Garcés sofre paralisia no lado esquerdo e dores intensas; médicos não conseguiram remover a bala pela proximidade com a coluna vertebral. Advogada denuncia tratamento inadequado na detenção, incluindo isolamento e retirada de privilégios de comunicação; DHS contesta acusações.
Mãe de venezuelano baleado pelo ICE pede cirurgia urgente com bala alojada na coluna
Atiraram em mim, atiraram em mim
Por que esse caso importa além da história pessoal de Garcés?
Porque toca em questões fundamentais sobre como agências federais tratam migrantes durante operações — o uso de força, o acesso a cuidados médicos adequados, e se há responsabilização quando algo dá errado.
Mas precisamos ser claros: temos duas versões completamente diferentes do que aconteceu. A advogada diz que ele foi atingido sem motivo durante uma entrega. O DHS diz que era uma operação direcionada contra um imigrante sem status legal. O agente não usava câmera corporal, então não temos registro do disparo em si.
E quanto aos cuidados médicos? A mãe dele diz que ele não recebeu cirurgia, mas o DHS diz que recebeu atendimento 24 horas.
Há um ponto de concordância: a bala está lá, perto da coluna, e os médicos disseram que não conseguem removê-la com segurança. O que diverge é se ele recebeu o atendimento adequado enquanto estava detido — se foi isolado, se perdeu privilégios de comunicação, como foi tratado durante as transferências.
E isso importa porque, se verdadeiro, sugere que a prioridade não era sua saúde. Mas a advogada é a fonte principal dessas acusações. O DHS nega tudo. Não temos terceiros independentes confirmando os detalhes do tratamento na detenção.
Qual é a situação legal dele agora?
Um juiz bloqueou temporariamente sua deportação até 30 de setembro, quando ele tem que comparecer a uma audiência. Sua advogada está lutando para mantê-lo nos EUA enquanto o caso avança.
Mas "bloqueio temporário" é exatamente isso — temporário. A questão de fundo — se ele tem direito a permanecer nos EUA — ainda não foi resolvida. O DHS diz que sua autorização de trabalho expirou. A família diz que ele entrou legalmente com parole humanitário e tem um pedido de asilo pendente. Essas são alegações conflitantes que um tribunal terá que decidir.
E a investigação sobre o disparo?
Autoridades locais e estaduais pediram uma investigação independente. Mas o agente não usava câmera corporal, então a prova visual é limitada.
Exatamente. Sem câmera corporal, dependemos de testemunhas, câmeras de segurança, e relatos das partes envolvidas. A polícia de Austin divulgou vídeos, mas eles não mostram o momento do disparo — apenas o que veio depois. Isso torna a investigação mais difícil e deixa espaço para interpretações conflitantes.
Il Polso
- Wilber Rafael Garcés Pérez, 28 anos, venezuelano, baleado por agente do ICE em Austin, Texas, no domingo
- Bala alojada perto da coluna vertebral; fratura de clavícula; paralisia no lado esquerdo do corpo
- Juiz Orlando Garcia bloqueou temporariamente deportação até audiência em 30 de setembro
- Garcés tem filho com paralisia cerebral na Venezuela que depende de remessas para medicamentos
Garcés sofre paralisia no lado esquerdo e dores intensas; médicos não conseguiram remover a bala pela proximidade com a coluna vertebral. Advogada denuncia tratamento inadequado na detenção, incluindo isolamento e retirada de privilégios de comunicação; DHS contesta acusações.
Wilber Rafael Garcés Pérez, migrante venezuelano de 28 anos, foi baleado por agente do ICE em Austin e permanece sob custódia federal com projétil alojado perto da coluna vertebral. Sua mãe pede cirurgia urgente enquanto a Justiça bloqueia temporariamente sua deportação.
Wilber Rafael Garcés Pérez estava entregando comida pelo aplicativo DoorDash em Austin, no Texas, quando uma caminhonete preta sem identificação atingiu o lado de seu carro. O venezuelano de 28 anos não sabia que o veículo pertencia ao Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE). Ele fez um retorno. Segundos depois, seu carro foi atingido novamente. Agentes desembarcaram e atiraram contra ele.
Uma bala atravessou suas costas e ficou alojada perto da coluna vertebral. Garcés fraturou a clavícula. Nos dias seguintes, ele desenvolveu paralisia no lado esquerdo do corpo — não conseguia mover o braço, sentia inchaço significativo e dor intensa. Médicos disseram que não podiam remover o projétil pela proximidade perigosa com a coluna. Ele permanece sob custódia federal, e sua mãe, Flor Pérez, que estava em uma videochamada com o filho no momento do disparo, pediu uma cirurgia urgente. "Ele me ligou por videochamada, e eu o vi no momento em que estava estacionado, sentado dentro do carro", contou ela à AFP do estado de Lara, na Venezuela. "Então ele disse: 'Mãe, atiraram em mim, atiraram em mim'."
