A vinte e cinco anos dos ataques que redefiniram o mundo, um luso-americano filho de emigrantes de Leiria encontrou na gestão de um museu não apenas uma profissão, mas uma vocação moral. Renato Baptista, diretor de operações do Museu e Memorial do 11 de Setembro em Nova Iorque, dedica os seus dias a preservar a memória de quase três mil mortos — e de todos os que continuam a morrer na sombra desse dia. A memória, neste lugar, não é um arquivo do passado: é um ato contínuo de responsabilidade coletiva.
Luso-americano dedica-se a manter viva memória do 11 de Setembro 25 anos depois
O 11 de setembro não terminou naquele dia, continua
Porque é que achas que este trabalho importa tanto a Baptista? Ele poderia estar noutro sítio qualquer.
Porque ele vê o museu não como um edifício, mas como um compromisso. Ele diz que o 11 de Setembro não terminou — continua através das pessoas que morrem ainda hoje. Para ele, manter o espaço limpo e respeitoso é manter essa verdade viva.
Mas isso é uma interpretação pessoal dele. O que sabemos de facto é que ele trabalha lá há anos e que considera importante a manutenção. O resto é o que ele sente.
E aquele rapaz que deixa notas? Isso é real?
Sim, Baptista fala disso como algo que acontece todos os anos. Ele nunca conheceu o rapaz, mas vê as notas. É um testemunho do que o museu representa — um espaço onde as pessoas processam o luto de forma contínua.
Mas não sabemos a idade do rapaz, não sabemos exatamente o que escreve nas notas. Baptista está a recordar-se, a interpretar. É poderoso, mas é também filtrado pela memória dele.
Então o museu é mais do que um espaço de memória — é um espaço onde o luto continua?
Exatamente. E Baptista vê-se como guardião disso. Não é apenas manutenção física; é manutenção emocional e histórica.
Verdade. Mas também é importante notar que a segurança reforçada este ano não é apenas sobre o 11 de Setembro — é sobre o presente, sobre a guerra com o Irão. O passado e o presente estão entrelaçados neste espaço.
Isso muda a forma como vemos o memorial?
Talvez. Mostra que estes espaços não são estáticos. Continuam a evoluir, a responder ao mundo à sua volta.
Il Polso
- A cada ano que passa, o risco de esquecimento cresce — e é contra esse esquecimento que Baptista trabalha, num espaço construído sobre as próprias ruínas da tragédia.
- O impacto do 11 de Setembro não ficou congelado em 2001: trabalhadores de resgate continuam a morrer décadas depois, expostos a ar que as autoridades garantiram estar limpo mas que estava contaminado.
- Uma nota anónima deixada por um jovem junto ao nome do pai morto resume, para Baptista, o peso humano e intergeracional de uma dor que não tem data de validade.
- A cerimónia dos 25 anos, com ex-presidentes e segurança reforçada, reflete como o memorial oscila entre honrar o passado e navegar as tensões geopolíticas do presente — incluindo o conflito com o Irão.
- Manter o espaço limpo e respeitoso não é tarefa menor para Baptista: é a forma concreta e quotidiana como ele honra os mortos e reconhece os vivos que ainda sofrem.
A vinte e cinco anos dos ataques que redefiniram o mundo, um luso-americano filho de emigrantes de Leiria encontrou na gestão de um museu não apenas uma profissão, mas uma vocação moral. Renato Baptista, diretor de operações do Museu e Memorial do 11 de Setembro em Nova Iorque, dedica os seus dias a preservar a memória de quase três mil mortos — e de todos os que continuam a morrer na sombra desse dia. A memória, neste lugar, não é um arquivo do passado: é um ato contínuo de responsabilidade coletiva.
Renato Baptista trabalha todos os dias no lugar exato onde duas torres caíram há 25 anos. Como diretor de operações do Museu e Memorial do 11 de Setembro, em Nova Iorque, ele gere o espaço que assinala o local onde os aviões da Al-Qaida atingiram o World Trade Center, matando quase três mil pessoas. O trabalho é administrativo — orçamentos, manutenção, auditoria — mas Baptista vê nele algo mais profundo: a responsabilidade de preservar uma memória que nunca deve ser esquecida.
Filho de emigrantes do distrito de Leiria, nasceu em Mount Vernon, Nova Iorque. Formou-se em contabilidade e trabalhou anos nesse setor até que um colega português, o arquiteto Luís Mendes, lhe abriu a porta para o museu. Começou como assistente de operações e ascendeu ao cargo que ocupa hoje.
O Memorial ocupa o lugar exato das Torres Gémeas: duas piscinas com cascatas, rodeadas de parapeitos de bronze com os nomes de todas as vítimas. O Museu, no subsolo, conta a história através de objetos, fotografias, testemunhos e destroços. Documenta também o ataque de 1993, quando um camião armadilhado explodiu na garagem da Torre Norte.
