% do Produto Interno Bruto, e o Governo quer fechar o ano com esse rácio nos 87,5%.

Mas o aumento do custo absoluto das novas emissões de dívida importa. Portugal precisa de fazer emissões para substituir títulos mais antigos que vão sendo reembolsados à medida que atingem a maturidade — títulos que tinham sido emitidos em períodos em que as taxas de juro eram muito baixas. De acordo com o IGCP, o organismo que gere a dívida pública portuguesa, a taxa de juro média de todo o stock de dívida era no final de 2025 de 2,1%. Porém, desde 2022 o custo da nova dívida emitida a cada ano supera os 3%. O impacto não é imediato, mas gradual: como colocar água mais quente num recipiente com água morna. A taxa de juro de 3,6% que se verifica no mercado secundário supera já ligeiramente a previsão do Governo para o custo médio da nova dívida de longo prazo emitida este ano, estimado em 3,4%. O Governo prevê que o custo médio de todo o stock de dívida suba para 2,3%.

Além disso, as consequências às quais Portugal não está imune dizem respeito a um aperto adicional das condições financeiras gerais na economia. Os estados financiam-se mais caro, mas as empresas e famílias também veem as taxas a agravarem-se. A taxa Euribor a 12 meses superou esta sexta-feira os 3% pela primeira vez desde setembro de 2024. Esta trajetória reflete as expectativas de que o Banco Central Europeu irá subir novamente a taxa de juro na reunião agendada para 10 de setembro. O impacto potencial é significativo: menor investimento empresarial, maiores custos nos créditos à habitação, algum travão ao consumo, que poderá levar a um crescimento económico mais fraco. O BCE enfrenta uma decisão complexa. Se a subida do petróleo se traduzir numa inflação mais persistente ou começar a contaminar salários e preços subjacentes, terá de subir novamente as taxas. Se, pelo contrário, as taxas de juro das obrigações permanecerem muito elevadas e começarem a produzir uma deterioração significativa da atividade económica, o BCE poderá considerar que o aperto das condições financeiras reduz a necessidade de novas subidas.

Portugal não está imune a esta subida generalizada das taxas, mas trata-se de uma subida generalizada e não de um aumento significativo do prémio de risco específico de Portugal
— Filipe Silva, diretor de investimentos do Banco Carregosa
Portugal é uma espécie de oásis no contexto europeu, ao contrário da maioria dos outros países da zona euro, tem vindo a reduzir de forma drástica o seu endividamento
— Vincent Stamer, economista do Commerzbank
Envie de l'histoire complète ? Lire l'original sur Observador ↗
Nous contacter FAQ