À margem do G20 em Nova Délhi, o presidente Lula concedeu entrevista ao meio indiano FirstPost e delineou uma visão de mundo em que o Brasil, agora à frente do grupo, recusa o silêncio diplomático. Criticou o envolvimento direto dos Estados Unidos na guerra da Ucrânia, lamentou seis décadas de bloqueio a Cuba e alertou contra a repetição de uma guerra fria entre Washington e Pequim. Sua fala revela um país que, ao assumir a presidência rotativa do G20, não se propõe a arbitrar neutralmente os conflitos do tempo, mas a nomear, com voz própria, o que considera injusto na ordem internacional.
Lula critica EUA na Ucrânia e pede fim do bloqueio a Cuba à margem do G20
Não é brincadeira, a questão do clima
Por que Lula insistiu em levar a questão de Cuba para a conversa com Biden? Parece um tema secundário em comparação com a guerra na Ucrânia.
Não é secundário para Lula. Ele vê o bloqueio como uma injustiça que perdura há seis décadas sem justificativa. Para ele, é um símbolo de como potências usam sanções de forma desproporcional.
Mas a fonte não diz se Biden respondeu ou se há qualquer sinal de que os EUA estejam dispostos a mudar essa política. É uma promessa de conversa, não um resultado.
E quanto à crítica sobre o envolvimento dos EUA na Ucrânia? Lula está pedindo que os americanos saiam do conflito?
Não exatamente. Ele está dizendo que o G20 não é o lugar para discutir a guerra porque alguns membros estão envolvidos e outros não. Quer que a ONU seja o fórum, onde Putin e Zelensky possam negociar.
Isso é uma crítica velada aos EUA, mas a fonte não deixa claro se Lula quer que os americanos reduzam seu apoio militar à Ucrânia ou apenas que o tema saia da agenda do G20.
E essa "nova guerra fria" com a China? Lula está se posicionando como mediador?
Ele está recusando a lógica de bloco. Diz que não quer ver EUA e China em confronto direto porque isso prejudica a humanidade. É uma posição de quem quer espaço para o Brasil agir independentemente.
Verdade, mas a fonte não detalha o que Lula propõe como alternativa. É mais uma crítica ao cenário do que uma estratégia clara.
A reforma da ONU que ele menciona — isso é viável?
Lula está sinalizando que quer um Conselho de Segurança mais representativo. Mas reformar a ONU é extremamente difícil, especialmente porque os cinco membros permanentes têm poder de veto.
Exato. A fonte não menciona se há apoio de outros países para essa reforma ou se é apenas uma posição brasileira. É uma aspiração, não um plano em andamento.
Le Pouls
- Lula afirmou que os EUA estão diretamente envolvidos na guerra da Ucrânia enquanto outros membros do G20 preferem discutir paz — uma crítica rara e direta a um aliado estratégico.
- O presidente argumentou que o G20 não é o fórum adequado para o conflito ucraniano e defendeu que a ONU, com Putin e Zelensky à mesa, seria o espaço legítimo de negociação.
- Após 60 anos de sanções, Lula prometeu cobrar pessoalmente de Biden o fim do bloqueio a Cuba, classificando as penalidades como injustificáveis para um país que, segundo ele, não abriga terroristas.
- A escalada entre EUA e China foi descrita por Lula como tentativa de forjar uma 'nova guerra fria' — um cenário que ele considera prejudicial à humanidade e que o Brasil se recusa a aceitar como inevitável.
- Para equilibrar essas tensões estruturais, Lula defendeu a reforma do Conselho de Segurança da ONU, propondo assento permanente ou maior representação para Índia, Japão, Alemanha, México, Egito, Argentina, Nigéria e África do Sul.
À margem do G20 em Nova Délhi, o presidente Lula concedeu entrevista ao meio indiano FirstPost e delineou uma visão de mundo em que o Brasil, agora à frente do grupo, recusa o silêncio diplomático. Criticou o envolvimento direto dos Estados Unidos na guerra da Ucrânia, lamentou seis décadas de bloqueio a Cuba e alertou contra a repetição de uma guerra fria entre Washington e Pequim. Sua fala revela um país que, ao assumir a presidência rotativa do G20, não se propõe a arbitrar neutralmente os conflitos do tempo, mas a nomear, com voz própria, o que considera injusto na ordem internacional.
Em Nova Délhi, no encerramento do primeiro dia do G20, Lula concedeu entrevista ao canal indiano FirstPost e expôs, com clareza incomum para um fórum multilateral, suas posições sobre os principais conflitos da política internacional. O presidente começou pelo clima: ao lado de Biden e Modi, havia lançado naquele sábado a Aliança Global para Biocombustíveis, reunindo os três maiores produtores mundiais da commodity e dezenas de países e organizações. Para Lula, a questão ambiental não é marginal nas negociações globais — é central.
Ao receber a presidência do G20 da Índia, Lula elogiou a condução de Modi à frente de um país de escala continental e sinalizou que pretende aprender com a experiência indiana para presidir uma reunião igualmente produtiva em 2024. Mas foi nos temas geopolíticos que o presidente se mostrou mais incisivo.
