Lula foi derrotado na Câmara sobre o IOF (346 a 97 votos) mas mantém narrativa eleitoral focada em justiça fiscal e políticas sociais para sua base. Tarcísio de Freitas posiciona-se como político acima da polarização Lula-Bolsonaro na Marcha para Jesus, com apoio de centro-direita e dependência de Bolsonaro para viabilidade.
Lula antecipa campanha à reeleição enquanto Tarcísio emerge como alternativa
Essa briga nós temos que fazer, não dá para a gente ceder toda hora
Por que Lula insiste em defender o IOF depois de uma derrota tão clara na Câmara?
Porque para ele não se trata apenas de uma batalha fiscal — é uma questão de justiça tributária e de proteger seus programas sociais. Ele está falando para sua base eleitoral, não para o Centrão.
Mas a realidade é que ele perdeu 346 a 97. Os números não mentem. E o governo já recuou tanto que a arrecadação esperada caiu de R$ 19 bilhões para R$ 6 ou 7 bilhões. Isso não é uma vitória retórica, é uma derrota material.
E quanto a Tarcísio? Ele realmente é uma ameaça viável?
Ele está se posicionando como uma terceira via, acima da polarização Lula-Bolsonaro. Isso atrai a elite econômica e o centro-direita que está cansado dessa disputa.
Mas ele não tem pernas próprias. Sem Bolsonaro, ele é só mais um candidato paulista. A questão é: Bolsonaro vai apoiá-lo? Ninguém sabe ainda.
O que significa essa mudança em São Paulo, com o PSDB sendo desbancado?
Significa que o estado está sendo capturado por uma força política diferente — não é mais a disputa entre modernização tucana e desenvolvimentismo petista. É uma modernização conservadora e antidemocrática.
É verdade que houve uma mudança, mas o texto faz uma afirmação grande sobre o que isso significa para o Brasil inteiro. São Paulo é importante, mas é São Paulo. Precisamos ver se isso se replica em outros estados.
Il Polso
- Câmara aprovou urgência para derrubar IOF por 346 a 97 votos em 16 de junho
- Arrecadação esperada do IOF caiu de R$ 19,1 bilhões para R$ 6-7 bilhões após decretos
- Tarcísio de Freitas foi estrela da Marcha para Jesus em São Paulo em 19 de junho
- PSDB foi desbancado pelo bolsonarismo em São Paulo após hegemonia desde 1994
Lula foi derrotado na Câmara sobre o IOF (346 a 97 votos) mas mantém narrativa eleitoral focada em justiça fiscal e políticas sociais para sua base. Tarcísio de Freitas posiciona-se como político acima da polarização Lula-Bolsonaro na Marcha para Jesus, com apoio de centro-direita e dependência de Bolsonaro para viabilidade.
Lula defende aumento do IOF em entrevista e apresenta agenda de campanha à reeleição, enquanto Tarcísio de Freitas emerge como alternativa conservadora na Marcha para Jesus em São Paulo, traduzindo a força da extrema-direita.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva gravou uma entrevista para o podcast Mano a Mano no domingo 15 de junho, publicada na madrugada de quinta-feira 19 de junho, na qual defendeu com firmeza o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras proposto pelo Ministério da Fazenda. A medida elevaria a carga tributária para setores que hoje gozam de isenções fiscais — particularmente plataformas de apostas on-line e fintechs — com o objetivo de equilibrar as contas públicas e garantir investimentos em saúde, educação e obras públicas. Lula argumentou que as apostas online pagam apenas 12% de imposto quando deveriam pagar 18%, e que as fintechs, que funcionam como bancos, recusam-se a contribuir adequadamente. "Eles ganham bilhões e bilhões. Não querem pagar", disse o presidente.
