Mendonça nega liminar para remover vídeo de Flávio que associa PT a facções criminosas

Crítica política, ainda que ácida, merece proteção reforçada
O ministro Mendonça justificou sua decisão de manter o vídeo no ar citando a importância da liberdade de expressão no debate democrático.
Mark

Por que um ministro do TSE permitiria que um vídeo associando um partido a facções criminosas continuasse no ar?

Mimi

Porque Mendonça viu ali não uma acusação factual, mas uma crítica política — ainda que feita de forma agressiva e usando ficção. A lei protege crítica política, mesmo quando é incômoda.

Mark

Mas não há risco de as pessoas acreditarem que o PT realmente está ligado ao PCC e ao Comando Vermelho?

Mimi

Mendonça argumentou que não, porque o vídeo é claramente ficcional — é uma animação feita por IA, com linguagem caricatural. Ele achou que um eleitor razoável reconheceria isso como sátira, não como fato.

Mark

E quanto ao uso de inteligência artificial? Isso não deveria ser proibido?

Mimi

A legislação permite IA na campanha, desde que fique claro que foi usada e que não se espalhem mentiras. O vídeo deixa explícito que foi feito com IA, então tecnicamente está dentro das regras.

Mark

Então o PT perdeu completamente?

Mimi

Não exatamente. Mendonça só negou o pedido urgente. O caso ainda vai para análise de mérito, depois que a defesa de Flávio e a Procuradoria-Geral Eleitoral se manifestarem. Mas enquanto isso, o vídeo fica online.

Mark

Qual é o verdadeiro debate aqui?

Mimi

É a tensão entre proteger a liberdade de expressão e evitar que campanhas usem ficção para prejudicar adversários. Mendonça escolheu o lado da liberdade, pelo menos por enquanto.

  • Um vídeo gerado por IA mostra Flávio Bolsonaro atacando embarcações com as siglas do CV, PCC e PT, encerrando com uma ameaça velada ao partido — conteúdo que a federação de esquerda classificou como difamatório e eleitoralmente ilegal.
  • A Federação Brasil da Esperança entrou com ação dois meses após a publicação, exigindo remoção urgente e alegando associação falsa entre o PT e o crime organizado.
  • Mendonça rejeitou a liminar, argumentando que a Justiça Eleitoral deve exercer 'mínima interferência' no debate político e que críticas a partidos — mesmo exageradas — são protegidas pela liberdade de expressão.
  • O ministro destacou que o caráter ficcional e caricatural da animação reduz o risco de ser interpretada como relato de fato real, e que o próprio vídeo declarava ter sido produzido por IA.
  • O mérito da ação ainda será julgado após a defesa de Flávio Bolsonaro e o parecer da Procuradoria-Geral Eleitoral, mantendo o vídeo no ar por ora.

Em julho de 2026, o ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral, recusou retirar do ar um vídeo produzido com inteligência artificial pelo senador Flávio Bolsonaro, que associa o PT a facções criminosas por meio de uma animação satírica. A decisão reflete uma tensão perene entre a liberdade de expressão política e os limites da propaganda eleitoral — e lembra que, nas democracias, a crítica ácida ao adversário raramente encontra fronteiras fáceis de traçar. O caso segue aberto, aguardando defesa e parecer da Procuradoria, enquanto o vídeo permanece acessível ao público.

No dia 23 de julho, o ministro André Mendonça negou pedido urgente da Federação Brasil da Esperança — coligação formada por PT, PCdoB e PV — para remover um vídeo do senador Flávio Bolsonaro. A peça, produzida com inteligência artificial, mostrava Bolsonaro pilotando uma aeronave e atacando embarcações com as siglas do Comando Vermelho, do PCC e, em seguida, do PT, acompanhadas da mensagem: "Na próxima quinta-feira eu vou dar uma péssima notícia para o CV, PCC e o PT. Me aguardem". A federação argumentou que o conteúdo associava falsamente o partido a organizações criminosas e configurava propaganda eleitoral antecipada negativa.

Mendonça discordou. Em sua análise preliminar, defendeu que a Justiça Eleitoral deve manter postura de "mínima interferência" no debate político, especialmente quando o alvo é um partido ou agente público. Para o ministro, a crítica política — ainda que ácida e incômoda — é elemento ordinário da democracia e merece proteção reforçada. O vídeo, a seu ver, não atribuía ao PT um crime específico nem um vínculo concreto com facções criminosas, mas sim uma postura considerada leniente diante do crime organizado — o que se enquadra no campo da crítica política legítima.

