No limiar do outono em Nova York, o presidente Lula chegou carregando consigo as vozes do Sul Global — vindas de Havana, onde defendeu soberania e cobrou justiça climática. Sua presença na 78ª Assembleia Geral da ONU e o encontro com Biden não são apenas compromissos de agenda, mas a afirmação de que o Brasil busca, uma vez mais, ocupar seu lugar como voz independente na ordem mundial. É o eterno dilema das nações em desenvolvimento: como negociar com quem define as regras do jogo.
Lula chega a Nova York para Assembleia da ONU e se reunirá com Biden
Será necessário insistir na implementação dos compromissos nunca cumpridos
Por que Lula parou em Cuba antes de ir para Nova York? Parece uma escolha deliberada.
Era uma reunião do G77+China, um bloco de países em desenvolvimento. Lula abriu os discursos e usou a plataforma para criticar o embargo americano contra Cuba e cobrar os países ricos por compromissos climáticos não cumpridos.
Mas qual é o peso real dessa crítica ao embargo? Lula sabe que os EUA não vão mudar de política por causa de um discurso em Havana.
Verdade, mas não é sobre convencer os EUA. É sobre posicionar o Brasil entre os países em desenvolvimento, reafirmando que não aceita pressões unilaterais.
E quanto à questão climática? Ele foi específico?
Muito. Falou em industrialização sustentável, energias renováveis, bioeconomia. Mas o ponto central era: os países ricos têm dívida histórica pelo aquecimento global, então não podem exigir o mesmo esforço dos países em desenvolvimento.
Ele nomeou números? Compromissos específicos que não foram cumpridos?
Não. Falou em "compromissos nunca cumpridos", mas sem detalhar quais ou quanto representam em termos de financiamento climático.
E o encontro com Biden? O que esperar?
Lula vai levar essa mesma mensagem para Nova York. A questão é se Biden responde ou se ignora a crítica.
Sabemos se há agenda formal para o encontro além do que foi anunciado?
Não. O que temos é que está marcado para quarta-feira, mas os detalhes não foram divulgados.
Então Lula chega a Nova York com uma posição já clara: desenvolvimento com justiça climática, sem aceitar pressões unilaterais.
Exatamente. E com a COP-30 em Belém no horizonte, o Brasil quer deixar claro que será um ator importante nessas negociações.
Il Polso
- Lula aterrisou em Nova York após parada em Havana, onde chamou o embargo americano contra Cuba de 'ilegal' — posição que chega junto com ele à mesa com Biden.
- A tensão entre países ricos e em desenvolvimento domina a viagem: Lula cobrou que as nações industrializadas honrem compromissos climáticos que, segundo ele, nunca foram cumpridos.
- O Brasil se posiciona como guardião da Amazônia e da justiça climática, com Belém já confirmada como sede da COP-30, elevando o peso simbólico de cada declaração.
- A reunião bilateral com Biden na quarta-feira será o teste real: até onde vai a independência brasileira quando o interlocutor é a maior potência do hemisfério.
No limiar do outono em Nova York, o presidente Lula chegou carregando consigo as vozes do Sul Global — vindas de Havana, onde defendeu soberania e cobrou justiça climática. Sua presença na 78ª Assembleia Geral da ONU e o encontro com Biden não são apenas compromissos de agenda, mas a afirmação de que o Brasil busca, uma vez mais, ocupar seu lugar como voz independente na ordem mundial. É o eterno dilema das nações em desenvolvimento: como negociar com quem define as regras do jogo.
O presidente Lula desembarcou no Aeroporto JFK na noite de sábado, acompanhado da primeira-dama Janja, encerrando uma jornada que começou em Havana. Pela frente, dois compromissos de peso: a abertura da 78ª Assembleia Geral da ONU, na terça-feira, e um encontro bilateral com Joe Biden, na quarta.
Antes de embarcar para os Estados Unidos, Lula discursou na reunião do G77+China em Cuba. Da tribuna, criticou o embargo americano contra a ilha como 'ilegal' e reafirmou a oposição brasileira a qualquer medida coercitiva unilateral. O tom foi de quem fala para o mundo em desenvolvimento, mas sabe que será ouvido em Washington.
A pauta climática ocupou o centro de suas falas. Lula anunciou compromissos brasileiros com energias renováveis e bioeconomia, mas não poupou os países ricos: 'Não temos a mesma dívida histórica pelo aquecimento global', afirmou, sinalizando que o ônus da transição energética não pode ser distribuído de forma igualitária entre quem industrializou o mundo há séculos e quem ainda busca seu desenvolvimento.
O presidente também traçou o caminho entre a COP-28, em Dubai, e a COP-30, que o Brasil sediará em Belém — cidade que empresta à floresta amazônica um papel central nas negociações climáticas globais. A mensagem foi clara: o Brasil cobrará o cumprimento das promessas feitas.
