Matogrosso estreou na Festa do Peão há 49 anos em palco tablado no Centro da cidade, cantando simultaneamente com Tião Carreiro & Pardinho. A organização exigia que os artistas cantassem sem pausas ou falas desnecessárias, refletindo a seriedade e exigência que marcaram o evento desde suas origens.
Matogrosso relembra estreia há 49 anos na Festa do Peão: 'Não podia falar nada'
Canta sem falar nada — foi chocante, mas tinha valor
Como era cantar simultaneamente com outra dupla no mesmo palco, sem nenhuma separação?
Era caótico e perfeito ao mesmo tempo. Você tinha que ser absolutamente preciso com seu tempo, sua afinação, sua energia. Não havia espaço para erro porque o público ouvia tudo acontecendo junto. Era como um diálogo musical que ninguém havia planejado.
E essa ordem de não falar nada — você sentiu como uma restrição ou como um desafio?
No momento foi chocante, confesso. Mas depois entendi que era um ato de respeito ao público. Eles queriam música pura, sem filtro, sem conversa mole. A organização estava dizendo: vocês estão aqui para cantar, não para conversar.
Você acha que essa exigência rigorosa é o que fez a Festa do Peão durar tanto tempo?
Tenho certeza. Quando você estabelece um padrão alto desde o começo e não negocia, você cria uma reputação. As pessoas sabem que vão receber o melhor. Não é um show qualquer, é a Festa do Peão.
O que mudou mais entre 1977 e agora?
A estrutura física, a tecnologia, o tamanho do público. Mas a exigência continua a mesma. Talvez até maior. O que não mudou é a seriedade com que a gente trabalha.
Qual é o conselho mais importante que você daria a um jovem artista hoje?
Que ele tenha certeza de que é do ramo. Não é uma carreira para quem quer fama fácil. É para quem acorda pensando em música, que dorme pensando em música. E humildade — sempre humildade.
Você se vê cantando daqui a mais 49 anos?
Não sei se vou estar aqui, mas enquanto estiver, estarei no palco. A música não me deixa parar.
O Pulso
- Matogrosso estreou na Festa do Peão de Barretos em 1977, há 49 anos
- Cantou simultaneamente com Tião Carreiro & Pardinho no mesmo palco tablado
- A organização proibia falas entre músicas: 'Canta sem falar nada'
- Aos 76 anos, é a voz mais antiga ainda em atividade no evento
- Divide o palco atualmente com Rafael Belchior, seu afilhado desde 2009
Matogrosso estreou na Festa do Peão há 49 anos em palco tablado no Centro da cidade, cantando simultaneamente com Tião Carreiro & Pardinho. A organização exigia que os artistas cantassem sem pausas ou falas desnecessárias, refletindo a seriedade e exigência que marcaram o evento desde suas origens.
Matogrosso, voz mais antiga em atividade na Festa do Peão de Barretos, relembra sua estreia em 1977 e compartilha memórias de um evento com dinâmica bem diferente da atual, incluindo orientações rigorosas da organização.
Matogrosso subiu ao palco da Festa do Peão de Barretos na noite de domingo, 23 de agosto, logo após o encerramento da etapa final da Professional Bull Riders Brasil. Aos 76 anos, ele carrega consigo um título que poucos podem reivindicar: é a voz mais antiga ainda em atividade no evento. Sua primeira apresentação aconteceu há 49 anos, em 1977, quando a festa funcionava de forma radicalmente diferente da megaestrutura que existe hoje no Parque do Peão.
Naquela época, o rodeio ainda ocupava o Centro da cidade. O palco era um tablado simples — um tabladão, como Matogrosso o descreve — e a estrutura física refletia uma lógica de organização bem mais rudimentar. Depois do palco havia mesas, e depois das mesas o público em pé. Foi nesse cenário que Matogrosso e sua dupla Matogrosso & Mathias fizeram sua estreia, em um formato que hoje parece quase impossível: cantavam simultaneamente com outros gigantes do gênero sertanejo. Tião Carreiro & Pardinho tocavam uma música enquanto eles tocavam outra, tudo no mesmo palco, ao mesmo tempo. "É claro que o nosso repertório era pequeno, perto do deles", recorda Matogrosso com a nostalgia de quem viveu um momento irrepetível.
Mas a memória que mais marca sua lembrança daquele dia é uma orientação que recebeu da organização do evento. Era uma instrução direta e sem margem para negociação: "Canta sem falar nada". Os organizadores não queriam pausas entre as músicas, não queriam conversas desnecessárias, não queriam nada que interrompesse o fluxo de apresentações. "Foi chocante isso aí! Não podia falar nada", diz Matogrosso. Ele e sua dupla entraram no palco e fizeram exatamente isso — cantaram uma música, depois outra, depois outra, sem uma palavra sequer dirigida ao público. Nenhuma anedota, nenhuma saudação, nenhuma pausa para respirar.
Para Matogrosso, aquela exigência rigorosa não era um obstáculo ou uma humilhação. Era, na verdade, um sinal de seriedade. "Você vê que a exigência deles nessa época já era grande. E isso tem valor. Isso que eles fizeram tem valor, porque olha onde eles chegaram", reflete. A Festa do Peão de Barretos se tornou uma das maiores instituições da música sertaneja justamente porque manteve esse padrão de exigência desde o início. Não era um evento para amadores ou para quem quisesse apenas passar o tempo. Era um lugar onde a música era o que importava, e tudo mais era secundário.
Hoje, Matogrosso divide o palco com Rafael Belchior, seu afilhado que assumiu o lugar de Mathias em 2009. Aos 76 anos, ele continua cantando, continua se apresentando, continua sendo a voz mais antiga em atividade no evento que o viu estrear há quase meio século. E quando fala sobre o que mantém a dupla e a festa vivas, ele volta sempre aos mesmos dois pontos: seriedade e exigência. "A seriedade que eles têm muita e a exigência. Dar todo o melhor para o público, isso que é importante também. É por isso que a festa está aí."
Quando aconselha os artistas mais jovens que estão começando suas carreiras, Matogrosso é direto. Primeiro, é preciso ter certeza de que se é realmente do ramo. "A pessoa tem que saber se ele realmente é do ramo. Primeiro tem que ter consciência se ele é do ramo", diz. Ele não quer ofender ninguém, mas quer falar sua verdade: na sua época, e até hoje, quem não era do ramo simplesmente não entrava. Segundo, é preciso humildade. "Isso também é importante, humildade para os novos que estão começando." Para Matogrosso, essas não são críticas, mas lições que os artistas em ascensão deveriam se espelhar. São os valores que o mantiveram no palco por quase cinco décadas.
Citações Notáveis
Era diferente: era um palco tablado, um tabladão. Cantamos em cima do palco ao mesmo tempo com Tião Carreiro & Pardinho. Eles cantavam uma música, a gente cantava outra.— Matogrosso, sobre sua estreia em 1977
A pessoa tem que saber se ele realmente é do ramo. Primeiro tem que ter consciência se ele é do ramo.— Matogrosso, aconselhando artistas iniciantes