Lula fará seu oitavo discurso de abertura na Assembleia Geral da ONU, retomando participação ativa do Brasil em fóruns multilaterais após governo Bolsonaro. Agenda inclui reuniões bilaterais com Biden, Scholz e Abbas para discutir doações ao Fundo da Amazônia, empregos decentes e reforma da governança global.
Lula chega a Nova York para discurso de abertura da 78ª Assembleia Geral da ONU
O Brasil volta à mesa, mas com credibilidade em questão
Por que é tão importante que Lula faça esse discurso agora, especificamente?
Porque o Brasil passou quatro anos fora dos fóruns multilaterais. Lula está sinalizando que voltamos à mesa, que queremos participar das decisões globais sobre clima, fome, desigualdade.
Mas a questão é: com que credibilidade? As declarações dele sobre o TPI e sobre Putin criaram dúvidas sobre se o Brasil realmente está alinhado com os valores que diz defender.
Verdade. Por isso os especialistas estão pedindo que ele seja cuidadoso. O discurso precisa ser claro, não ambíguo.
E quanto às reuniões bilaterais? O que Lula espera sair delas?
Doações para o Fundo da Amazônia dos EUA, um plano conjunto com Biden sobre empregos, discussões sobre saúde global. São coisas concretas.
Mas nenhuma delas é garantida. A doação do Fundo da Amazônia, por exemplo — isso depende de aprovação no Congresso americano, não é só vontade de Biden.
Certo. E há também a questão de como o Brasil se posiciona na guerra da Ucrânia. Lula tem sido controverso nisso.
Então o risco real é que Lula saia de lá sem ter recuperado a confiança que o Brasil perdeu?
Exatamente. Ele pode fazer um bom discurso sobre clima e fome, mas se não resolver a questão da credibilidade nas relações internacionais, o impacto será limitado.
Por isso alguns especialistas sugerem que ele anuncie coisas concretas — como criar tribunais internacionais com sede no Brasil — em vez de fazer declarações genéricas.
El Pulso
- Lula fará seu oitavo discurso de abertura na Assembleia Geral da ONU, no dia 19 de setembro
- Reuniões bilaterais marcadas com Biden, Scholz, Abbas e diretor da OMS
- Pauta inclui Fundo da Amazônia, reforma do Conselho de Segurança da ONU e transição energética
- Especialistas alertam sobre controvérsias de Lula sobre TPI, Ucrânia e relações com governos ditatoriais
Lula fará seu oitavo discurso de abertura na Assembleia Geral da ONU, retomando participação ativa do Brasil em fóruns multilaterais após governo Bolsonaro. Agenda inclui reuniões bilaterais com Biden, Scholz e Abbas para discutir doações ao Fundo da Amazônia, empregos decentes e reforma da governança global.
O presidente Lula desembarcou em Nova York para participar da 78ª Assembleia Geral da ONU, onde fará o discurso de abertura no dia 19. O evento reúne líderes de 193 países para discutir paz, prosperidade e sustentabilidade global.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a Nova York na madrugada de terça-feira para participar da 78ª Assembleia Geral das Nações Unidas, um encontro que reúne líderes de 193 países sob o tema "Paz, Prosperidade, Progresso e Sustentabilidade". No dia 19, ele pronunciará o discurso de abertura — a oitava vez que ocupa esse lugar de honra na tribuna da ONU. A viagem marca um retorno deliberado do Brasil aos fóruns multilaterais após quatro anos de recuo durante o governo anterior.
A agenda é densa. Além do discurso inaugural, Lula tem reuniões bilaterais marcadas com o presidente americano Joe Biden no dia 20, onde os dois devem anunciar um plano conjunto para criação de empregos dignos em escala global, com apoio da Organização Internacional do Trabalho. Também está prevista discussão sobre doações dos Estados Unidos ao Fundo da Amazônia. O presidente ainda se encontrará com o chanceler alemão Olaf Scholz, o presidente palestino Mahmoud Abbas e o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde, Tedros Adhanom. A ministra da Saúde, Nísia Trindade, acompanhará Lula em Nova York para participar de três encontros temáticos sobre saúde global, incluindo negociações de um acordo internacional sobre prevenção e resposta a pandemias, além de discussões sobre o Sistema Único de Saúde brasileiro e combate à tuberculose.
Especialistas veem na presença de Lula uma oportunidade de o Brasil recuperar prestígio internacional perdido, especialmente em questões ambientais. Wagner Parente, consultor em relações internacionais, observa que o presidente poderá apresentar o projeto político-econômico do governo aos investidores e agências de risco, sincronizando expectativas globais com as ações brasileiras. A pauta inclui reformas estruturais que o Brasil persegue há anos: um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU e reformas no Fundo Monetário Internacional. Mariana Cofferri, especialista em relações internacionais, destaca que Lula aproveitará o evento para reafirmar o protagonismo brasileiro em desenvolvimento sustentável e energia limpa, temas que ganham força com a recente restauração da Comissão Nacional para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que havia sido desativada no governo anterior.
Mas o caminho não é sem obstáculos. Lula acumulou controvérsias em sua atuação diplomática recente que preocupam analistas. Na Índia, declarou que Vladimir Putin não seria preso caso visitasse o Brasil para a Cúpula do G20, apesar do país ser signatário do Tribunal Penal Internacional — uma afirmação que levantou questões sobre o compromisso brasileiro com a justiça internacional. Maristela Basso, professora de direito internacional da Universidade de São Paulo, critica o que chama de "agenda presumida" em declarações "atabalhoadas" sobre temas sensíveis como a guerra na Ucrânia e as tensões entre Estados Unidos e China. Ela sugere que o Brasil deveria anunciar a criação de duas autoridades internacionais com sede no país — um Tribunal Internacional Ambiental e um Tribunal Internacional Anticorrupção — e abster-se de outros comentários.
Vera Chemin, advogada constitucionalista, aponta que o cenário é desafiador porque Lula tem demonstrado apoio a governos que enfrentam hostilidade dos países desenvolvidos, como Cuba, China, Rússia e Venezuela, o que pode fragilizar as relações políticas e econômicas do Brasil. O posicionamento sobre a Ucrânia também é visto como problemático: Lula tem apoiado "estritamente o lado russo", segundo Cofferri, o que pode prejudicar sua credibilidade em um fórum onde a maioria das democracias ocidentais condena a invasão.
Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington, é mais otimista quanto aos resultados práticos. Ele não espera avanços concretos na reforma do Conselho de Segurança, mas acredita que Lula pode projetar o Brasil como liderança em mudanças climáticas, segurança alimentar e redução da fome e pobreza — desde que reafirme a independência e equidistância brasileira tanto em relação à guerra quanto às tensões entre superpotências. Paulo Roberto de Almeida, diplomata e professor, prevê que Lula provavelmente evitará retomar o tema do Tribunal Penal Internacional, que já causou polêmica, mas continuará oferecendo apoio genérico para negociações de paz na Ucrânia. Ele observa que, embora Lula tenha boa imagem em diversos círculos, a nova Guerra Fria e a falta de liderança regional podem limitar seu reconhecimento no cenário internacional.
Citas Notables
O Brasil terá a oportunidade de expor seu projeto político-econômico para os próximos anos, permitindo que as expectativas internacionais e do setor privado sejam sincronizadas às ações da iniciativa pública— Wagner Parente, consultor em relações internacionais
Pela primeira vez em décadas, embora com um presidente experiente, o Brasil se apresenta na abertura da Assembleia sem uma agenda clara e com uma 'agenda presumida' em declarações atabalhoadas sobre temas extremamente sensíveis— Maristela Basso, professora de direito internacional da USP