Na tribuna da Assembleia Geral da ONU, o presidente Lula pronunciou na terça-feira um discurso que, sem jamais nomear Donald Trump, respondeu ponto a ponto à política externa americana — defendendo soberania, multilateralismo e o reconhecimento de um Estado Palestino. O gesto inscreve o Brasil numa tradição de nações que buscam afirmar autonomia diante de potências hegemônicas, mas abre também um novo capítulo de tensão diplomática cujas consequências ainda estão por vir.
Lula confronta Trump na ONU com defesa do multilateralismo e críticas a Israel
a voz do sul global deve ser respeitada e ouvida
Por que Lula nunca menciona Trump pelo nome, mesmo quando está claramente respondendo a ele?
É uma estratégia. Permite que ele critique sem parecer que está fazendo campanha pessoal contra um rival. Dá ao discurso uma dimensão de princípio — não é sobre Trump, é sobre soberania, multilateralismo, direito internacional.
Mas todos sabem que é sobre Trump. A questão é: por que essa indireção importa? Porque permite aos aliados de Trump dizer que Lula está sendo agressivo sem provocação direta. É um jogo de linguagem.
Lula condenou ditaduras no início do discurso e depois defendeu Venezuela e Cuba. Como isso funciona?
Ele está tentando manter uma posição de liderança do Sul Global. Não pode abandonar aliados, mesmo quando discorda deles. É a política da coalizão.
Mas isso enfraquece o argumento dele sobre democracia. Se você começa dizendo que ditaduras são o problema e termina defendendo duas delas, a lógica não aguenta. Isso foi notado pelos colunistas.
E quanto à Palestina? Lula realmente escalou o tom?
Sim. Chamou a ação em Gaza de genocídio, defendeu um Estado Palestino, criticou o veto americano. Mas sua condenação do ataque do Hamas foi muito breve. A proporção do discurso deixa claro onde está seu foco.
O que não sabemos é se essa escalada reflete uma mudança de posição genuína de Lula ou se é uma resposta tática ao momento político. A fonte não nos diz isso.
Qual é o risco real para o Brasil com essa fala?
Assessores de Lula esperam uma ofensiva da Casa Branca contra o governo, funcionários e até o Judiciário. Não é especulação — é o que eles estão preparando.
Mas "ofensiva" é vago. Sanções? Pressão diplomática? Ataques públicos? O texto não detalha o que essa resposta pode parecer. Sabemos que há tensão, mas não sabemos a forma que ela vai tomar.
Der Puls
- Sem pronunciar o nome de Trump uma única vez, Lula construiu um discurso inteiramente voltado a contestar a agenda americana — e foi aplaudido ao menos três vezes pela assembleia.
- Assessores do Palácio do Planalto já aguardam retaliação da Casa Branca contra o governo brasileiro e membros do Judiciário, elevando o risco de uma crise diplomática de proporções inéditas entre os dois países.
- Ao chamar a ação israelense em Gaza de genocídio e criticar o veto americano à presença de Mahmoud Abbas, Lula escalou o tom sobre o Oriente Médio ao ponto mais alto desde o início do seu mandato.
- A defesa simultânea da democracia e de regimes como Venezuela e Cuba criou uma contradição interna no discurso, expondo a tensão entre os valores proclamados e as alianças geopolíticas do governo.
- Lula reposicionou o Brasil como porta-voz do Sul Global, invocando G20, Brics e iniciativas de paz na Ucrânia que deliberadamente excluem Washington do protagonismo.
Na tribuna da Assembleia Geral da ONU, o presidente Lula pronunciou na terça-feira um discurso que, sem jamais nomear Donald Trump, respondeu ponto a ponto à política externa americana — defendendo soberania, multilateralismo e o reconhecimento de um Estado Palestino. O gesto inscreve o Brasil numa tradição de nações que buscam afirmar autonomia diante de potências hegemônicas, mas abre também um novo capítulo de tensão diplomática cujas consequências ainda estão por vir.
Lula subiu ao púlpito da Assembleia Geral da ONU na terça-feira com um discurso que funcionou como resposta direta à presidência de Donald Trump — sem que o nome do americano fosse pronunciado uma única vez. Defendeu a soberania brasileira contra pressões externas, questionou o uso da força militar em contextos que não constituem conflito e reafirmou que democracias sólidas vão além de rituais eleitorais. Duas frases condensaram o tom: "seguiremos como nação independente e como povo livre de qualquer tipo de tutela" e a recusa a qualquer curvatura diante de pressões externas.
O discurso marca uma escalada nas relações entre Brasil e Estados Unidos. Assessores de Lula já esperam uma nova ofensiva da Casa Branca — não apenas contra o país, mas contra funcionários do governo e do Judiciário. O Palácio do Planalto caracteriza internamente o governo Trump como "o governo da pátria dos extremismos". Lula defendeu a independência do Judiciário e a lisura do julgamento de Bolsonaro, recusando qualquer pacificação que viesse acompanhada de impunidade.
