Lula muda discurso para defender equilíbrio fiscal e atacar plano de Flávio

Estabilidade fiscal é uma coisa obrigatória, não é nem mérito
Lula tenta reverter danos causados por comentário anterior sobre 'babaquice' de superávit, reposicionando-se como defensor da responsabilidade fiscal.
Mark

Por que Lula está mudando de discurso agora, no segundo turno, e não antes?

Mimi

Porque o resultado do primeiro turno foi um baque. Flávio saiu na frente, e o mercado financeiro começou a sinalizar que confiava mais nas propostas fiscais dele. Lula percebeu que precisava falar a linguagem que empresários e banqueiros queriam ouvir.

Luke

Mas ele já tinha ministros da Fazenda e Planejamento dizendo isso. Por que o mercado não acreditava neles?

Mimi

Porque o mercado quer ouvir do presidente. Quando Lula disse "babaquice de fazer superávit", em setembro, destruiu toda a credibilidade que os ministros estavam construindo.

Mark

Então essa mudança de discurso é suficiente para ganhar a confiança de volta?

Mimi

Ninguém sabe. Auxiliares dele reconhecem que pode ter chegado tarde demais. Mas ele está tentando mostrar que fez superávit em oito anos de governo anterior e conquistou investment grades.

Luke

Espera — ele está comparando seu governo anterior com agora? Porque agora ele está com déficit de 2,8% do PIB, não superávit.

Mimi

Exatamente. Por isso a estratégia é complicada. Ele não quer cortar programas sociais, mas o mercado quer ver ajuste fiscal. Está tentando conciliar os dois.

Mark

E quanto ao ataque a Flávio? Isso funciona?

Mimi

A campanha está apontando que o "tesouraço" de Flávio vai cortar Pé-de-Meia, Farmácia Popular, Merenda Escolar — coisas que afetam os pobres.

Luke

Mas Flávio ainda não detalhou exatamente onde vai cortar. Então ambos estão fazendo promessas sem explicar como vão cumprir.

Mimi

Verdade. Lula promete estabilidade fiscal sem detalhar medidas. Flávio promete cortes sem detalhar onde. O eleitor fica no escuro.

Mark

Qual é a aposta de Lula, então?

Mimi

Que consegue convencer o mercado de que é responsável fiscalmente, enquanto convence os pobres de que vai proteger os programas sociais. É uma aposta arriscada.

  • Lula recebeu Orçamento com déficit de 2,8% do PIB e propõe superávit de 0,1% para 2027
  • Comentário sobre 'babaquice de fazer superávit' em 12 de setembro teve péssima repercussão entre empresários e mercado financeiro
  • Plano de ajuste de Flávio considera cortar até R$ 250 bilhões em benefícios da Previdência e pisos de saúde e educação
  • Segundo turno das eleições ocorre em 25 de outubro de 2026

Presidente petista busca reposicionar-se na economia após críticas sobre comentário sobre 'babaquice' de superávit, tentando inspirar confiança entre empresários e agentes financeiros. Campanha expõe furos nas propostas fiscais de Flávio, alertando que cortes prometidos afetarão programas sociais como Pé-de-Meia, Farmácia Popular e Merenda Escolar.

Lula incorporará defesa do equilíbrio das contas públicas em seus discursos para sinalizar confiança ao mercado e reduzir juros, enquanto campanha ataca inconsistências fiscais de Flávio Bolsonaro.

Luiz Inácio Lula da Silva está reposicionando sua campanha para o segundo turno das eleições de 2026, e a mudança começa com a economia. Após semanas de críticas de empresários e agentes financeiros sobre sua gestão fiscal, o presidente petista agora planeja incorporar a defesa do equilíbrio das contas públicas em seus discursos — uma tentativa deliberada de sinalizar ao mercado que um novo governo Lula criaria ambiente favorável à queda dos juros.