A viagem desenha, assim, as prioridades da diplomacia brasileira sob Lula: desenvolvimento sustentável, justiça climática e resistência a pressões unilaterais. O encontro com Biden será o momento em que essas posições encontrarão seu maior interlocutor — e seu maior teste.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou em Nova York no final da noite de sábado, 16 de setembro, acompanhado pela primeira-dama Rosângela Lula da Silva, conhecida como Janja. O avião presidencial pousou no Aeroporto Internacional John F. Kennedy por volta das 23h, encerrando uma jornada que começou em Havana, onde o presidente havia participado de uma reunião do G77+China. Lula e Janja seguiram diretamente para um hotel, iniciando a agenda que o traria aos Estados Unidos para dois compromissos diplomáticos de peso: a abertura da 78ª Assembleia Geral da ONU, marcada para terça-feira, 19 de setembro, e um encontro bilateral com o presidente norte-americano Joe Biden, agendado para quarta-feira, 20 de setembro.
Antes de partir para Nova York, Lula havia ocupado a tribuna da reunião do G77+China em Havana no sábado. O encontro, que reunia países em desenvolvimento e a China sob o tema "Desafios Atuais do Desenvolvimento: Papel da Ciência, Tecnologia e Inovação", serviu como plataforma para o presidente brasileiro reafirmar posições que marcam sua diplomacia: a defesa de uma ordem global mais justa e a cobrança de compromissos climáticos aos países ricos. Durante seu discurso de abertura, Lula voltou a criticar o embargo econômico dos Estados Unidos contra Cuba, qualificando-o como "ilegal" e reafirmando que o Brasil se opõe a qualquer medida coercitiva de caráter unilateral.
A questão climática ocupou lugar central nas falas de Lula em Havana. O presidente anunciou que o Brasil promoveria a industrialização sustentável, investimentos em energias renováveis, bioeconomia e agricultura de baixo carbono. Mas sua mensagem carregava uma crítica implícita: enquanto os países em desenvolvimento se comprometiam com essas transformações, as nações ricas não honravam suas próprias obrigações históricas. "Não temos a mesma dívida histórica dos países ricos pelo aquecimento global", afirmou Lula, sinalizando que o ônus da transição energética não deveria recair igualmente sobre economias que industrializaram-se séculos atrás e aquelas que ainda buscam seu desenvolvimento.
Lula também usou o palco em Cuba para alertar sobre a importância de implementar compromissos já assumidos. Mencionou explicitamente o caminho entre a COP-28, que ocorreria em Dubai, e a COP-30, que será sediada em Belém, no Pará. "Será necessário insistir na implementação dos compromissos nunca cumpridos pelos países ricos", disse, deixando claro que o Brasil monitoraria o cumprimento das promessas feitas em negociações climáticas anteriores. A escolha de Belém como sede da próxima conferência climática global ganha, nesse contexto, uma dimensão simbólica: a Amazônia, e sua preservação, estariam no centro das discussões internacionais.
A passagem por Cuba também permitiu a Lula reafirmar uma posição de longa data da diplomacia brasileira: a oposição a sanções unilaterais. Ao chamar o embargo americano contra Cuba de "ilegal" e ao destacar que Cuba "tem sido defensora de uma governança global mais justa", Lula posicionava o Brasil ao lado de uma narrativa que questiona a hegemonia das potências ocidentais nas relações internacionais. Essa postura, expressa em Havana, chegaria a Nova York junto com o presidente, moldando o tom de suas intervenções na Assembleia Geral da ONU e em seu encontro com Biden.
A agenda em Nova York representa um momento crítico para a diplomacia brasileira. A Assembleia Geral da ONU é o fórum onde presidentes e chefes de governo apresentam suas prioridades ao mundo. Para Lula, que retornou à presidência em janeiro de 2023 após oito anos afastado do cargo, trata-se de uma oportunidade de reafirmar o Brasil como ator global com posições próprias e independentes. O encontro com Biden, por sua vez, sinalizará como as duas maiores democracias das Américas navegarão questões que vão desde o comércio até a política climática, passando pela situação na Venezuela e outras questões regionais. A jornada que começou em Havana e prossegue em Nova York desenha, assim, o mapa das prioridades brasileiras: desenvolvimento sustentável, justiça climática, soberania e resistência a pressões unilaterais.
Citazioni salienti
Não temos a mesma dívida histórica dos países ricos pelo aquecimento global— Lula, durante discurso em Havana
Cuba tem sido defensora de uma governança global mais justa. E até hoje é vítima de um embargo econômico ilegal. O Brasil é contra qualquer medida coercitiva de caráter unilateral— Lula, durante discurso em Havana