A poucos dias do primeiro turno, Lula rompeu o silêncio calculado que seu governo mantinha diante da crise no Supremo Tribunal Federal e tomou partido publicamente do ministro Alexandre de Moraes contra Flávio Bolsonaro. O gesto, aparentemente tático, arrastou o presidente para dentro de uma disputa que ele havia conseguido observar à distância — e expôs as contradições de uma campanha que promete desfazer o que o próprio governo construiu. Na política, como na vida, o momento em que se decide falar pode ser tão consequente quanto o que se diz.
Lula entra na crise do STF ao defender Moraes em entrevista
Atravessou a praça dos Três Poderes para escorregar na lama
Por que essa entrevista de Lula sobre Moraes foi tão prejudicial? O presidente não tem direito de defender um ministro?
Tem direito, claro. Mas havia um acordo tácito em Brasília: o governo se mantinha fora dessa crise. Lula estava ganhando sem fazer nada. Quando ele entrou, puxou para si um problema que não era dele.
Mas a entrevista foi realmente sobre Moraes, ou era sobre Flávio Bolsonaro? Porque atacar um adversário eleitoral é diferente de defender um ministro.
Era os dois. Lula acusou Flávio de ter "bronca" de Moraes porque o ministro prendeu Bolsonaro. Era um ataque político disfarçado de defesa institucional.
E quanto aos cassinos? Por que isso importa agora?
Importa porque Lula está prometendo proibir algo que seu próprio governo criou para arrecadar. É uma contradição que fica mais visível quando ele está em campanha.
Exatamente. O governo precisava de dinheiro, abriu os cassinos online. Agora, com Flávio ganhando nas pesquisas, Lula promete fechá-los. É uma reviravolta que ele terá de explicar.
Flávio está realmente ganhando terreno?
Nas pesquisas entre beneficiários do Bolsa Família, ele tem 28% contra 53% de Lula. Não é exatamente "ganhando terreno" — é mais que Lula viu a necessidade de reagir.
Mas o reajuste do programa foi anunciado pouco antes, e ganhou esse apelido de "Rivotril". O governo estava tentando acalmar os ânimos e manter a vantagem.
Então Lula cometeu um erro ao falar sobre Moraes?
Parece que sim. Ele tinha uma crise que não era sua. Agora é.
The Pulse
- Lula quebrou o consenso de Brasília ao defender Moraes publicamente, abandonando a posição confortável de quem assistia à crise do STF sem se sujar.
- A intervenção presidencial transformou uma disputa judicial em munição eleitoral, puxando o Palácio do Planalto para o centro de um conflito que desgastava adversários sem custo algum.
- Com 53% de preferência entre beneficiários do Bolsa Família contra 28% de Flávio Bolsonaro, Lula lidera, mas a pressão da campanha já o faz agir com impaciência.
- A promessa de proibir cassinos online colide diretamente com o fato de ter sido o próprio governo Lula a instalar essa indústria no país como instrumento de arrecadação.
- O cenário eleitoral se complica: o presidente precisa justificar contradições enquanto tenta reconquistar a distância segura que ele mesmo escolheu abandonar.
A poucos dias do primeiro turno, Lula rompeu o silêncio calculado que seu governo mantinha diante da crise no Supremo Tribunal Federal e tomou partido publicamente do ministro Alexandre de Moraes contra Flávio Bolsonaro. O gesto, aparentemente tático, arrastou o presidente para dentro de uma disputa que ele havia conseguido observar à distância — e expôs as contradições de uma campanha que promete desfazer o que o próprio governo construiu. Na política, como na vida, o momento em que se decide falar pode ser tão consequente quanto o que se diz.
Havia um consenso silencioso em Brasília: a crise que consumia o Supremo Tribunal Federal não tinha a marca do Palácio do Planalto. Para o governo, era quase um presente — um problema alheio que desgastava adversários e deixava Lula livre para governar. Então o presidente decidiu falar.
