Mauro Vieira retorna aos EUA para negociar nova proposta sobre guerra Israel-Hamas na ONU

Conflito entre Israel e Hamas afeta civis em Gaza, com necessidade de corredores humanitários e saída de estrangeiros.
Um patrimônio diplomático que transcende governos
Vieira descreve a posição equilibrada do Brasil como um ativo histórico que permite mediar entre Israel e Palestina.
Mark

Por que o Brasil insistiu em voltar à mesa se a proposta já havia sido rejeitada?

Mimi

Porque um veto não é o fim da conversa — é apenas o fim daquela versão específica. O Brasil tinha doze votos a favor. Isso significa que havia uma maioria real para alguma forma de ação. O veto americano não era sobre a substância humanitária; era sobre uma lacuna na linguagem. Vieira sabia que era possível preencher essa lacuna.

Mark

E por que os EUA vetaram se a proposta mencionava os ataques do Hamas?

Mimi

Porque mencionar não é o mesmo que endossar o direito de autodefesa. Os EUA queriam que a resolução afirmasse explicitamente que Israel tinha o direito de se defender. Sem isso, Washington viu a proposta como desequilibrada — reconhecia o ataque, mas não legitimava a resposta.

Mark

Qual era o risco real para o Brasil em manter essa posição equilibrada?

Mimi

O risco era parecer fraco para ambos os lados. Se o Brasil cedesse demais aos EUA, perderia a confiança dos países que votaram sim e dos que se abstiveram. Se não cedesse o suficiente, o veto americano se repetiria. A credibilidade brasileira dependia de encontrar um ponto que fosse genuinamente aceitável para múltiplas partes, não apenas um compromisso que ninguém realmente quisesse.

Mark

Vieira mencionou que essa posição equilibrada protegia brasileiros no exterior. Como?

Mimi

Se o Brasil fosse visto como parcial — totalmente alinhado com um lado — seus cidadãos em zonas de conflito perderiam a proteção que vem de uma reputação de neutralidade. Um país que é amigo de ambos os lados tem mais capacidade de negociar a segurança de seus nacionais quando as coisas desabam.

Mark

Então a volta a Nova York era inevitável?

Mimi

Não era inevitável, mas era a única opção que fazia sentido diplomaticamente. Desistir teria significado aceitar que o veto americano era final. Voltar significava que o Brasil ainda acreditava que havia uma solução possível — e que tinha o capital político para encontrá-la.

  • O veto americano à proposta brasileira inicial expôs a fratura entre o imperativo humanitário e as exigências políticas de Washington, que insistia na menção explícita ao direito de autodefesa de Israel.
  • Doze países já haviam votado a favor — incluindo China e França —, criando uma base de apoio frágil que Vieira precisava preservar enquanto reescrevia o texto para satisfazer os EUA.
  • Gaza aguarda corredores humanitários e a saída de estrangeiros pela fronteira com o Egito, enquanto as negociações diplomáticas se arrastam em Nova York.
  • Vieira retornou aos EUA com a missão de inserir linguagem sobre autodefesa israelense sem esvaziar a ênfase em proteção de civis — um equilíbrio descrito como exercício de diplomacia de alta corda.
  • O Brasil posiciona sua histórica amizade simultânea com Israel e com a Palestina como credencial única para mediar o diálogo, argumentando que essa postura protege também os próprios cidadãos brasileiros no exterior.

No auge de uma das crises humanitárias mais urgentes do século, o Brasil — ocupando a presidência do Conselho de Segurança da ONU — viu sua primeira proposta de resolução sobre a guerra entre Israel e Hamas ser vetada pelos Estados Unidos por omitir o direito de autodefesa israelense. O chanceler Mauro Vieira retornou a Nova York carregando não apenas um texto reformulado, mas uma tradição diplomática de equilíbrio que o Brasil reivindica como ponte entre dois povos em conflito. A busca pelo mínimo denominador comum revela, em escala global, a dificuldade de transformar princípios compartilhados em palavras que todos aceitem.

Na tarde de 18 de outubro de 2023, o chanceler Mauro Vieira embarcava para Nova York com uma missão reformulada: apresentar ao Conselho de Segurança da ONU uma nova versão da resolução sobre a guerra entre Israel e Hamas, horas depois de a primeira tentativa brasileira ser bloqueada pelo veto dos Estados Unidos.

O Brasil presidia o Conselho naquele mês e havia construído uma proposta que reconhecia os ataques do Hamas em 7 de outubro e a captura de reféns, ao mesmo tempo em que clamava por corredores humanitários para Gaza e pela saída de estrangeiros pelo Egito. Doze países votaram a favor, mas Washington disse não — a embaixadora Linda Thomas-Greenfield explicou que os EUA ficaram "desapontados" por o texto não mencionar o direito de autodefesa israelense.