A mudança é necessária. Em 12 de setembro, durante um evento em Curitiba, Lula havia dito que para o governo investir era preciso "parar com essa babaquice de fazer superávit". A frase teve péssima repercussão entre empresários e banqueiros, que já começavam a ver em Flávio Bolsonaro, seu adversário no segundo turno, um candidato mais alinhado com as prioridades do setor produtivo. Auxiliares do presidente reconhecem, sob reserva, que não sabem se a estratégia chegou a tempo ou se conseguirá reverter a vantagem que Flávio conquistou no primeiro turno.

O problema é estrutural. A política fiscal de Lula tem sido alvo de críticas consistentes de economistas e representantes do setor produtivo. O aumento de despesas, o uso de fundos para turbinar empréstimos e subsídios — tudo isso alimenta a dívida pública. A dívida gera percepção de risco, que sustenta a taxa de juros em patamar elevado. Banqueiros e empresários, prejudicados pelos juros altos, esperavam ouvir do próprio presidente sinalizações claras de ajuste fiscal. Em vez disso, ouviram "babaquice".

Lula delegou essas sinalizações aos ministros Dario Durigan, da Fazenda, e Bruno Moretti, do Planejamento e Orçamento. Mas o resultado do primeiro turno tornou necessário que o próprio presidente vocalizasse esses princípios. Em 25 de setembro, em um jantar com empresários, Lula ensaiou uma virada: "estabilidade fiscal é uma coisa obrigatória", disse. Mas foi aconselhado a ser mais explícito, a defender superávits e redução da dívida pública com clareza.

Nesta quinta-feira, 8 de outubro, Lula começou a executar essa estratégia. Afirmou que recebeu o Orçamento com um déficit de 2,8% do PIB e propôs um superávit de 0,1% para o próximo ano. Lembrou que nos oito anos de sua presidência anterior fez superávit primário todos os anos — sendo o único presidente do G-20 a fazer isso — e conquistou dois investment grades, selos de bom pagador que o Brasil nunca havia obtido antes. Citou também a necessidade de reduzir a dívida pública através do crescimento econômico.

Em paralelo, a campanha petista ataca as inconsistências nas propostas fiscais de Flávio. A ministra Esther Dweck resgatou nas redes sociais declarações do ex-ministro Paulo Guedes sobre a "granada" colocada no bolso dos servidores, que ficaram sem reajustes por dois anos durante a pandemia. Explorou também a promessa de Flávio de um "tesouraço" nos impostos e despesas, questionando onde exatamente a tesoura passaria. Lula, por sua vez, criticou o plano de ajuste de Flávio que considera alterar a correção de benefícios da Previdência e os pisos da saúde e educação para economizar até R$ 250 bilhões. Afirmou que os cortes atingirão o Pé-de-Meia, Farmácia Popular, Minha Casa Minha Vida, Merenda Escolar, Gás do Povo, além de impedir aumentos do salário mínimo acima da inflação para trabalhadores e aposentados.

A economia é um dos três temas prioritários até a votação de 25 de outubro — os outros são segurança pública e corrupção. Lula também adotou um novo lema mais enfático na segurança: "Para o povo trabalhador, a proteção. Para o bandido, a prisão". Na corrupção, seus conselheiros defendem que ele não apenas se descole da crise de imagem do Supremo Tribunal Federal, mas também ataque os problemas com propostas para limitar emendas parlamentares e práticas de advocacia administrativa.

O sucesso dessa estratégia permanece incerto. Auxiliares reconhecem que não é possível saber de antemão se a mudança de discurso conseguirá inspirar a confiança que o mercado financeiro exige, ou se chegou tarde demais para reverter a desvantagem eleitoral.

Nos oito anos que eu fui presidente, nós fizemos superávit primário todos os oito anos. Eu fui o único presidente do G-20 que fez superávit primário.
— Lula
Quando ele fala em cortar R$ 200 bilhões, você sabe do que eles vão cortar? Vão cortar no Pé-de-Meia, no Farmácia Popular, no Minha Casa Minha Vida, Merenda Escolar, no Gás do Povo
— Lula, criticando plano de Flávio
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