Há um pormenor que marca Baptista acima de tudo: todos os anos, um jovem que perdeu o pai nos ataques deixa uma nota junto ao nome do pai, descrevendo onde está na vida naquele momento. Baptista nunca o conheceu, mas espera um dia poder encontrá-lo. 'É o que mais me corta o coração', confessou.
Para Baptista, o 11 de Setembro não terminou naquele dia. Continua através dos trabalhadores de resgate que morrem hoje devido à exposição a contaminantes, num legado de sofrimento que o museu se recusa a deixar cair no silêncio.
Este ano, a cerimónia dos 25 anos contará com familiares das vítimas, todos os ex-presidentes norte-americanos vivos e o vice-presidente JD Vance. A segurança será reforçada — não só pela presença de figuras políticas, mas também porque, como Baptista explica, a guerra com o Irão adicionou uma nova camada de insegurança ao mundo. O memorial que existe para lembrar uma tragédia passada reflete agora, também, as tensões do presente.
Renato Baptista trabalha todos os dias no lugar exato onde duas torres caíram há 25 anos. Como diretor de operações do Museu e Memorial do 11 de Setembro, em Nova Iorque, ele gere o espaço que marca o local onde os aviões sequestrados pela Al-Qaida atingiram o World Trade Center, matando quase três mil pessoas. O trabalho é administrativo — contabilidade, auditoria, orçamentos, manutenção — mas Baptista vê nele algo mais profundo: a responsabilidade de manter viva uma memória que, diz ele, nunca deve ser esquecida.
Filho de emigrantes do distrito de Leiria, Baptista nasceu em Mount Vernon, Nova Iorque. Formou-se em contabilidade e trabalhou anos nesse setor, até cansar das longas horas. Um colega português, o arquiteto Luís Mendes, que ocupava cargo de chefia na Autoridade Portuária de Nova Iorque e Nova Jérsia, ofereceu-lhe a oportunidade de mudar. Começou como assistente de operações no museu e rapidamente ascendeu ao cargo que ocupa hoje.
O Memorial situa-se no exato lugar das Torres Gémeas. Duas piscinas gémeas com cascatas ocupam o espaço, cercadas por parapeitos de bronze onde estão inscritos os nomes de todas as vítimas. O Museu fica no subsolo e conta a história através de objetos, fotografias, vídeos, testemunhos e destroços recuperados. O complexo também documenta o ataque anterior, de 26 de fevereiro de 1993, quando um camião armadilhado explodiu na garagem subterrânea da Torre Norte. Tudo isto existe para que as pessoas não esqueçam.
Mas há um detalhe que marca Baptista mais do que qualquer outro aspecto do seu trabalho. Todos os anos, um jovem que perdeu o pai nos ataques deixa uma nota junto ao nome do pai no memorial. Na nota, o rapaz descreve onde está na vida naquele momento — a terminar o liceu, a entrar na universidade, a progredir. Baptista nunca conheceu este jovem, mas espera um dia poder encontrá-lo. "É o que mais me marca, mais me corta o coração, é ver aquela nota desse rapaz", disse em entrevista.
Para Baptista, o 11 de Setembro não terminou naquele dia. Continua através das vítimas posteriores — os trabalhadores de resgate que hoje morrem devido às consequências dos ataques, expostos a ar que as autoridades disseram estar limpo mas que não estava. O museu existe para manter essa realidade contínua presente na consciência coletiva. "O nosso objetivo aqui no museu é manter essa memória sempre viva: sem que os americanos e o mundo se possam esquecer."
Quanto ao que mais o satisfaz no trabalho, Baptista é claro: manter o espaço limpo e com respeito. Não é uma tarefa menor. É a forma como ele honra os mortos e reconhece os vivos que continuam a sofrer as consequências.
Este ano, a cerimónia de comemoração dos 25 anos será diferente. Está marcada para sexta-feira e contará com a presença de familiares das vítimas, de todos os ex-presidentes norte-americanos vivos e do atual vice-presidente, JD Vance. A cidade prepara-se com segurança reforçada — não apenas pela presença de figuras políticas de relevo, mas também porque, como Baptista explica, a guerra com o Irão acrescentou um novo grau de insegurança ao mundo. O memorial que existe para lembrar uma tragédia passada agora também reflete as tensões do presente.
Citazioni salienti
É o que mais me marca, mais me corta o coração, é ver aquela nota desse rapaz— Renato Baptista, sobre o jovem que deixa notas anuais junto ao nome do pai no memorial
O nosso objetivo aqui no museu é manter essa memória sempre viva: sem que os americanos e o mundo se possam esquecer— Renato Baptista