Felinto retorna ao mercado editorial após 16 anos sem publicar, ressurgindo com publicação independente e agora em editora de prestígio. Os contos exploram a evolução da experiência feminina, nostalgia do passado rural e a transição entre a mulher feita e a mulher se fazendo.
Marilene Felinto lança 'Mulher Feita' e reafirma ambivalência com a escrita
Escrever é uma coisa que pessoas normais não fazem
Essa frase inicial — "admiro muito quem não escreve" — é uma confissão ou uma provocação?
Acho que é os dois. Ela está falando sério sobre a inutilidade que sente na escrita, mas ao mesmo tempo está em um lançamento de livro. Há uma contradição real ali que ela não resolve.
Mas a gente sabe por quê ela escreve, certo? O trauma da migração. Isso é documentado no texto.
Sim, e ela mesma diz isso. Escrever foi como ela processou aquela mudança traumática. Então a admiraçãopor quem não escreve é quase um lamento — se pudesse, talvez não precisasse.
Dezesseis anos sem publicar. Isso é um silêncio deliberado ou um desaparecimento?
Ela voltou por conta própria, através de publicação independente. Não parece que foi forçada. Mas também não sabemos exatamente o que aconteceu nesses anos.
O texto não explica. Só diz que ela ficou 16 anos sem publicar e depois ressurgiu. A razão fica em aberto.
E agora ela diz que o próximo livro vai ser o último. Aos 64 anos. Isso é uma decisão ou um desejo?
Ela invoca Freire e Suassuna, que aos 70 ainda tinham livros para escrever. Parece que ela quer escapar disso — quer terminar antes de ficar presa.
Mas o texto termina com "para os escritores, morte é algo bem relativo". Isso é uma piada sobre como escritores nunca param de escrever, ou é uma observação sobre como eles vivem através das palavras?
Provavelmente os dois. É uma forma de dizer que a promessa dela de parar pode não se cumprir.
Os contos em si — eles refletem essa ambivalência dela com a escrita?
Sim. "Primeira Morte" é sobre alguém que abandona a escrita para se tornar mecânico. É quase autobiográfico em espírito, mesmo que não seja literalmente.
Mas a gente não tem acesso aos contos completos. Só temos fragmentos e interpretações de Wisnik e Chauí.
Le Pouls
- Marilene Felinto ficou 16 anos sem publicar um livro
- Lançamento de 'Mulher Feita' pela editora Fósforo em 2022
- Migração traumática de Pernambuco para São Paulo na pré-adolescência
- Trabalha em novo romance que espera ser seu último, aos 64 anos
Felinto retorna ao mercado editorial após 16 anos sem publicar, ressurgindo com publicação independente e agora em editora de prestígio. Os contos exploram a evolução da experiência feminina, nostalgia do passado rural e a transição entre a mulher feita e a mulher se fazendo.
A escritora Marilene Felinto lança 'Mulher Feita', coletânea de contos inéditos pela editora Fósforo, explorando experiências femininas e memórias de sua infância em Pernambuco.
Marilene Felinto senta à mesa de lançamento de seu novo livro e diz uma coisa que parece vir do fundo de um poço: ela admira profundamente quem não escreve. Tinha cinco irmãos em casa quando criança — quatro mulheres e um homem — e nenhum deles precisou colocar palavras no papel para lidar com os traumas que a vida lhes impôs. A frase revela tudo sobre a mulher que está ali: uma escritora que vive permanentemente à beira de sua própria profissão, dentro e fora da literatura ao mesmo tempo, dentro e fora do jornalismo, sempre um pouco deslocada dos círculos que a cercam.