O que aconteceu depois da internação inicial levanta questões sobre o cuidado oferecido a Garcés. Sua advogada, Kate Lincoln-Goldfinch, afirmou que ele foi levado a um hospital na noite de segunda-feira após não conseguir movimentar o braço no centro de detenção. Após receber atendimento, foi devolvido à unidade. Horas depois, apresentando paralisia, foi transferido novamente para um hospital. Durante essa transferência, segundo Lincoln-Goldfinch, Garcés foi algemado nas mãos e tornozelos, preso a uma corrente na cintura e tratado de maneira brusca apesar dos ferimentos. A advogada também denunciou que funcionários retiraram seus privilégios de comunicação e o transferiram da enfermaria para uma sala isolada com uma cama plana e não ajustável. Flor Pérez relatou que o filho recebeu apenas analgésicos das enfermeiras e precisava de uma cama hospitalar adequada.
O Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS) contestou essas acusações. Em comunicado divulgado na terça-feira, o órgão afirmou que Garcés recebeu atendimento médico "24 horas por dia" e negou que tenha ficado sem analgésicos ou sido obrigado a dormir no chão. "Esse imigrante recebeu alta do hospital e chegou ao centro de detenção apenas algumas horas depois, onde dormiu em uma cama", disse o DHS. O secretário do departamento, Markwayne Mullin, declarou à BBC que Garcés recebeu "alguns dos melhores cuidados médicos que já teve em sua vida". O DHS também apresentou uma versão diferente dos eventos que levaram ao disparo, classificando Garcés como um "imigrante ilegal" sem status legal para permanecer nos Estados Unidos e afirmando que sua autorização de trabalho havia expirado no ano passado.
A família de Garcés contesta essa narrativa. Segundo seus parentes, ele estava há mais de cinco anos fora da Venezuela e entrou legalmente nos EUA há quase três anos pelo programa de parole humanitário, com um pedido de asilo em andamento. Uma familiar, Angelsis Vásquez, afirmou que ele tinha autorização para trabalhar como entregador do DoorDash. Sua tia, Gladys Pérez, manifestou o "repúdio absoluto" da família ao que classificou como uso excessivo da força. "A verdade é que não havia motivo para atirar em Wilber. Dizem que ele fugiu. No entanto, não me parece que isso seja um motivo. Ele não é um criminoso. Não deve ser tratado como tal", disse ela do estado de Yaracuy, na Venezuela.
O agente do ICE que baleou Garcés ingressou na agência no ano passado e não usava câmera corporal no momento do incidente, segundo fontes ouvidas pela CBS News. O Departamento de Polícia de Austin divulgou imagens de câmeras dos policiais que atenderam à ocorrência. As gravações não mostram o momento em que Garcés foi baleado, mas vários disparos podem ser ouvidos. Uma delas mostra policiais se aproximando do carro do venezuelano e detendo-o, com sua camiseta sendo cortada para revelar o que parece ser uma perfuração de bala nas costas. Autoridades locais e estaduais pediram uma investigação independente sobre o caso.
Paralelamente aos questionamentos sobre o incidente, sua advogada entrou com uma ação na Justiça federal para impedir que Garcés seja deportado. O juiz Orlando Garcia determinou que ele compareça pessoalmente a uma audiência em 30 de setembro, bloqueando temporariamente sua deportação até essa data. "Por enquanto, conseguimos um bloqueio temporário de sua deportação enquanto o caso avança", escreveu Lincoln-Goldfinch nas redes sociais. "Este é um passo importante, mas nosso trabalho ainda não terminou. Wilber ainda precisa de atendimento médico adequado, e continuaremos lutando para proteger seus direitos".
Na Venezuela, a situação é particularmente delicada para a família. Flor Pérez vive com o filho de Garcés, um menor de idade que tem paralisia cerebral desde o nascimento e depende financeiramente das remessas enviadas pelo pai do Texas para pagar medicamentos e tratamentos. Sua avó, María Flor Sequera, manifestou preocupação com o caso e disse esperar que "tudo isso termine bem", com a recuperação do neto e o esclarecimento de sua situação. Na terça-feira, o deputado democrata pelo Texas Joaquin Castro também pediu que Garcés seja libertado do centro de detenção. O caso aguarda investigação independente e a audiência de 30 de setembro, enquanto Garcés permanece sob custódia com a bala ainda em seu corpo.
Citazioni salienti
Ele está bastante machucado e com muita dor— Flor Pérez, mãe de Garcés, à AFP
A verdade é que não havia motivo para atirar em Wilber. Ele não é um criminoso. Não deve ser tratado como tal— Gladys Pérez, tia de Garcés