Mas a entrevista foi gravada antes de uma derrota esmagadora na Câmara dos Deputados. Na segunda-feira 16 de junho, a Casa aprovou um pedido de urgência para derrubar o aumento do IOF por 346 votos a 97. Os deputados do Centrão, que formam a base aliada do governo, votaram em massa contra a administração, deixando Lula confinado ao campo minoritário da esquerda. Apesar do revés, o presidente não recuou. Ele insistiu que a elevação do imposto era necessária para evitar cortes de R$ 40 bilhões no orçamento de saúde, educação e obras públicas. "Toda vez que a gente vai ultrapassar o arcabouço fiscal, a gente tem que cortar no Orçamento. Essa briga nós temos que fazer, não dá para a gente ceder toda hora", afirmou.
O governo já havia editado três decretos sobre o IOF, todos rejeitados pelo Congresso. O último decreto, emitido na quarta-feira 18 de junho, reduziu drasticamente a expectativa de arrecadação: de R$ 19,1 bilhões para apenas R$ 6 bilhões ou R$ 7 bilhões. Ainda assim, Lula adotou uma narrativa claramente eleitoral. Na entrevista, apresentou uma agenda de campanha que inclui isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, programas de reforma de casas para pessoas de baixa renda, financiamento de motos elétricas para entregadores de aplicativo, regulamentação de redes sociais e combate à desinformação, além das polêmicas pesquisas de petróleo na Margem Equatorial da Amazônia. Lula reafirmou seu desejo de disputar a reeleição, caso sua saúde permita. Reconheceu, porém, que as pessoas não sentem que as coisas estão melhorando e se queixou da "imbecilidade" da extrema-direita no Congresso.
Enquanto isso, em São Paulo, emerge um novo ator político. Na quinta-feira 19 de junho, Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo pelo Republicanos, foi a estrela da Marcha para Jesus na Avenida Tiradentes, ao lado do prefeito Ricardo Nunes (MDB) e dos presidentes do PSD, Gilberto Kassab, e do PL, Valdemar Costa Neto. Enrolado numa bandeira de Israel, Tarcísio focou seu discurso em temas religiosos e falou em "reconciliação". Disse que o país precisa se livrar da "idolatria e corrupção". Embora não tenha assumido formalmente uma candidatura presidencial, seu posicionamento como político acima da polarização entre Lula e Bolsonaro é música para a elite econômica e os partidos de centro-direita. Não havia espaço para Lula participar da marcha sem levar uma vaia bruta.
A viabilidade de Tarcísio como candidato, porém, depende inteiramente de Jair Bolsonaro. Sem o apoio do ex-presidente — que está inelegível — não teria como conquistar os votos da extrema-direita e seria apenas mais um candidato paulista destinado à derrota. Sua ascensão reflete uma mudança estrutural profunda na política de São Paulo. Lula venceu na capital, mas foi derrotado por Bolsonaro no interior. O que emergiu do Palácio dos Bandeirantes foi um novo adversário que traduziu a força da extrema-direita no estado.
O PSDB, que protagonizou a modernização da política brasileira junto com o PT e foi hegemônico em São Paulo desde 1994, foi desbancado pelo bolsonarismo. Durante décadas, ambos os partidos se propunham a modernizar o país e superar o patrimonialismo, cada um à sua maneira: os tucanos pela reforma do Estado, equilíbrio fiscal e integração à economia mundial; os petistas pela perspectiva nacional desenvolvimentista, redistribuição de renda e ampliação da democracia. Ambos foram absorvidos pelo transformismo político. O PT nunca conquistou o interior paulista, e o PSDB foi volatilizado. A alternativa que emerge agora em São Paulo é uma modernização conservadora e "iliberal", alinhada a Donald Trump e à extrema-direita mundial.
Citazioni salienti
As apostas online pagam 12%, queremos que paguem 18%. Eles ganham bilhões e bilhões. Não querem pagar.— Presidente Lula, sobre a tributação das plataformas de apostas
O país precisa se livrar da idolatria e corrupção— Tarcísio de Freitas, na Marcha para Jesus