Em audiência no Senado, Vieira descreveu a estratégia como a busca por um "mínimo denominador comum" entre posições que pareciam inconciliáveis. Ele sublinhou que a proposta não era apenas brasileira, mas articulada pelo Brasil como presidente do Conselho a partir de consultas em diversas capitais. Agora, o desafio era incorporar a linguagem exigida pelos EUA sem perder o apoio dos doze países que já haviam dito sim.

O ministro invocou o patrimônio diplomático do Brasil — um país que mantém relações de amizade tanto com Israel quanto com a Palestina e que defende a solução de dois Estados em paz, dentro de fronteiras mutuamente reconhecidas. Essa posição de equilíbrio, disse Vieira, não era apenas princípio: era também um escudo protetor para brasileiros que vivem ou transitam por regiões de conflito. O que viria a seguir dependeria da disposição de cada lado em ceder o suficiente para que as palavras, finalmente, coubessem numa mesma página.

Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores do Brasil, embarcaria ainda na quarta-feira (18 de outubro) para Nova York. Sua missão era clara: voltar à mesa de negociações no Conselho de Segurança da ONU com uma proposta reformulada sobre a guerra entre Israel e Hamas. Horas antes, a primeira tentativa brasileira havia sido rejeitada em votação — bloqueada pelo veto dos Estados Unidos.

O contexto era delicado. O Brasil ocupava a presidência do Conselho de Segurança naquele mês e havia apresentado uma resolução que buscava estabelecer um terreno comum entre posições radicalmente diferentes. A proposta reconhecia os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023 e a captura de reféns civis, mas também enfatizava a necessidade urgente de corredores humanitários para levar ajuda a Gaza e permitir que estrangeiros saíssem pela fronteira com o Egito. Doze países votaram a favor — entre eles China e França. Rússia e Reino Unido se abstiveram. Mas o voto americano foi não, e um veto no Conselho de Segurança encerra qualquer resolução.

Em audiência na Comissão de Relações Exteriores do Senado, Vieira explicou a estratégia. Não se tratava, disse ele, de um projeto puramente brasileiro, mas de uma proposta articulada pelo Brasil como presidente do Conselho, construída a partir de contatos e consultas em Nova York e nas principais capitais do mundo. O objetivo era encontrar aquele "mínimo denominador comum" — a menor base de acordo possível entre interesses tão distintos que pareciam inconciliáveis.

A justificativa americana para o veto foi específica: a embaixadora Linda Thomas-Greenfield disse que os EUA ficaram "desapontados" porque o texto não mencionava explicitamente o direito de autodefesa de Israel. Era um ponto não negociável para Washington, e Vieira agora precisava encontrar uma forma de incorporá-lo sem perder o apoio dos países que já haviam votado sim.

O ministro enfatizou que o Brasil tinha credenciais históricas para essa mediação. Como país amigo tanto de Israel quanto da Palestina, o Brasil mantinha uma posição de equilíbrio que lhe permitia dialogar com ambos os lados. Essa postura, disse Vieira, era um patrimônio diplomático que transcendia governos — era patrimônio do povo brasileiro. Ele reforçou o compromisso histórico com o Estado de Israel e também com a legítima aspiração nacional do povo palestino de construir seu próprio Estado. A solução que o Brasil buscava era a convivência de dois estados em paz e segurança, dentro de fronteiras mutuamente acordadas e internacionalmente reconhecidas.

Vieira também mencionou uma dimensão prática dessa posição equilibrada: ela funcionava como um "escudo protetor" para os cidadãos brasileiros no exterior que pudessem ser subitamente afetados por situações de conflito. Manter boas relações com ambos os lados não era apenas princípio diplomático — era proteção concreta para brasileiros.

Agora, com a volta a Nova York, Vieira enfrentava a tarefa de reformular a proposta de forma que satisfizesse o veto americano sem alienar os doze países que já haviam apoiado a versão anterior. Era um exercício de diplomacia de alta corda: adicionar linguagem sobre autodefesa israelense mantendo intacta a ênfase em ajuda humanitária e proteção de civis. O que viria a seguir dependeria de quão flexível cada lado poderia ser.

É preciso ficar claro que não se trata de um projeto de resolução brasileiro, mas de um projeto articulado pelo Brasil na condição de presidente do Conselho de Segurança
— Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores
Como país amigo do Estado de Israel e do Estado da Palestina, a posição e o compromisso do Brasil é em favor do diálogo e negociações que conduzam a uma solução de dois estados
— Mauro Vieira
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