Os acadêmicos a reconhecem como uma das maiores autoras brasileiras — José Miguel Wisnik e Marilena Chauí estão ali para testemunhar isso — mas Felinto segue se comportando como uma outsider irredutível, alguém que nunca se deixou domesticar pelos salões literários. Essa tensão, essa recusa de pertencer completamente, pulsa através de seus contos. Em "Primeira Morte", um de seus melhores textos, o protagonista abandona a escrita para se tornar mecânico, rejeitando o trabalho intangível das palavras em favor do trabalho das mãos. "Como escrever era um processo vivo, pulsante, não quis mais conviver com aquilo", diz o conto. A história fala de alguém que perdeu interesse por tudo aquilo que tem vida própria, que resiste e cede conforme quer, que surpreende — exatamente o que a literatura é.
Felinto conhece bem essa recusa. Ficou dezesseis anos sem publicar um livro, desaparecida do circuito editorial. Quando retornou, foi por suas próprias forças, através de uma publicação independente. Agora chega a "Mulher Feita" pela editora Fósforo, depois de reeditar seu clássico "As Mulheres de Tijucopapo" pela Ubu. Mas mesmo neste momento de retorno, ela insiste: escrever é algo que pessoas normais não fazem. Sabe que tem valor — as pessoas leem porque a escrita acrescenta algo a elas — mas carrega uma sensação de inutilidade que não consegue explicar direito.
O que Felinto também sabe, ainda que não o diga assim, é que escrever para ela é inevitável. Foi através das palavras que conseguiu processar a mudança traumática de sua vida: a migração da família de Pernambuco para São Paulo quando era pré-adolescente, a passagem de uma casa tranquila para a violência de uma metrópole. Esse passado que ficou em Recife segue sendo muito forte para ela, sempre. Fui marcada por aquele contexto familiar e social, diz, de fome mas também de muita alegria, uma paisagem idílica que é o oposto completo de São Paulo. Essas placas tectônicas continuam movimentando sua literatura até hoje.
Os contos de "Mulher Feita" estão carregados dessa nostalgia. A maioria olha para um passado rural que, se não é idealizado, é observado com uma curiosidade disparada pelo afeto. Em "Hipertexto a Lápis", uma mulher adulta tenta desenhar a professora que tentou lhe ensinar, quando menina, o que era beleza. "Canja" tece uma receita de frango com uma viagem pela memória sensorial. "Formiga Moderna" é o encontro de duas gerações de mulheres, fascinadas uma pela outra e unidas pelo costume de comer tanajuras. O livro todo, como o próprio título sugere, está interessado na evolução da experiência feminina. O conto que dá nome à coletânea relata o processo gradual de uma adolescente que se acostuma à existência de seus seios, passando do estranhamento à afirmação. "A imagem ao espelho ia aos poucos voltando ao normal: peitos. Socorro! Eles eram, afinal, órgãos mais visíveis, mais notáveis do que a trolha de que muitas vezes ela teve vontade de rir, vida afora, no calor dos dias."
Wisnik vê nestes contos uma exploração do meio do caminho entre a mulher feita e a mulher se fazendo. Chauí, que dividiu a mesa de lançamento com ele e Felinto em São Paulo, interpreta as histórias como narrativas sobre como a diferença vai se tornando identidade. Essa dicotomia é integral na vida e obra de Felinto. No evento e em privado com o repórter, ela reforçou insistentemente que este livro não tem a menor importância. Mas na mesma conversa, comentou com vivacidade sobre o romance que está preparando — espera publicar no próximo ano. Pretende que seja seu último.
Felinto lembra de quando, nos anos 1990, entrevistou Paulo Freire e Ariano Suassuna para a Folha. Ambos, então septuagenários, disseram que ainda não podiam morrer porque precisavam terminar o livro que estavam escrevendo. "E eu não quero chegar aos 70 anos achando que tenho mais um livro para escrever", diz ela, aos 64. Vamos ver. Como sabemos, para os escritores, morte é algo bem relativo.
Citations marquantes
Eu admiro muito quem não escreve— Marilene Felinto
Esse passado que ficou em Recife é muito forte para mim, sempre, sempre. Fui muito marcada por aquele contexto familiar e social, de fome, mas de muita alegria.— Marilene Felinto