O caráter evidentemente ficcional da animação também pesou na decisão. Mendonça observou que a estética de IA e a linguagem caricatural diminuíam o risco de o eleitor interpretar o material como relato de fato real. Quanto ao uso da tecnologia, o ministro apontou que a legislação eleitoral permite o emprego de IA desde que o material identifique sua origem sintética — o que o vídeo fazia — e que não haja deepfake simulando falas ou atos inexistentes de pessoas reais.

A decisão, porém, não encerra o caso. O mérito da ação será analisado após a defesa de Flávio Bolsonaro e o parecer da Procuradoria-Geral Eleitoral. Até lá, o vídeo permanece disponível, e a fronteira entre sátira política e desinformação eleitoral segue sendo disputada nos tribunais.

No dia 23 de julho, o ministro André Mendonça, relator de um caso no Tribunal Superior Eleitoral, recusou um pedido urgente da Federação Brasil da Esperança — a coligação que reúne PT, PCdoB e PV — para tirar do ar um vídeo publicado pelo senador Flávio Bolsonaro. O vídeo, produzido com inteligência artificial, mostrava Bolsonaro pilotando uma aeronave militar e atacando embarcações identificadas pelas siglas das facções Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital. Depois vinha outra embarcação, desta vez com a sigla do PT, seguida de uma mensagem: "Na próxima quinta-feira eu vou dar uma péssima notícia para o CV, PCC e o PT. Me aguardem". A federação havia entrado com a ação dois meses depois que o vídeo foi divulgado, em 16 de junho, argumentando que o conteúdo fazia uma associação falsa e difamatória entre o partido e organizações criminosas, além de constituir propaganda eleitoral antecipada negativa.

Mendonça, porém, viu a questão de forma diferente. Em sua análise preliminar, entendeu que a Justiça Eleitoral deveria manter uma postura de "mínima interferência" no debate político, especialmente quando se trata de críticas dirigidas a partidos e agentes públicos. O ministro escreveu que "a crítica política, ainda que ácida, contundente, incômoda ou desagradável, constitui elemento ordinário do debate democrático e deve receber proteção reforçada". Para ele, o vídeo, apesar de usar uma linguagem visual agressiva, não atribuía ao PT um crime específico ou um vínculo concreto com as organizações criminosas mencionadas.

O que pesou na decisão foi a natureza do material. Mendonça observou que a narrativa tinha caráter "evidentemente ficcional", com a estética de uma animação produzida por inteligência artificial e uma linguagem caricatural. Isso, segundo ele, reduzia o risco de que um eleitor interpretasse a peça como o relato de um fato real. O ministro reconheceu que o vídeo era duro, exagerado e desfavorável ao partido, mas o enquadrou como uma crítica política sobre segurança pública e sobre as posições defendidas por diferentes legendas no combate ao crime organizado. "A afirmação de que as políticas de determinado partido seriam lenientes, inadequadas, equivocadas ou insuficientes no enfrentamento ao crime organizado pode ser injusta, excessiva ou retoricamente abusiva, mas, em princípio, situa-se no campo da crítica política protegida pela liberdade de expressão", escreveu.

Mendonça também descartou, nesta fase inicial, o argumento de que o simples uso de inteligência artificial tornaria o conteúdo irregular. Ele apontou que a legislação eleitoral permite o emprego dessa tecnologia, desde que haja identificação clara de que o material foi produzido ou manipulado por IA e que não sejam divulgados fatos sabidamente falsos. O próprio vídeo, observou o ministro, informava ter sido produzido por inteligência artificial. Além disso, não havia, naquele momento do processo, uso de deepfake para simular falas ou atos inexistentes de pessoas reais — apenas uma peça audiovisual construída com recursos sintéticos e linguagem satírica.

A decisão não encerra o caso. Mendonça deixou claro que a eventual ilegalidade da publicação — incluindo o alcance da mensagem, o uso da inteligência artificial e a possível configuração de propaganda antecipada negativa — deverá ser examinada depois que Flávio Bolsonaro apresentar sua defesa e depois que a Procuradoria-Geral Eleitoral emitir seu parecer. Até lá, o vídeo permanece disponível online. O mérito da ação ainda será analisado pela Corte.

A crítica política, ainda que ácida, contundente, incômoda ou desagradável, constitui elemento ordinário do debate democrático e deve receber proteção reforçada
— Ministro André Mendonça, TSE
A afirmação de que as políticas de determinado partido seriam lenientes, inadequadas, equivocadas ou insuficientes no enfrentamento ao crime organizado pode ser injusta, excessiva ou retoricamente abusiva, mas, em princípio, situa-se no campo da crítica política protegida pela liberdade de expressão
— Ministro André Mendonça, TSE
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