Usuários de GLP-1 compram menos comida, menos álcool e menos lanches, reduzindo gastos em supermercados em até 15%. Empresas lançam novos produtos com proteína e fibra; restaurantes reduzem porções; varejistas de roupas enfrentam queda em tamanhos grandes.
Medicamentos para emagrecer forçam indústria de alimentos a se reinventar
Medicamentos estão forçando mudanças estruturais na demanda dos consumidores
Por que isso importa agora? Medicamentos para emagrecer existem há tempos.
Porque a escala mudou drasticamente. Estamos falando de 11% dos adultos americanos usando esses medicamentos regularmente, e o número pode chegar a 14%. Quando uma parcela tão grande da população muda seus hábitos de consumo simultaneamente, as empresas não conseguem ignorar.
Mas quanto desse impacto é realmente atribuível aos medicamentos? A fonte menciona que preços altos de alimentos e combustíveis também fizeram consumidores reduzirem compras. Como sabemos o quanto é GLP-1 e o quanto é economia?
Boa pergunta. A pesquisa da PwC especificamente rastreou famílias com pelo menos uma pessoa usando os medicamentos e comparou seus gastos. Mas você está certo — há outros fatores em jogo. A pressão do governo Trump para eliminar corantes sintéticos também está afetando a indústria.
E as empresas estão realmente conseguindo se adaptar?
Algumas sim. A Campbell's, Nestlé, PepsiCo — todas lançaram produtos novos em resposta. Mas a pesquisa da PwC também mostrou que mais de um terço dos consumidores que usam esses medicamentos acham que os restaurantes não estão acompanhando suas necessidades. Então há um gap entre o que as empresas estão tentando fazer e o que os consumidores realmente querem.
A estimativa de 55 bilhões de dólares em perdas até 2030 — de onde vem isso? É do JP Morgan?
Sim, analistas do JP Morgan. Mas é importante notar que é uma estimativa, não um número confirmado. Depende de como esses medicamentos se disseminarem, de quanto as pessoas continuarão usando, de como a indústria se adaptar.
E as pessoas que trabalham em setores como restaurantes e varejo de roupas grandes — como estão lidando?
A Destination XL já está vendo quedas reais nas vendas e está introduzindo tamanhos menores. Alguns restaurantes estão reduzindo porções. Mas há um lag — muitos ainda não perceberam que isso é um problema estrutural, não uma flutuação temporária.
Quando você diz "mudança estrutural", o que exatamente quer dizer?
Que não é uma moda passageira. Essas pessoas estão perdendo peso e mantendo o peso perdido. Seus hábitos de consumo mudaram permanentemente. As empresas não podem simplesmente esperar isso passar — precisam reformular seus negócios.
Le Pouls
- 11% dos adultos americanos usam medicamentos GLP-1 como Ozempic e Wegovy; número pode chegar a 14%
- Analistas do JP Morgan estimam queda de até US$ 55 bilhões no setor de alimentos e bebidas até 2030
- Usuários gastam 10% a 15% menos em supermercados e aumentam gastos com roupas, suplementos e produtos para cabelo
- Pessoas em testes clínicos perderam entre 10% e 20% do peso corporal após 72 semanas
- Varejista Destination XL registrou queda de 3,5% nas vendas no trimestre encerrado em 1º de agosto
Usuários de GLP-1 compram menos comida, menos álcool e menos lanches, reduzindo gastos em supermercados em até 15%. Empresas lançam novos produtos com proteína e fibra; restaurantes reduzem porções; varejistas de roupas enfrentam queda em tamanhos grandes.
O uso crescente de medicamentos GLP-1 como Ozempic e Wegovy está reduzindo o consumo de alimentos e bebidas, forçando empresas a reformular produtos com mais proteína e fibras. Analistas estimam queda de até US$ 55 bilhões no setor até 2030.
Dan Sherry, enfermeiro de 58 anos em Holland, Michigan, começou a tomar Ozempic em 2024 pesando 95 quilos. Dois anos depois, desceu para 72,5 quilos. Sua cintura encolheu 15 centímetros. Sua pressão arterial, que o medicamento ajudava a controlar, estabilizou. Ele pedala todos os dias. Mas a mudança mais visível aconteceu no supermercado: sua conta caiu entre 10% e 15%. O maior gasto agora não é com comida — é com roupas novas.
Sherry é um dos aproximadamente 11% dos adultos americanos que recorreram a injeções semanais de medicamentos como Wegovy, Ozempic e Zepbound para perder peso. Esses fármacos funcionam como hormônios GLP-1, que o corpo produz naturalmente para regular a glicose no sangue e a sensação de saciedade. Quando tomados como medicamento, retardam a digestão e reduzem o apetite. As pessoas comem menos calorias por dia — e comem diferente. Médicos orientam os pacientes a aumentar proteína para preservar massa muscular e fibras para evitar problemas gastrointestinais. Pão, massa, bebidas alcoólicas, salgadinhos, sorvete e refrigerante saem da lista. Carne e vegetais entram.
