Madureira retoma celebrações da Consciência Negra com Baile Charme e eventos culturais

Não somos só um baile. Temos um conceito, um propósito.
DJ Michel explica por que o Baile Charme esperou dois anos para reabrir, respeitando a pandemia.
Mark

Por que o Baile Charme esperou tanto para voltar, se outros eventos já estavam acontecendo?

Mimi

Porque o baile tem uma responsabilidade que vai além de ganhar dinheiro. Michel e os organizadores entenderam que aquele espaço representa o movimento negro, não é só um lugar de diversão. Respeitaram a pandemia mesmo quando ninguém cobrava isso.

Mark

E a chegada de Gabi como primeira DJ mulher residente — isso muda algo no baile?

Mimi

Muda tudo. É uma mulher preta ocupando um lugar de poder, toda semana, na frente. Não é simbólico apenas. É estrutural. Ela está lá, decidindo a música, o ritmo, o que o povo vai dançar.

Mark

O Projeto Criolice, que acontece no mesmo dia, parece vir de uma tradição diferente. Como os dois eventos conversam?

Mimi

Conversam porque vêm da mesma raiz. O Criolice trabalha com samba, jongo, terreiros — a memória ancestral. O Baile Charme trabalha com hip hop, R&B, new jack — a modernidade negra. Mas os dois estão em Madureira, no mesmo sábado, celebrando a Consciência Negra. É a mesma luta, ritmos diferentes.

Mark

Por que o viaduto virou patrimônio cultural imaterial em 2013?

Mimi

Porque alguém — o prefeito Eduardo Paes — reconheceu que aquilo não era só um baile. Era história. Era resistência. Era um lugar onde a cultura negra carioca se reproduzia, se reinventava, se protegia contra a violência que cercava os bailes funk. Merecia proteção legal.

Mark

E agora, com a volta, o que muda para Madureira?

Mimi

A vida volta. Mas não é a mesma vida de antes. É uma vida que aprendeu a respeitar o risco, que entende seu próprio valor, que sabe que tem responsabilidade com quem vem dançar lá.

  • Baile Charme reabre no sábado, 20 de novembro, com DJs Fernandinho, Michell, Vig e Gabi
  • Gabi é a primeira mulher DJ residente do evento
  • Projeto Criolice realiza Zumbi Vive no mesmo dia, com roda de samba e capoeira
  • Baile Charme completou 30 anos em maio de 2020, mas celebração foi adiada
  • Viaduto de Madureira é patrimônio cultural imaterial desde 2013

O Baile Charme do Viaduto de Madureira volta no sábado com DJs residentes e a estreia de Gabi, primeira mulher DJ residente do evento. O Projeto Criolice realiza simultaneamente o evento Zumbi Vive com palestras, capoeira e roda de samba com músicos e cantoras da tradição negra carioca.

Madureira retoma celebrações do feriado da Consciência Negra com o retorno do Baile Charme do Viaduto após quase dois anos de pausa pela pandemia, além de eventos culturais como o Projeto Criolice.

Quase dois anos de silêncio. Quase dois anos sem a batida dos DJs, sem os passos dos frequentadores, sem a música que define um lugar. Madureira, na Zona Norte do Rio, estava em pausa — respeitosa, necessária, mas pausa mesmo. Agora, no feriado da Consciência Negra, a região volta a pulsar. O Baile Charme do Viaduto de Madureira reabre no sábado, dia 20, a partir das 22 horas, trazendo consigo hip hop, R&B, neo soul, soul e new jack. Os DJs Fernandinho, Michell, Vig e Gabi — esta última, a primeira mulher a ocupar o posto de DJ residente do evento — comandarão a noite.

Para DJ Michel, um dos sócios e organizadores, o retorno não é apenas uma festa. É uma responsabilidade. Durante a pandemia, enquanto a prefeitura mantinha as restrições, frequentadores cobravam o reabertura. O baile poderia ter ignorado as regras, como outros fizeram. Não fez. "Ficamos quase dois anos parados, respeitando a pandemia, por entender que o momento era delicado", explica Michel. "Pagamos um preço por isso porque muita coisa começou a rolar e as pessoas não entendiam. Mas o Baile Charme é um espaço que tem responsabilidade social. Não somos só um baile. Temos um conceito, um propósito que é atuar junto ao movimento negro." A chegada de Gabi marca uma transformação: uma mulher preta, toda semana, no toca-discos.

O baile completou 30 anos em maio do ano passado, mas a festa de aniversário ficou para dezembro. Será o último baile do ano, quando a comemoração finalmente acontecerá. Mas antes disso, há o retorno em si — e ele não é solitário. No mesmo sábado, mais cedo, a partir das 13 horas, o Projeto Criolice realiza o evento Zumbi Vive na Arena Fernando Torres, dentro do Parque de Madureira. Palestras, capoeira e a roda de samba tradicional do projeto preenchem a tarde. O repertório passa por Paulinho da Viola, Nei Lopes, Monarco, Candeia, Cartola, Nelson Cavaquinho — nomes que carregam a história do samba carioca. Há também ritmos de terreiros de umbanda, candomblé e jongo. Músicos como Arifan Júnior, Jair Silva, Michael Sapienza, Beloba e as cantoras Maryzelia, Flávia Saolli e Raphaela Mendes compõem o encontro.

O Viaduto Negrão de Lima, como é oficialmente chamado, tem uma história que começa em 11 de maio de 1990. Quatro amigos — Leno, Pedro, Edinho e Xandoca — entusiastas do samba, fundaram o bloco carnavalesco Pagodão de Madureira na parte inferior do viaduto. Menos de uma semana depois, em 19 de maio, um sábado, começou o Baile Charme. Os DJs residentes Markin New Charm, Kally e Loopy dividiram o toca-discos com convidados como Fernandinho e Corello. Três anos depois, o time se consolidou com Markin, Loopy, Michell, Kally e A.

Na década de 1990, o hip hop carioca estava em seu auge. Os bailes funk da época eram marcados pela violência. Os artistas do Viaduto escolheram outro caminho: o new jackswing, um ritmo que se espalhava por diversos bailes charme da cidade. Em 1995, o evento foi rebatizado como Projeto Rio Charme, e o viaduto passou por reformas para garantir segurança e controle. O espaço se tornou um centro de concentração popular, responsável pela difusão da cultura negra no estado. Recebeu artistas como Keith Sweat, Montell Jordan, Racionais MCs, Sandra de Sá — nomes que atravessam gerações e gêneros.

Em 2013, o prefeito Eduardo Paes assinou um decreto no Diário Oficial declarando o Baile Charme do Viaduto de Madureira como "Bem Cultural de Natureza Imaterial" da Cidade do Rio de Janeiro. Não era apenas um reconhecimento. Era uma proteção, uma afirmação de que aquele espaço, aquela música, aquela comunidade, importava. Importava o suficiente para ser preservado. Agora, com a reabertura, Madureira consolida seu papel não apenas como um lugar de festa, mas como um guardião da cultura negra carioca — um papel que, como Michel deixa claro, vai muito além do que toca nos alto-falantes.

Ficamos quase dois anos parados, respeitando a pandemia, por entender que o momento era delicado. Pagamos um preço por isso porque muita coisa começou a rolar e as pessoas não entendiam. Mas o Baile Charme é um espaço que tem responsabilidade social.
— DJ Michel, sócio e organizador do Baile Charme
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