Lula e Flávio Bolsonaro: estratégias distintas para atrair investimento estrangeiro

Quem pede quatro anos de poder precisa entregar mais que redação bem escrita
O colunista desafia ambos os candidatos a apresentarem números e detalhes concretos, não apenas promessas genéricas.
Mark

Por que essas duas abordagens são tão diferentes? Parecem vir de universos econômicos distintos.

Mimi

Porque vêm mesmo. Lula acredita que o Estado tem um papel ativo em mobilizar capital privado para projetos que o mercado sozinho não faria. Bolsonaro acredita que o Estado atrapalha, que menos regulação e mais previsibilidade é o que funciona.

Luke

Mas nenhum dos dois realmente provou que sua estratégia funciona em larga escala. O Eco Invest existe desde 2024 — quanto de capital estrangeiro novo ele atraiu?

Mimi

Ótima pergunta. A coluna não diz. E é exatamente por isso que Lula precisa comprovar isso.

Mark

E quanto a Bolsonaro? A OCDE é uma meta realista?

Mimi

O Brasil pediu adesão em 2017 e não conseguiu nem com Bolsonaro nem com Lula. Então não é trivial.

Luke

Exatamente. É uma promessa que depende de aprovação de outros países. Não é algo que um presidente brasileiro controla sozinho.

Mark

Então ambos estão fazendo promessas difíceis de cumprir?

Mimi

Não é bem assim. Lula pode expandir o Eco Invest e o Fundo Clima. Bolsonaro pode eliminar o IOF e facilitar importações — essas coisas ele controla.

Luke

Mas a questão real é se funcionam. Equipamentos mais baratos atraem fábricas? Ou as multinacionais escolhem outros países de qualquer forma?

Mimi

Depende do setor, do país, do momento. Não há resposta única.

Mark

Então o leitor fica sem saber qual estratégia é melhor?

Mimi

Fica sabendo que precisa exigir detalhes. Números. Prazos. Não redações bem escritas.

  • O Brasil segue sem uma resposta clara sobre como atrair investimento estrangeiro de longo prazo, e a eleição transforma essa lacuna em disputa central de projeto de país.
  • Lula expande o Eco Invest e o Fundo Clima como alavancas públicas, mas enfrenta a suspeita de que o dinheiro do contribuinte pode acabar apenas barateando projetos que já aconteceriam sem ajuda governamental.
  • Flávio Bolsonaro promete cortar o IOF sobre câmbio e facilitar importações, mas qualquer abertura real exige enfrentar setores industriais que historicamente pressionam o Congresso para manter proteções — como ficou evidente nas disputas em torno do aço chinês e das importações de baixo valor.
  • A adesão do Brasil à OCDE, pedida desde 2017, atravessou governos de direita e de esquerda sem se concretizar, revelando que a promessa é mais fácil de fazer do que de cumprir.
  • O debate ainda carece do essencial: metas mensuráveis, prazos realistas e uma explicação honesta sobre quais riscos ficarão com o Estado — e, portanto, com o contribuinte.

Em ano eleitoral, o Brasil debate como seduzir o capital estrangeiro — e as duas candidaturas com maior chance de disputar o segundo turno oferecem respostas radicalmente distintas para essa pergunta antiga. Lula aposta no Estado como catalisador, usando fundos públicos e proteção cambial para tornar viáveis projetos sustentáveis que o mercado sozinho não financiaria. Flávio Bolsonaro inverte a lógica: acredita que menos regulação, menos impostos sobre câmbio e adesão à OCDE criam o ambiente que multinacionais buscam antes de decidir onde instalar uma fábrica. O que ambos ainda devem ao eleitor são os números concretos — quanto dinheiro novo cada estratégia realmente atrai, e a que custo.

Planos de governo têm uma limitação conhecida: são documentos feitos para convencer, não necessariamente para revelar como as coisas funcionarão de verdade. Ainda assim, quando se olha para as propostas de Lula e Flávio Bolsonaro sobre investimento estrangeiro, fica claro que cada candidatura aposta em uma lógica completamente diferente para atrair capital de longo prazo ao Brasil.

Lula trabalha com a ideia de que o setor público pode abrir portas que o mercado sozinho não abriria. O Eco Invest, lançado em 2024, usa recursos públicos para financiar projetos sustentáveis e oferece proteção cambial a quem se endividar em dólar. O Fundo Clima, operado pelo BNDES, complementa essa arquitetura com crédito para empreendimentos climáticos com participação estrangeira. A aposta é que o dinheiro público reduz riscos e torna viável o que seria arriscado demais para o investidor privado agir sozinho.

