Mais de 20 países já vacinam adolescentes dos 12 aos 15 anos com estratégias distintas

Mais de vinte países, caminhos completamente diferentes
Enquanto alguns países abraçavam vacinação universal de adolescentes, outros escolhiam proteger apenas os mais vulneráveis.
Mark

Porque é que alguns países vacinam todos os adolescentes e outros apenas os que têm doenças?

Mimi

Porque a decisão envolve um cálculo de risco diferente. Um país como a França viu o benefício de proteger toda a população jovem. Portugal e a Alemanha decidiram que o risco de covid grave nesta idade é baixo o suficiente para justificar vacinar apenas os mais vulneráveis.

Mark

E a miocardite? Isso não assustou as autoridades?

Mimi

Assustou, sim. Mas os números de Israel foram tranquilizadores — três casos em mais de 200 mil crianças vacinadas. Ainda assim, Portugal preferiu esperar por mais dados antes de expandir.

Mark

Qual era o argumento da OMS contra a vacinação universal?

Mimi

A escassez global. Se países ricos vacinavam adolescentes saudáveis, enquanto países pobres não tinham vacinas para os seus profissionais de saúde, isso era eticamente questionável. Era um argumento de justiça, não de segurança.

Mark

Mas os EUA vacinaram sete milhões de adolescentes. Isso não contradiz o apelo da OMS?

Mimi

Contradiz, sim. Os EUA tinham doses suficientes e consideraram que o benefício local justificava a decisão. Nem todos os países tinham essa abundância.

Mark

Portugal tinha 410 mil adolescentes nesta idade. Quantos foram vacinados?

Mimi

A reportagem não diz. Apenas que muitos já estariam imunizados pela infeção natural. Portugal estava a ser cauteloso, vacinando apenas os com comorbilidades enquanto aguardava mais evidência.

  • Com mais de 4,2 milhões de mortes acumuladas, a pressão para expandir a vacinação a adolescentes tornou-se irresistível em dezenas de países ao longo do verão de 2021.
  • A aprovação das vacinas Pfizer e Moderna pela Agência Europeia de Medicamentos para os 12 aos 15 anos abriu a porta, mas não ditou o caminho: cada país escolheu o seu próprio ritmo e critério.
  • A miocardite — uma inflamação cardíaca rara detetada em alguns jovens vacinados nos EUA, sobretudo rapazes — lançou uma sombra de incerteza sobre a vacinação universal desta faixa etária.
  • A OMS e o Centro de Controlo de Doenças Europeu apelaram à contenção, argumentando que vacinar adolescentes saudáveis enquanto países pobres careciam de doses era uma questão ética inadiável.
  • Portugal manteve-se na linha da precaução, vacinando apenas jovens com comorbilidades e aguardando mais estudos antes de qualquer decisão de vacinação universal.

No segundo verão da pandemia, mais de vinte países enfrentaram uma das decisões mais delicadas da saúde pública moderna: vacinar ou não os adolescentes entre os 12 e os 15 anos contra a covid-19. Alguns escolheram a proteção universal; outros, como Portugal e a Alemanha, optaram pela cautela, reservando a vacina para os jovens com maior vulnerabilidade clínica. Entre a urgência de proteger e a prudência de aguardar mais evidência, a humanidade revelou, uma vez mais, que perante o desconhecido não existe uma única resposta certa — apenas escolhas feitas com o que se sabe no momento.

No verão de 2021, mais de vinte países tinham já decidido vacinar adolescentes entre os 12 e os 15 anos contra a covid-19 — mas com abordagens muito distintas. Enquanto Estados Unidos, França e Itália optaram pela vacinação universal, países como a Alemanha e Portugal restringiram a medida a jovens com doenças preexistentes, aguardando mais evidência científica antes de ir mais longe. Portugal, com cerca de 410 mil jovens nesta faixa etária, seguiu essa via cautelosa, com a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, a sublinhar que recomendações mais amplas só viriam com mais estudos.

A base regulatória estava estabelecida: a Agência Europeia de Medicamentos aprovara as vacinas da Pfizer e da Moderna para este grupo etário, com eficácia superior a 90% e efeitos secundários semelhantes aos dos adultos — dor local, cansaço, febre e dores musculares. Uma preocupação específica era a miocardite, detetada em alguns casos nos EUA, embora em Israel, com mais de 200 mil jovens vacinados, apenas três casos tivessem sido identificados.

Na Europa, a Alemanha foi pioneira mas cautelosa, recomendando a vacina apenas a adolescentes com comorbilidades. França e Itália avançaram com vacinação universal em junho; Espanha preparava-se para vacinar os jovens dos 12 aos 17 anos antes do regresso às aulas. Fora do continente, os EUA já tinham vacinado mais de sete milhões de adolescentes nesta faixa etária, e o Chile foi um dos primeiros na América Latina a agir.

A decisão, porém, não era isenta de tensão ética. A OMS e o Centro de Controlo de Doenças Europeu apelaram à prudência, argumentando que a escassez global de vacinas tornava moralmente problemático priorizar adolescentes saudáveis em países ricos. A pandemia somava, naquele momento, mais de 199 milhões de casos confirmados e mais de 4,2 milhões de mortes — um pano de fundo que tornava cada escolha simultaneamente urgente e pesada de consequências.