Sobre a Ucrânia, Lula argumentou que o G20 não é o espaço correto para o debate — esse papel caberia à Assembleia Geral da ONU, onde os dois líderes em conflito poderiam ser chamados à mesa quando estivessem dispostos. Mais direto ainda foi ao afirmar que os Estados Unidos estão ativamente envolvidos na guerra, enquanto outros membros do grupo preferem discutir paz.
O bloqueio a Cuba mereceu palavras igualmente firmes. Lula lamentou que a ilha permaneça sob sanções há seis décadas e prometeu levar o tema diretamente a Biden, argumentando que Cuba não representa ameaça terrorista e que as penalidades são injustificáveis. Sobre as tensões entre Washington e Pequim, o presidente foi categórico: vê a escalada como uma tentativa de recriar uma guerra fria — experiência que, em sua avaliação, não trouxe benefícios à humanidade.
Para além dos conflitos imediatos, Lula defendeu uma reforma estrutural do Conselho de Segurança da ONU, com a inclusão de mais países no processo decisório. O que emerge de sua fala é um Brasil que, na presidência do G20, não se posiciona como árbitro neutro, mas como voz com convicções definidas sobre o que considera injusto na ordem global — e disposto a dizê-lo em voz alta.
Em Nova Délhi, no encerramento do primeiro dia da Cúpula do G20, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu uma entrevista ao meio de comunicação indiano FirstPost na qual traçou um quadro de suas preocupações com a política internacional contemporânea — e deixou claro que o Brasil, agora em posição de liderança no grupo, não pretende silenciar diante delas.
O presidente começou reafirmando o compromisso brasileiro com a sustentabilidade ambiental. Ao lado de Joe Biden e outros líderes globais, Lula havia lançado naquele sábado a Aliança Global para Biocombustíveis, uma coalizão que reúne os três maiores produtores mundiais da commodity — Brasil, Estados Unidos e Índia — além de 19 países e 12 organizações internacionais. Para Lula, a questão climática não é um tema secundário nas negociações internacionais. "Não é brincadeira, a questão do clima," disse ele, sinalizando que espera sair da reunião com diretrizes concretas capazes de reduzir a desigualdade entre nações e enfrentar as mudanças climáticas. Os biocombustíveis, em sua visão, são ferramentas centrais nessa luta.
No tocante às relações bilaterais, Lula expressou admiração pela liderança do primeiro-ministro indiano Narendra Modi e pela forma como ele governa um país de escala continental. O Brasil receberá a presidência do G20 da Índia ao final da cúpula — a primeira vez que o país ocupa essa posição — e Lula sinalizou que pretende aprender com a experiência indiana para conduzir uma reunião igualmente proveitosa em 2024.
Mas foi ao abordar conflitos geopolíticos que o presidente se mostrou mais incisivo. Sobre a guerra na Ucrânia, Lula argumentou que o G20 não é o fórum apropriado para discuti-la. Segundo ele, a Assembleia Geral da ONU seria o espaço correto, onde Putin e Zelensky pudessem ser chamados à mesa de negociações quando estivessem dispostos. Mais contundente ainda foi sua crítica ao papel dos Estados Unidos no conflito: Lula afirmou que os americanos estão diretamente envolvidos na guerra, enquanto outros países membros do G20 não estão e preferem discutir paz em vez de conflito.
O bloqueio econômico dos Estados Unidos a Cuba foi um dos pontos mais fortes de sua fala. Lula lamentou que a ilha caribenha permaneça sob sanções há 60 anos e prometeu abordar o tema diretamente com Biden na primeira oportunidade. "Não é um país que tem terroristas," reforçou o presidente, argumentando que as penalidades impostas são injustificáveis e devem cessar.
No que diz respeito às tensões crescentes entre Washington e Pequim, Lula foi claro em sua desaprovação. Ele vê a escalada como uma tentativa de criar uma "nova guerra fria" — um cenário que, em sua avaliação, não foi benéfico para a humanidade e não deveria ser repetido. Essa preocupação se estende também à estrutura de poder global: Lula defendeu uma reforma do Conselho de Segurança da ONU que inclua mais países no processo decisório, citando Índia, Japão, Alemanha, México, Egito, Argentina, Nigéria e África do Sul como nações que deveriam ter assento permanente ou maior representação.
O que emerge dessa entrevista é um Brasil que, na presidência do G20, não se vê como mediador neutro, mas como ator com posições definidas sobre os grandes dilemas do tempo. Lula articula uma visão em que sustentabilidade, negociação diplomática e multipolaridade são elementos inseparáveis de uma ordem internacional mais justa — e está disposto a dizer isso em voz alta, mesmo que isso signifique discordar abertamente de aliados tradicionais.
Citations marquantes
Os EUA estão diretamente envolvidos na guerra. Outros países não estão e não querem discutir a guerra. Querem discutir a paz.— Lula, sobre a Ucrânia
Não vejo bem essa briga entre EUA e China. É uma tentativa de criar uma nova guerra fria, que não foi boa para a humanidade.— Lula, sobre tensões sino-americanas