Em uma entrevista de rotina, Lula tomou partido do ministro Alexandre de Moraes e acusou Flávio Bolsonaro de agir por ressentimento pessoal, já que Moraes havia ordenado a prisão de seu pai. O movimento era eleitoralmente transparente, mas o efeito foi o oposto do pretendido: em vez de desqualificar um rival, o presidente se arrastou para dentro da lama que havia conseguido evitar.
A pressão da campanha explicava a impaciência. Com o primeiro turno se aproximando, Lula mantinha vantagem sólida entre os beneficiários do Bolsa Família — 53% contra 28% de Flávio Bolsonaro —, segmento que o governo havia acabado de contemplar com um reajuste no programa, apelidado nos bastidores de Rivotril.
Mas havia outra contradição à espreita. Lula prometeu na campanha acabar com os cassinos online, aplicativos de apostas que proliferaram pelo país. O problema: foi o próprio governo Lula que instalou essa indústria, com um objetivo direto e sem ornamentos — arrecadar. Agora, com a eleição à porta, o presidente se via prometendo fechar uma porta que ele mesmo havia aberto, enquanto tentava explicar por que havia entrado numa crise judicial que ninguém lhe pediu para alimentar.
Até poucos dias atrás, havia consenso em Brasília: a crise que consumia o Supremo Tribunal Federal não tinha impressão digital do Palácio do Planalto. Nenhum ministro de Lula havia se movido nos bastidores para alimentá-la. Para o governo, era uma crise quase perfeita — um problema que não era seu, que desgastava adversários, que deixava o presidente livre para governar. Então Lula abriu a boca.
Durante uma entrevista de rotina, o presidente decidiu tomar partido do ministro Alexandre de Moraes. Acusou Flávio Bolsonaro de nutrir ressentimento contra o magistrado simplesmente porque Moraes havia ordenado a prisão de seu pai. Era uma intervenção desnecessária, um passo que atravessava a praça dos Três Poderes e pisava direto na lama que o governo havia conseguido evitar até então. O cálculo político era transparente: Lula tentava desqualificar um adversário eleitoral. O efeito foi puxar o presidente para dentro de uma disputa que ele havia deixado para trás.
O timing revelava a pressão da campanha. Com o primeiro turno se aproximando, Lula mantinha uma vantagem sólida entre os beneficiários do Bolsa Família — 53% de preferência contra 28% de Flávio Bolsonaro. Era um segmento decisivo, e o governo havia reajustado o programa poucos dias antes, uma manobra que ganhou apelido nos corredores: Rivotril, a droga que acalma. O presidente estava ganhando, mas não o suficiente para relaxar.
Na mesma campanha, Lula prometeu acabar com os cassinos online, aqueles aplicativos de apostas que funcionam direto no celular. Era uma promessa que soava bem, que atendia a preocupações legítimas sobre vício e endividamento. Mas havia um problema incômodo: havia sido o próprio governo Lula que havia instalado essa indústria no país. O objetivo era simples — fazer caixa. Arrecadar. Nenhuma sofisticação, nenhum argumento de política pública. Apenas dinheiro.
Agora, com a eleição batendo à porta e Flávio Bolsonaro ganhando terreno nas pesquisas, o presidente se via obrigado a prometer o oposto do que havia feito. Se vencesse, teria de explicar essa reviravolta. Teria de justificar por que seu governo havia aberto uma porta que agora prometia fechar. E teria de fazer isso enquanto tentava se manter afastado de uma crise no Supremo que ele próprio havia ajudado a alimentar com uma entrevista que ninguém pediu. O cenário eleitoral se tornava mais complicado a cada dia, e o presidente havia contribuído para isso com suas próprias mãos.
Notable Quotes
Acusou Flávio Bolsonaro de ter ressentimento contra Moraes porque o ministro havia ordenado a prisão de seu pai— Lula, durante entrevista