No verão de 2021, enquanto a pandemia de covid-19 entrava no seu segundo ano, mais de vinte países já tinham tomado a decisão de vacinar adolescentes entre os 12 e os 15 anos — mas não todos da mesma forma. Alguns abraçaram a vacinação universal, oferecendo a injeção a qualquer jovem nesta faixa etária. Outros escolheram um caminho mais restritivo, protegendo apenas aqueles com doenças preexistentes que os colocavam em risco maior de desenvolver formas graves da doença. Portugal, com cerca de 410 mil jovens nesta idade, seguiria a segunda via, vacinando apenas os que tinham comorbilidades, enquanto aguardava mais evidência científica antes de qualquer expansão mais ampla.

A aprovação regulatória tinha chegado primeiro. Em maio, a Agência Europeia de Medicamentos deu luz verde à vacina da Pfizer/BioNTech para adolescentes dos 12 aos 15 anos, considerando-a eficaz na prevenção da covid-19. Duas semanas depois, a mesma agência aprovou a vacina da Moderna para o mesmo grupo etário, descrevendo-a como altamente eficaz. Os ensaios clínicos dos dois laboratórios mostravam que os efeitos secundários nesta faixa etária eram semelhantes aos observados em pessoas mais velhas: dor no local da injeção, cansaço, dor de cabeça, dores musculares e articulares, e febre. Ambas as empresas já estavam a conduzir testes em crianças mais novas, até aos dez anos.

Os Estados Unidos e o Canadá foram os primeiros a agir. Os americanos tinham dados de um estudo com a vacina da Pfizer que demonstrava uma eficácia superior a 90% nesta faixa etária, e os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças aprovaram o seu uso. O Canadá começou em maio, os EUA a meio do mês. Até ao momento em que esta reportagem foi escrita, mais de sete milhões de adolescentes americanos entre os 12 e os 15 anos já tinham recebido a vacina. Israel, um dos países com o programa de vacinação mais avançado no mundo, começou em junho com a Pfizer, mas o seu Ministério da Saúde recomendou que a vacinação começasse pelos jovens em grupos de risco.

Na Europa, a Alemanha foi a primeira a avançar, em 27 de maio, mas com uma abordagem cautelosa. O seu Comité Permanente de Vacinação, composto por investigadores do Instituto Robert Koch em Berlim, recomendou a vacinação apenas de adolescentes dos 12 aos 17 anos com doenças preexistentes, sem fazer qualquer recomendação universal. França anunciou a sua decisão a 31 de maio e começou a vacinar universalmente a 15 de junho. Itália seguiu no mesmo dia, também com vacinação universal, tendo imunizado 4,6 milhões de jovens entre os 12 e os 19 anos até à data. O Reino Unido aprovou a vacina da Pfizer para os 12 aos 15 anos a 4 de junho, após análise de segurança e eficácia. Espanha anunciou que vacinaria os jovens dos 12 aos 17 anos, começando duas semanas antes do regresso às aulas em setembro. A Áustria planeava vacinar mais de 340 mil crianças nesta faixa etária até ao fim de agosto, a Suíça aprovou a vacinação a partir de julho, e a Lituânia, Roménia e Estónia também avançaram ou estavam a preparar-se para o fazer.

Fora da Europa, o Chile foi um dos primeiros na América Latina, começando a 21 de junho. A China autorizou a sua vacina Coronavac para crianças acima dos três anos até aos 17. O Japão aprovou a Pfizer para os 12 aos 15 anos em maio, mas condicionou o avanço à vacinação prévia de profissionais de saúde e pessoas com 65 anos ou mais. Singapura, Hong Kong, Dubai e San Marino também aprovaram a vacinação a partir dos 12 anos. As Filipinas autorizaram a Pfizer para uso de emergência em crianças com doenças preexistentes.

Mas a decisão de vacinar adolescentes não era consensual. A Organização Mundial de Saúde e o Centro de Controlo de Doenças Europeu apelaram aos países para que não o fizessem de forma universal, argumentando que a escassez de vacinas em países mais pobres tornava essa escolha eticamente problemática. Uma das preocupações específicas era a miocardite, uma inflamação do músculo do coração, que tinha sido detetada em alguns casos nos EUA. Em Israel, porém, entre mais de 200 mil crianças vacinadas, apenas três casos de miocardite foram identificados, e os dados das últimas semanas não mostravam qualquer efeito secundário relevante nesta faixa etária. Os efeitos secundários registados globalmente eram idênticos aos dos adultos, embora a miocardite fosse mais frequente em rapazes.

Em Portugal, a Direção-Geral da Saúde, através da sua diretora-geral Graça Freitas, confirmou que o país vacinaria jovens dos 12 aos 15 anos com comorbilidades, com possibilidade de outras crianças serem vacinadas mediante acordo médico. Freitas argumentou que recomendações para vacinação universal desta faixa etária só viriam com mais estudos e evidência científica. Naquele momento, a pandemia tinha causado mais de 199 milhões de casos confirmados e mais de 4,2 milhões de mortes em todo o mundo.

A vacinação ou não ainda as faixas etárias mais jovens não tem sido uma decisão pacífica
— Contexto geral da reportagem
Mais recomendações para vacinação universal desta faixa etária, só com mais estudos e evidência científica
— Graça Freitas, diretora-geral da Saúde de Portugal
Contattaci Domande frequenti