Donald Trump Jr. afirma que desde o desmonte da Usaid a esquerda não venceu eleições presidenciais na América Latina, creditando cortes a Elon Musk. Pesquisadores apontam que historicamente a Usaid financiou organizações de direita e enfraquecimento da esquerda, contradizendo a narrativa trumpista.
Trumpistas atribuem vitórias da direita na América Latina ao desmonte da Usaid sem comprovação
A narrativa inverte completamente o histórico da agência
Por que essa narrativa sobre a Usaid ganhou tanta força agora, especificamente após as eleições brasileiras?
Porque oferece uma explicação simples e satisfatória para aliados de Trump: a direita venceu não por seus próprios méritos, mas porque removemos um obstáculo que favorecia a esquerda. É uma narrativa de vitória que também valida as ações do governo Trump.
Mas essa narrativa é verificável? Temos dados sobre quanto a Usaid gastava em programas políticos versus humanitários?
Os pesquisadores citados falam sobre um "padrão claro", mas o artigo não fornece números específicos de quanto foi gasto em cada tipo de programa.
E quanto aos exemplos históricos? Os Contras e Juan Guaidó parecem casos bem documentados.
Sim, esses são exemplos concretos e bem conhecidos de financiamento político da Usaid. Mas são casos específicos, não uma prova de que a agência sistematicamente financiava a esquerda.
Exatamente. Há uma diferença entre "a Usaid apoiou alguns movimentos de direita" e "a Usaid foi um fator determinante nas eleições latino-americanas recentes". O artigo não estabelece essa conexão causal.
E a Bolívia? Por que é importante que a Usaid tenha sido expulsa lá em 2013?
Porque a esquerda só perdeu as eleições na Bolívia em 2025, mais de uma década depois. Se o desmonte da Usaid em 2025 causou as derrotas da esquerda, como explicamos uma derrota que ocorreu anos após a agência já ter saído do país?
Esse é um ponto forte, mas ainda assim anedótico. Seria útil saber quantos países latino-americanos tiveram mudanças eleitorais recentes e em quantos deles a Usaid estava presente.
Então o que realmente sabemos?
Sabemos que Trump Jr. fez uma afirmação sem comprovação. Sabemos que pesquisadores dizem que historicamente a Usaid apoiou mais a direita. Sabemos que acusações similares sobre interferência nas eleições de 2022 foram investigadas e não encontraram evidências.
E sabemos que há uma estratégia clara da Casa Branca de se aproximar de governos conservadores latino-americanos. Talvez o que importa não seja a Usaid, mas essa aproximação geopolítica.
Le Pouls
- Donald Trump Jr. afirmou que desde o desmonte da Usaid a esquerda não venceu eleições presidenciais na América Latina
- A Usaid foi criada em 1961 durante a Guerra Fria para conter o comunismo e fortalecer governos aliados
- Pesquisadores apontam que historicamente a Usaid financiou organizações de direita, como os Contras na Nicarágua e a oposição venezuelana
- A Bolívia expulsou a Usaid em 2013, mais de uma década antes da derrota eleitoral da esquerda em 2025
- Acusações similares sobre interferência da Usaid nas eleições brasileiras de 2022 foram investigadas sem encontrar evidências
Donald Trump Jr. afirma que desde o desmonte da Usaid a esquerda não venceu eleições presidenciais na América Latina, creditando cortes a Elon Musk. Pesquisadores apontam que historicamente a Usaid financiou organizações de direita e enfraquecimento da esquerda, contradizendo a narrativa trumpista.
Trump e influenciadores conservadores creditam vitórias eleitorais da direita na América Latina ao fechamento da agência de ajuda externa americana, mas especialistas refutam a tese sem evidências.
Donald Trump Jr. postou uma afirmação direta em suas redes sociais no início de outubro: desde que seu pai desmantelou a Usaid, a esquerda não venceu uma única eleição presidencial na América Latina. O filho do presidente americano creditava o feito aos cortes na Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, argumentando que bilhões em dinheiro dos contribuintes americanos financiavam organizações não-governamentais, programas de democracia e redes de ativistas que sistematicamente apoiavam candidatos e governos de esquerda. A narrativa ganhou tração entre influenciadores conservadores americanos e integrantes do movimento Maga após o primeiro turno das eleições brasileiras em 4 de outubro, com podcasters como Benny Johnson dedicando programas inteiros a conectar os resultados eleitorais brasileiros ao desmonte da agência.