O impacto econômico é estrutural. Analistas do JP Morgan estimam que, conforme esses tratamentos se disseminarem, as receitas do setor de alimentos e bebidas podem cair até 55 bilhões de dólares até 2030. Isso não é especulação — já está acontecendo. As vendas de bebidas alcoólicas, salgadinhos, sorvetes e refrigerantes já foram afetadas. Restaurantes observam mudanças nos pedidos. Em agosto, o CEO da rede Cava relatou a analistas que o uso de GLP-1 havia levado a um aumento em pedidos de refeições infantis feitos por adultos — porções menores, menos calorias.
Diante da queda nas vendas, a indústria se reinventa. A Campbell's lançou em julho uma linha de sopas ricas em proteína, cada lata com 20 gramas, desenvolvida após pesquisas indicarem que consumidores buscavam alimentos para lidar com efeitos colaterais do medicamento. A Nestlé lançou em 2024 a Vital Pursuit, refeições congeladas comercializadas explicitamente como "adequadas para usuários de GLP-1" — as pizzas vendem mais, com 33 gramas de proteína e 17 de fibras. A PepsiCo reformulou SunChips com mais fibras. A WK Kellogg ampliou o marketing de cereais ricos em fibras. Há Doritos, macarrão com queijo e Pop-Tarts com mais proteína. Helen Berman, advogada aposentada em Los Angeles que começou a tomar Zepbound há um ano, perdeu 14,5 quilos e mudou seus hábitos: agora compra apenas iogurtes com 20 gramas de proteína em vez de 13, e não compra sorvete Häagen-Dazs há um ano.
Restaurantes também se adaptam. A Olive Garden lançou no início do ano um menu de "porções menores", com versões reduzidas de pratos a preços mais baixos. A Chipotle lançou um menu com mais proteínas, incluindo pratos classificados como "adequados para usuários de GLP-1". O CEO do McDonald's, Chris Kempczinski, disse em agosto à Harvard Business Review que a rede ainda não havia observado impacto significativo além do aumento em pedidos de refeições infantis por adultos, mas reconheceu que teria de adaptar o cardápio conforme mais consumidores passassem a usar os medicamentos. Uma pesquisa da PwC mostrou que famílias com pelo menos uma pessoa usando os medicamentos gastaram menos em restaurantes de pizza, frango e hambúrgueres — e mais de um terço dos entrevistados afirmou querer porções menores. "É chocante para mim a quantidade de restaurantes ou empresas que não estão prestando atenção ou acham que isso não afetará seus negócios", disse Rachel Royster, diretora de planejamento estratégico e inovação da consultoria Marlin Connections.
O impacto vai além da comida. Pessoas em testes clínicos dos medicamentos perderam entre 10% e 20% do peso corporal após 72 semanas — redução significativa no tamanho das roupas. Analistas da Bernstein Research estimam que isso pode gerar até 13 bilhões de dólares em gastos adicionais com roupas novas. Anne Butler, arquiteta de Chattanooga que começou a tomar Wegovy no início de 2025, perdeu 18 quilos e viu seus gastos aumentarem em suplementos, produtos para cabelo e roupas. Varejistas estão mudando a distribuição dos tamanhos à medida que os clientes emagrecem. A Stitch Fix relatou que a demanda por calças femininas nos tamanhos 12 a 24 caiu nos últimos dois anos, enquanto aumentou nos tamanhos 0 a 10. Os clientes também pedem "modelagens mais ajustadas".
Para empresas voltadas a consumidores de tamanhos maiores, as mudanças são rápidas e dolorosas. A Destination XL, que vende roupas para homens de tamanhos grandes, registrou queda nas vendas nos últimos trimestres. No trimestre encerrado em 1º de agosto, as vendas caíram 3,5% em relação ao ano anterior. A empresa reconheceu que "uma parcela significativa" de sua base de clientes atualmente usa medicamentos GLP-1 e está introduzindo tamanhos menores. Os medicamentos, segundo a companhia, "estão contribuindo para mudanças estruturais na demanda dos consumidores dentro da categoria de roupas para homens de tamanhos grandes". Cerca de 14% da população adulta americana demonstra interesse em usar esses medicamentos, especialmente com a maior disponibilidade de versões em comprimidos. O que começou como uma solução médica para perda de peso está se tornando uma transformação econômica que nenhum setor pode ignorar.
Citations marquantes
Minha conta de supermercado provavelmente caiu de 10% a 15%. O maior gasto foi com roupas novas.— Dan Sherry, enfermeiro em Holland, Michigan
É chocante para mim a quantidade de restaurantes ou empresas que não estão prestando atenção ou acham que isso não afetará seus negócios.— Rachel Royster, diretora de planejamento estratégico e inovação da consultoria Marlin Connections