Flávio Bolsonaro segue o caminho oposto: menos Estado como condição para mais capital. Ele defende a adesão à OCDE como sinal de governança e previsibilidade, a eliminação do IOF sobre câmbio e a facilitação de importações de máquinas e insumos. Para uma multinacional comparando países onde instalar uma operação, equipamentos mais baratos e regras mais claras melhoram significativamente a conta.

Mas as duas estratégias carregam problemas próprios. O apoio público de Lula precisa demonstrar que atrai dinheiro genuinamente novo — caso contrário, vira apenas uma forma de engordar margens de empresas que já investiriam de qualquer forma. A abertura prometida por Bolsonaro, por sua vez, exigiria enfrentar setores inteiros acostumados à proteção, algo que a história recente — das tarifas sobre o aço chinês às idas e vindas das importações de baixo valor — mostra ser politicamente custoso.

O que falta em ambos os casos é precisão. Quanto dinheiro estrangeiro cada real público deverá mobilizar? Quais barreiras serão efetivamente removidas e em que prazo? Quem pede quatro anos de poder deve entregar mais do que promessas bem formuladas — deve entregar os números e as condições reais de como pretende fazer o capital estrangeiro chegar ao Brasil.

Quem escreve sobre política enfrenta um dilema incômodo: os planos de governo funcionam como redações escolares — documentos feitos para passar de ano, não necessariamente para revelar como as coisas funcionarão de verdade. Ainda assim, é possível procurar nos detalhes as pistas sobre de onde virá o dinheiro e para onde ele irá nos próximos anos. E quando se olha para as duas candidaturas com chances reais de chegar ao segundo turno — Lula e Flávio Bolsonaro — fica claro que cada uma aposta em uma lógica completamente diferente para convencer estrangeiros a financiar projetos de longo prazo no Brasil.

Lula trabalha com a ideia de que o setor público pode ser um catalisador. Seu Eco Invest, lançado em 2024, promete mobilizar investimentos privados para a transformação ecológica. O mecanismo funciona assim: o governo usa recursos públicos para financiar projetos considerados sustentáveis e oferece proteção cambial para quem se endividar em dólar. Há também o Fundo Clima, operado pelo BNDES, que oferece crédito para empreendimentos climáticos, inclusive com participação estrangeira. A lógica é que o dinheiro público abre portas, reduz riscos, torna viável o que seria arriscado demais para o mercado sozinho.

Flávio Bolsonaro segue caminho oposto. Sua aposta é que menos Estado atrai mais capital. Ele defende a adesão do Brasil à OCDE — a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico — associando as regras da organização à governança das estatais e à previsibilidade que os investidores buscam. O Brasil pediu essa adesão em 2017, no governo Temer, mas ela não saiu nem com Jair Bolsonaro nem com Lula. Além disso, Bolsonaro promete eliminar o IOF sobre operações de câmbio e facilitar a importação de máquinas, tecnologia e insumos. Para uma multinacional que compara países onde instalar uma fábrica, equipamentos mais baratos e regras claras melhoram significativamente a conta.

Mas cada estratégia carrega seus próprios problemas. O apoio público de Lula precisa comprovar que atrai dinheiro novo, não apenas barateia projetos que aconteceriam de qualquer forma. Se não conseguir essa demonstração, vira apenas mais uma frente de gastos que engordam as margens de grandes empresas — exatamente o que o contribuinte não quer financiar. Já a abertura defendida por Bolsonaro exigiria enfrentar setores inteiros que perderiam proteção. A história recente mostra como isso é difícil: a taxação do aço chinês, as idas e vindas da "taxa das blusinhas", revelam que alguns setores brasileiros reagem com força à abertura ampla de mercado, pressionando tanto o Executivo quanto o Legislativo.

O que falta em ambos os casos é clareza. Lula deveria explicar quanto dinheiro estrangeiro cada real público deverá atrair e quais riscos ficarão com o contribuinte. Bolsonaro deveria detalhar quais barreiras de entrada serão reduzidas e qual é a perspectiva real para entrar na OCDE. Quem pede quatro anos de poder precisa entregar mais do que uma redação bem escrita. As redes sociais e os eventos de campanha estão aí para isso — para apresentar não apenas as promessas, mas os números, os prazos, as condições reais de como cada um pretende fazer o dinheiro estrangeiro chegar ao Brasil.

O apoio público defendido por Lula para novos empreendimentos exige demonstrar que atrai dinheiro novo, em vez de apenas baratear projetos que aconteceriam sem ele
— Análise da coluna
Para uma multinacional que compara países onde instalar uma fábrica, equipamentos mais baratos e regras previsíveis podem melhorar a conta brasileira
— Análise da coluna
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