Sobre o Oriente Médio, o presidente intensificou o tom: chamou a ação israelense em Gaza de genocídio, defendeu a criação de um Estado Palestino independente e criticou o veto americano — referido apenas como "país anfitrião" — à presença de Mahmoud Abbas na assembleia. A condenação ao ataque do Hamas foi breve; a ênfase recaiu inteiramente sobre Israel. Lula também comparou o uso da força legal fora de situações de conflito a eliminar pessoas sem julgamento — sua declaração mais dura desde o início da operação americana no Caribe contra a Venezuela.
Sobre a Ucrânia, reafirmou que o conflito não tem solução militar e defendeu iniciativas de diálogo propostas por países africanos, Brasil e China — excluindo implicitamente Washington do papel de mediador. No encerramento, invocou o multilateralismo, o G20 e o Brics como instrumentos da voz do Sul Global, e alertou que armas nucleares não protegerão o mundo se a crise climática se agravar. Colunistas de O Globo descreveram o discurso como "duríssimo, com direito a socos no púlpito" — e a expectativa agora é de uma resposta americana que pode atingir não apenas o governo, mas o próprio Judiciário brasileiro.
Lula subiu ao púlpito da Assembleia Geral das Nações Unidas na terça-feira com um discurso que funcionou como resposta direta — ainda que nunca nomeada — à presidência de Donald Trump. Sem mencionar o americano uma única vez, o presidente brasileiro teceu críticas que ecoaram pela sala e foram interrompidas por aplausos: defendeu a soberania brasileira contra pressões externas, questionou o uso da força militar em situações que não constituem conflito, e reafirmou que democracias sólidas vão além de rituais eleitorais. Duas frases resumiram o tom: "seguiremos como nação independente e como povo livre de qualquer tipo de tutela" e a afirmação de que o Brasil não se curvará a pressões sobre sua soberania.
O discurso marcou uma escalada nas tensões entre Brasil e Estados Unidos. Assessores de Lula já esperam uma nova ofensiva da Casa Branca não apenas contra o país, mas contra funcionários do governo e do Judiciário brasileiro. O Palácio do Planalto, segundo fontes, caracteriza o governo Trump como "o governo da pátria dos extremismos". Lula defendeu a independência do Judiciário brasileiro e a lisura do julgamento de Jair Bolsonaro, recusando qualquer pacificação que viesse acompanhada de impunidade — um recado também dirigido ao Congresso nacional.
Em relação ao conflito no Oriente Médio, Lula intensificou o tom contra Israel. Chamou a ação israelense em Gaza de genocídio, defendeu a criação de um Estado Palestino independente, e criticou o veto dos Estados Unidos — referido apenas como "país anfitrião" — à presença de Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestiniana, na bancada palestina da assembleia. Sua condenação ao ataque terrorista do Hamas, que completaria dois anos em 7 de outubro, foi breve em comparação. A ênfase recaiu inteiramente sobre as ações de Israel.
O presidente também questionou o uso da força legal em situações que não constituem conflito, comparando-o a eliminar pessoas sem julgamento — a declaração mais dura de Lula desde o início da operação militar americana no Caribe contra a Venezuela. Embora tenha começado seu discurso condenando ditaduras e "candidatos a autocratas", fez uma defesa lateral tanto da Venezuela quanto de Cuba, duas ditaduras, o que criou uma contradição interna em sua fala.
Sobre a guerra na Ucrânia, Lula reafirmou que o conflito entre russos e ucranianos não tem solução militar e pediu a construção de "caminhos para uma solução realista". Defendeu as iniciativas de diálogo propostas por países africanos, Brasil e China — um recado implícito para Trump, que prometeu encerrar a guerra. O Brasil considera que o presidente americano "quebrou o gelo" nas negociações, mas não conseguiu avançar; Lula voltou a insistir em iniciativas de diálogo que não incluem o governo americano.
No encerramento, Lula defendeu o multilateralismo e grupos como o G20 e o Brics, que o Brasil presidia em 2024 e 2025 respectivamente. Diante dos ataques de Trump aos países do Brics, o presidente não apenas defendeu o grupo como afirmou que "a voz do sul global deve ser respeitada e ouvida". Também reafirmou a necessidade de combater a emergência climática, argumentando que armas nucleares não protegerão o mundo se ela se agravar. Questionou ainda a regulação das big techs e identificou a crise no comércio global como um dos problemas mais graves que o mundo enfrenta atualmente.
Os colunistas de O Globo que analisaram o discurso destacaram sua dureza — Vera Magalhães descreveu-o como "duríssimo, com direito a socos no púlpito". Bernardo Mello Franco observou que as críticas indiretas a Trump ecoaram e foram aplaudidas em pelo menos três momentos: ao defender a soberania e democracia brasileiras como inegociáveis, ao criticar a inclusão de Cuba na lista de países que apoiam o terrorismo, e ao criticar o veto americano à presença de Abbas. A expectativa agora é de uma resposta da Casa Branca que pode se estender não apenas ao governo Lula, mas a membros do Judiciário brasileiro.
Bemerkenswerte Zitate
seguiremos como nação independente e como povo livre de qualquer tipo de tutela— Lula, em discurso na ONU
democracias sólidas vão além do ritual eleitoral— Lula, em discurso na ONU