O que nasceu como tratamento para diabetes e obesidade começa a percorrer os corredores mais amplos da medicina humana: a semaglutida e a tirzepatida são testadas hoje para Alzheimer, doenças cardíacas, renais, hepáticas e até apneia do sono. O caminho não é linear — o fracasso no Alzheimer lembra que a esperança científica nem sempre coincide com a biologia — mas as aprovações recentes em múltiplas frentes sugerem que essas moléculas podem reescrever o mapa terapêutico de uma geração.
Medicamentos para perda de peso avançam em testes para Alzheimer, doenças cardíacas e renais
Nem todos os caminhos levam aonde a indústria esperava
Por que o fracasso no Alzheimer importa tanto? Não é apenas um teste que não funcionou?
Porque a Novo Nordisk e seus investidores viam o Alzheimer como um novo mercado enorme. Se a semaglutida funcionasse para o declínio cognitivo, seria um caminho completamente diferente de receita, longe da concorrência crescente em obesidade e diabetes.
Mas vale notar que foi o Rybelsus que falhou, uma versão mais antiga. Não sabemos se outras formulações de semaglutida teriam o mesmo resultado. E 3.808 pacientes é um número sólido, mas ainda assim é um estudo, não a palavra final.
E quanto aos sucessos? O Ozempic foi aprovado para doença renal crônica — isso é um grande negócio?
Sim. Significa que agora há uma aprovação regulatória para usar o medicamento em pacientes com diabetes e doença renal crônica para reduzir o risco de morte e progressão da doença. É uma indicação séria.
Embora seja importante lembrar que essas aprovações geralmente vêm depois de ensaios clínicos bem-sucedidos. A questão é: quantos pacientes realmente precisam disso? Qual é o tamanho real do mercado?
E a tirzepatida? Ela parece estar em mais lugares.
Está, mas com um padrão misto. Retirou o pedido para insuficiência cardíaca, mas continua avançando em doença renal crônica e mostrou resultados impressionantes em MASH — 74% dos pacientes sem a doença após 52 semanas.
Esses números de MASH são realmente bons, mas é um estudo de estágio intermediário. Os resultados finais do Wegovy para MASH não chegam até 2029. Há muito tempo entre agora e então.
O que me surpreende é a apneia do sono. Como um medicamento de perda de peso trata apneia?
A apneia obstrutiva do sono está fortemente associada à obesidade. Quando você perde peso, a pressão nas vias aéreas diminui e a respiração melhora. O Zepbound foi aprovado especificamente para isso em dezembro.
Verdade, mas é importante ser claro: o medicamento não trata a apneia diretamente. Ele trata a obesidade, que é uma causa da apneia. Para pacientes magros com apneia, isso não funcionaria.
Der Puls
- A Novo Nordisk sofreu um revés significativo quando a semaglutida falhou em retardar o Alzheimer em quase 4.000 pacientes, abalando apostas bilionárias em novos mercados.
- Apesar do tropeço neurológico, aprovações nos EUA e na Europa para doenças cardíacas e renais mantêm a expansão terapêutica em marcha acelerada.
- A tirzepatida da Eli Lilly retirou seu pedido para insuficiência cardíaca nos EUA, mas avança em estudos renais e hepáticos com resultados promissores esperados para o próximo ano.
- O Zepbound tornou-se o primeiro medicamento aprovado para apneia obstrutiva do sono, abrindo uma frente terapêutica inteiramente nova para os agonistas GLP-1.
- Pesquisadores exploram usos ainda mais inesperados — da pressão intracraniana ao transtorno do uso de álcool — sinalizando que o alcance dessas drogas ainda não tem fronteira definida.
O que nasceu como tratamento para diabetes e obesidade começa a percorrer os corredores mais amplos da medicina humana: a semaglutida e a tirzepatida são testadas hoje para Alzheimer, doenças cardíacas, renais, hepáticas e até apneia do sono. O caminho não é linear — o fracasso no Alzheimer lembra que a esperança científica nem sempre coincide com a biologia — mas as aprovações recentes em múltiplas frentes sugerem que essas moléculas podem reescrever o mapa terapêutico de uma geração.
A semaglutida e a tirzepatida, que já transformaram o tratamento da obesidade e do diabetes, estão agora no centro de uma ambiciosa expansão médica. Mas o caminho é irregular: no início deste ano, a Novo Nordisk revelou que o Rybelsus não conseguiu retardar o declínio cognitivo em pacientes com Alzheimer em estágio inicial — um estudo com 3.808 participantes que frustrou esperanças de abrir um mercado neurológico inteiramente novo para os medicamentos GLP-1.
Ainda assim, outros territórios avançam. O Ozempic recebeu aprovação nos EUA para reduzir o risco de insuficiência renal e morte cardiovascular em pacientes com diabetes e doença renal. O Wegovy foi aprovado pela FDA em 2024 para reduzir mortes cardiovasculares, ataques cardíacos e derrames em adultos com sobrepeso sem diabetes, e a Agência Europeia de Medicamentos apoiou seu uso para sintomas de insuficiência cardíaca em pessoas com obesidade.