O problema é que a tese não possui comprovação. Especialistas ouvidos pela Folha apontam que a narrativa inverte completamente o histórico político da Usaid. Alex Main, pesquisador do Centro de Pesquisa Econômica e Política sediado em Washington, afirma que é justamente o contrário do que Trump Jr. e seus aliados alegam. A agência, criada em 1961 durante a Guerra Fria, foi concebida como instrumento da estratégia americana de conter a expansão do comunismo e fortalecer governos aliados na região. Embora a maior parte dos recursos fosse destinada a programas humanitários e de desenvolvimento, os financiamentos de natureza política historicamente apoiavam organizações de direita e buscavam enfraquecer movimentos de esquerda.
Main cita exemplos concretos dessa orientação. A Usaid forneceu apoio não-militar aos Contras, grupos paramilitares que combatiam o governo sandinista na Nicarágua durante os anos 1980. Mais recentemente, a agência assistiu a oposição venezuelana liderada por Juan Guaidó, reconhecido pelos Estados Unidos como presidente autodeclarado do país. Segundo Main, quando se examina a parcela dos recursos destinada a programas de natureza política, emerge um padrão muito claro: esse financiamento vai em grande medida para organizações de direita ou para programas que buscam enfraquecer governos de esquerda. "Há muitas explicações para os movimentos de esquerda terem perdido eleições nos últimos anos, mas a Usaid não é uma delas", afirma o pesquisador.
A tese sobre a Usaid reforça acusações de interferência nas eleições brasileiras de 2022 que a Folha já investigou extensamente, sem encontrar evidências para sustentá-las. Em fevereiro de 2025, o jornal mostrou que bolsonaristas e trumpistas difundiam, sem provas, a alegação de que a Usaid havia financiado a vitória de Lula. Mike Benz, ex-integrante do Departamento de Estado e fundador da conservadora Foundation for Freedom Online, afirmou em podcast que a agência financiava uma rede de instituições brasileiras, incluindo organizações da sociedade civil, universidades, veículos de comunicação e até pessoas ligadas ao Supremo Tribunal Federal e ao Tribunal Superior Eleitoral. Benz acusava especificamente a Usaid de pagar advogados para restringir publicações de Bolsonaro no TSE. O ex-funcionário nunca apresentou evidências, e a reportagem não encontrou indícios do suposto financiamento. Organizações brasileiras mencionadas nas acusações também negaram ter recebido recursos da agência para interferir nas eleições.
A tentativa de conectar o desmonte da Usaid às vitórias eleitorais da direita também esbarra nas particularidades de cada país. Na Bolívia, a Usaid havia sido expulsa em 2013 pelo então presidente Evo Morales, sob acusação de ingerência política, mais de uma década antes da derrota eleitoral da esquerda em 2025. Andres Martinez-Fernandez, analista sênior da Heritage Foundation, oferece uma explicação alternativa para o avanço conservador na região, atribuindo-o à alegada dianteira da direita em frentes como combate ao crime organizado e resposta à insegurança e insatisfação econômica. Para ele, o resultado do primeiro turno no Brasil acompanha a tendência regional de fortalecimento de políticos conservadores alinhados com Washington.
No início do segundo mandato de Trump, a Casa Branca cancelou contratos da Usaid, reduziu funcionários e transferiu funções da agência ao Departamento de Estado, justificando as ações como combate a desperdícios e incompatibilidade dos programas com as prioridades do governo. Elon Musk, ex-assessor especial de Trump e responsável pela atuação do extinto Departamento de Eficiência Governamental, liderou a ofensiva contra a agência, marcada por cancelamentos de contratos, cortes de recursos e demissões em massa. A repercussão das eleições brasileiras ocorre em meio à aproximação da Casa Branca com governos conservadores latino-americanos, em uma estratégia que combina cooperação em segurança, combate ao narcotráfico e interesses econômicos. Enquanto Lula mantém divergências com Trump, sobretudo em questões comerciais e de soberania, Flávio Bolsonaro defende maior aproximação com Washington e já manifestou interesse em integrar o Escudo das Américas, iniciativa regional de segurança lançada pelo republicano.
Citations marquantes
É justamente o contrário— Alex Main, pesquisador do Centro de Pesquisa Econômica e Política, sobre a acusação de que a Usaid sustentava governos de esquerda
Há muitas explicações para os movimentos de esquerda terem perdido eleições nos últimos anos, mas a Usaid não é uma delas— Alex Main