A tirzepatida da Eli Lilly percorre trajetória semelhante: retirou seu pedido de aprovação para insuficiência cardíaca nos EUA em maio, mas segue em avaliação para doença renal crônica. Na área hepática, o Wegovy tornou-se a primeira terapia GLP-1 aprovada para MASH nos EUA, enquanto a tirzepatida mostrou que até 74% dos pacientes alcançaram ausência da doença em 52 semanas — contra apenas 13% no grupo placebo.
As investigações alcançam ainda territórios menos esperados. O Zepbound foi aprovado pela FDA em dezembro de 2024 para apneia obstrutiva do sono, tornando-se o primeiro medicamento a tratar diretamente esse distúrbio. Pesquisadores dinamarqueses testam a semaglutida para hipertensão intracraniana, e um estudo em Copenhague investiga se ela pode reduzir o consumo de álcool em pacientes com transtorno do uso da substância. O que começou como solução para duas doenças crônicas expande-se em direções que nem sempre coincidem com as apostas da indústria — mas que continuam a surpreender a ciência.
A semaglutida e a tirzepatida, medicamentos que revolucionaram o tratamento da obesidade e do diabetes, estão sendo testados em laboratórios e clínicas ao redor do mundo para uma lista cada vez mais longa de doenças. Mas nem todos os caminhos levam aonde a indústria esperava.
No início deste ano, a Novo Nordisk anunciou um resultado que decepcionou muitos pesquisadores: o Rybelsus, uma versão mais antiga da semaglutida, não conseguiu retardar o declínio cognitivo em pacientes com Alzheimer em estágio inicial. O estudo envolveu 3.808 pacientes em dois ensaios separados. A notícia foi um revés porque a empresa e seus investidores viam no Alzheimer uma oportunidade de abrir um mercado completamente novo para os medicamentos GLP-1 — a classe de drogas que inclui o Ozempic e o Wegovy, que já dominam o mercado de obesidade e diabetes. Enquanto a Novo enfrenta concorrência crescente nessas áreas principais, a esperança era expandir para doenças neurológicas.
Mas a história não termina em fracasso. Mesmo com o tropeço no Alzheimer, a semaglutida e a tirzepatida continuam avançando em outros territórios médicos. O Ozempic da Novo recebeu aprovação nos Estados Unidos para reduzir o risco de insuficiência renal e a progressão da doença renal crônica, bem como o risco de morte por problemas cardíacos em pacientes com diabetes e doença renal. O Wegovy, também da Novo, foi aprovado em 2024 pela FDA para reduzir o risco de morte cardiovascular, ataque cardíaco e derrame em adultos com sobrepeso ou obesos sem diabetes. A Agência Europeia de Medicamentos apoiou ainda o uso da semaglutida para aliviar os sintomas de insuficiência cardíaca em pessoas com obesidade.
A tirzepatida, o medicamento principal da Eli Lilly, segue um caminho semelhante. A empresa estava testando a tirzepatida em pacientes com insuficiência cardíaca e obesidade, planejando inscrever cerca de 700 pessoas, mas em maio retirou seu pedido de aprovação para insuficiência cardíaca nos Estados Unidos. Mesmo assim, a tirzepatida está sendo avaliada em um estudo de estágio intermediário para doença renal crônica e obesidade, com até 140 participantes esperados, e os resultados devem chegar no próximo ano.
A doença hepática é outro campo onde esses medicamentos mostram promessa. Em agosto, o Wegovy tornou-se a primeira terapia com GLP-1 aprovada nos EUA para tratar adultos com MASH — esteato-hepatite associada à disfunção metabólica — com base nos resultados da primeira parte de seu estudo em estágio final. Os resultados da segunda parte, envolvendo cerca de 1.200 pacientes, são esperados para 2029. A tirzepatida da Lilly também mostrou resultados impressionantes: em fevereiro, ajudou até 74% dos pacientes a obter ausência de MASH sem piora da cicatrização do fígado em 52 semanas, comparado com apenas 13% dos pacientes que receberam placebo.
Pesquisadores também estão explorando usos menos óbvios. O Centro Dinamarquês de Cefaleia está testando a semaglutida junto com uma dieta de muito baixa caloria para tratar hipertensão intracraniana idiopática de início recente, uma condição associada à obesidade na qual a pressão arterial dentro da cabeça aumenta. O estudo incluiu cerca de 50 pacientes. Em dezembro de 2024, o Zepbound — a versão da tirzepatida para perda de peso — foi aprovado pela FDA para apneia obstrutiva do sono, tornando-se o primeiro medicamento a tratar diretamente esse distúrbio comum que causa interrupção da respiração durante o sono.
Há também investigações em andamento sobre o potencial da semaglutida para reduzir a ingestão de álcool. Um estudo conduzido pelo Centro Psiquiátrico Rigshospitalet, da Universidade de Copenhague, está investigando se a semaglutida pode ajudar 108 pacientes diagnosticados com transtorno do uso de álcool e obesidade. O que começou como uma solução para diabetes e obesidade está se tornando uma ferramenta com aplicações muito mais amplas — embora nem sempre com os resultados que os fabricantes esperavam.
Bemerkenswerte Zitate
Os resultados são um revés para as esperanças de que o Alzheimer possa abrir um novo mercado importante para os medicamentos GLP-1— Contexto da indústria farmacêutica